Um dos maiores desafios dos profissionais da área de distribuição de saúde no Brasil passa por garantir que medicamentos e materiais hospitalares cheguem a quem precisa, onde quer que essa pessoa esteja e sempre no tempo certo. Diante deste cenário, a questão fundamental que os líderes do setor enfrentam diariamente é: como assegurar que um paciente em Rio Branco, no Acre, tenha acesso à mesma solução de ponta disponível em um grande centro urbano como São Paulo? A resposta, em um país de dimensões continentais e complexidade única, está no uso inteligente da cadeia de suprimentos.
A logística em saúde transcende o simples ato de transportar determinado produto. Funciona, na verdade, como um tripé que equilibra a expertise de se deslocar por grandes extensões territoriais, obedecendo a regras rigorosas regulatórias e de compliance e, por fim, otimizando custos para garantir a eficiência de toda a operação.
Distribuir saúde no Brasil é, em essência, uma ciência de precisão que impacta diretamente o acesso da população aos mais variados tipos de terapias.
É neste cenário que a tecnologia, em especial a Inteligência Artificial, se torna um importante agente de transformação. Em grandes operações logísticas, que processam dezenas de milhares de pedidos por mês, a IA atua em duas frentes cruciais. A primeira é a de “tradução” e padronização, que já é realidade hoje, com um robô capaz de interpretar pedidos que chegam por múltiplos canais — desde um e-mail formal a uma mensagem de WhatsApp com erros de digitação —consolidando-os em uma ordem de serviço única e precisa. Isso elimina atritos e acelera de forma exponencial o início do processo.
A segunda frente, e talvez a mais impactante, é a otimização da rota. A IA já é capaz de analisar milhões de variáveis em tempo real para determinar como um produto, comprado em Santa Catarina, por exemplo, pode chegar ao Acre da maneira mais rápida, segura, econômica e efetiva. Isso é a materialização da democratização do uso da tecnologia para encurtar distâncias e equalizar as oportunidades de tratamento.
Essa revolução se aprofunda quando olhamos para nichos de alto valor e especificidades (como adequação de temperatura e rastreabilidade), em que o custo logístico é significativo. A parceria entre empresas especializadas e distribuidores de capilaridade nacional está mudando este paradigma, a exemplo da tecnologia de RFID (Radio-Frequency Identification). Neste caso, mais uma vez, o resultado se traduz num ganho de eficiência brutal quando o prazo de um processo de logística reversa, que antes levava dias, pode ser reduzido para menos de 24 horas.
Um outro benefício importante passa pela maximização do uso de ativos de alto valor agregado. Um equipamento que antes era utilizado 20 vezes ao mês pode passar a ser usado 50 vezes. Essa otimização libera capital, reduz desperdícios e pode diminuir em até 20% os custos logísticos de uma cirurgia, ou seja, é uma economia que permite que os sistemas de saúde, público e privado, realizem mais procedimentos, com os mesmos recursos.
No final das contas, a aplicação disciplinada de dados, alinhadas a um bom planejamento, pode proporcionar às empresas do setor reduções de despesas da ordem de 20% a 30%, além da otimização do inventário em até 30%, possibilitando a abertura de novos contratos e, consequentemente, o atendimento a um maior número de pacientes.
A tecnologia não está apenas nos tornando mais rápidos; está nos forçando a repensar fundamentalmente nossos modelos de negócio. O futuro da saúde no Brasil será construído sobre uma fundação de logística inteligente e processos eficientes. É assim que transformamos potencial em acesso e garantimos que a excelência em saúde seja, de fato, um direito universal em nosso país.
*J.R. Ferraz é Operating Partner do Pátria Investimentos e CEO na Elfa.