Nos últimos anos, a inteligência artificial ganhou espaço na agenda estratégica de hospitais e organizações de saúde. Aplicações voltadas ao apoio à decisão clínica, automação de processos, eficiência operacional e experiência do paciente deixaram de ser projetos experimentais para, de fato, integrar o planejamento das instituições.
Com o amadurecimento desse movimento, uma preocupação começa a ganhar força entre os gestores: como transformar o potencial da inteligência artificial em resultados concretos para a operação e para o cuidado ao paciente?
Para Sandro Marchette, Group CIO & CTO da Rede Santa Catarina, esse é o principal desafio da nova etapa da transformação digital na saúde. Com larga experiência no segmento de saúde e digital, o especialista alerta que tratar a IA apenas como uma solução tecnológica é um dos equívocos mais comuns.
“O mercado deixou de discutir apenas quem utiliza inteligência artificial e passou a avaliar quem consegue gerar valor com ela. O diferencial não estará na quantidade de ferramentas adotadas, mas na capacidade de utilizá-las de forma segura, integrada e alinhada à estratégia da instituição”, afirma.
Na prática, mudanças estruturais são necessárias. “É preciso preparar o ambiente para que a tecnologia funcione. Isso envolve qualidade e integração dos dados, segurança da informação, processos estruturados, definição de responsabilidades e capacitação das equipes. Sem essa base, mesmo soluções sofisticadas podem não entregar resultados”.
Desafio antes mesmo da contratação
Com o aumento da oferta de soluções de IA para o setor, hospitais também passaram a rever os critérios utilizados para avaliar novos investimentos. Na visão de Marchette, o ponto de partida deve ser a identificação de um problema real da instituição, e não a adoção da tecnologia por si só.
“Uma boa solução de inteligência artificial não é aquela que impressiona em uma demonstração. É aquela que melhora processos, apoia decisões e entrega resultados consistentes na operação. Isso passa, obrigatoriamente, pela cultura organizacional”, destaca o especialista.
Marchette reforça que a inteligência artificial deve atuar como uma aliada dos profissionais de saúde, e não como um substituto. “A inteligência artificial não substitui profissionais de saúde. Ela amplia sua capacidade de decisão, reduz tarefas repetitivas e permite que dediquem mais tempo ao cuidado do paciente.”
Entre os aspectos que merecem atenção estão evidências de efetividade, integração com os sistemas existentes, segurança da informação, conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), transparência dos modelos, definição de responsabilidades e monitoramento contínuo do desempenho das soluções.
Outro fator decisivo é a qualidade dos dados utilizados pelos modelos de IA. “Não basta possuir grandes volumes de informação. Os dados precisam estar corretos, atualizados, integrados e contextualizados. Uma IA aplicada sobre dados inconsistentes pode produzir respostas tecnicamente sofisticadas, mas operacionalmente inadequadas”, afirma.
Governança como diferencial competitivo
Para o especialista, a inteligência artificial continuará a ampliar presença em áreas como apoio à decisão clínica e administrativa, automação de atividades repetitivas, modelos preditivos para gestão de capacidade e riscos, além da integração entre informações assistenciais, financeiras e operacionais.
O avanço dessas aplicações, entretanto, torna a governança um elemento estratégico para garantir segurança, transparência e confiabilidade.
“A principal transformação dos próximos anos não será determinada por quem adotar mais ferramentas de IA, mas por quem conseguir aliar tecnologia, processos, dados, pessoas e governança de forma consistente.”
Na visão do executivo, os hospitais inteligentes do futuro não serão aqueles que utilizam mais inteligência artificial, mas aqueles que conseguem combinar tecnologia, pessoas, processos e dados para melhorar o cuidado ao paciente.
Na Rede Santa Catarina, esse processo tem sido conduzido como parte da estratégia de transformação digital. O trabalho envolve o fortalecimento da governança, a avaliação da maturidade organizacional e a definição de critérios para que futuras iniciativas possam gerar valor com responsabilidade, segurança e alinhamento à missão da instituição.