Em um cenário de inovação acelerada e custos crescentes, em que terapias inovadoras de alta complexidade — como imunoterapias, terapias gênicas e tratamentos personalizados – atingem cifras milionárias, ampliam significativamente o nível de incerteza para os financiadores e pressionam a sustentabilidade do ecossistema da saúde, a lógica tradicional dá sinais claros de esgotamento, abrindo espaço para novos modelos de negócio.
O desafio já não é apenas incorporar inovação com base em custo-benefício ou ROI (Retorno sobre o Investimento), mas garantir que ela entregue valor concreto. É nesse contexto que os acordos de compartilhamento de risco ganham protagonismo, catalisando uma mudança estrutural ao alinhar investimento, desempenho clínico e geração de valor real.
Mais do que um instrumento contratual, esses acordos representam uma nova arquitetura de negócios. Indústria farmacêutica, hospitais e operadoras passam a compartilhar responsabilidades e resultados, substituindo a lógica linear da cadeia de fornecimento por uma dinâmica integrada de geração de valor.
O pagamento deixa de estar vinculado exclusivamente ao fornecimento de um medicamento, equipamento ou tecnologia e passa a depender do desfecho observado na prática, em uma transição clara da lógica de volume para a lógica de valor – princípio central da saúde baseada em valor, cada vez mais consolidado como referência para sistemas sustentáveis e orientados a resultados.
Um novo equilíbrio entre risco e inovação
Os acordos de compartilhamento de risco surgem para lidar com variáveis que historicamente desafiam a incorporação sustentável da inovação, como as incertezas sobre efetividade em larga escala, aderência ao tratamento e impacto orçamentário.
Ao atrelar o investimento à performance, o modelo permite ampliar o acesso a terapias inovadoras com maior controle e previsibilidade. Na prática, quando o resultado esperado não é atingido, parte do custo é absorvida pelo fornecedor da tecnologia, reduzindo a exposição dos financiadores a decisões baseadas em evidências ainda incompletas.
Esse desenho materializa o avanço da saúde baseada em valor, ao conectar remuneração diretamente aos resultados clínicos.
Oportunidades para o ecossistema
Sob a ótica empresarial, os acordos de compartilhamento de risco transformam incerteza em um ativo gerenciável.
Para operadoras e financiadores, o principal ganho está na capacidade de incorporar inovação com maior segurança, reduzindo a exposição a tecnologias de alto custo e desempenho incerto. Isso amplia o espaço para decisões mais estratégicas, equilibrando acesso e sustentabilidade.
Para a indústria, os acordos abrem uma nova fronteira competitiva. Em vez de competir apenas por preço ou inovação incremental, passa a ser determinante a capacidade de comprovar valor em condições reais de uso, um diferencial especialmente relevante em áreas como oncologia.
Já para hospitais e redes assistenciais, o modelo impulsiona um reposicionamento estrutural. Instituições com maturidade em dados, protocolos e governança clínica deixam de ser apenas prestadoras de serviço e passam a atuar como agentes centrais na geração e validação de valor.
Alguns exemplos já demonstram esse potencial. No Brasil, acordos em oncologia envolvendo imunoterapia têm demonstrado combinação de bons resultados clínicos com maior eficiência no uso de recursos, incluindo mecanismos de ressarcimento em casos de falha terapêutica. No setor público, experiências com terapias de altíssimo custo também apontam que o modelo pode viabilizar acesso sem transferir integralmente, e de forma desequilibrada, o risco ao sistema.
Riscos: o que está por trás da promessa de valor
Apesar do potencial, os acordos de compartilhamento de risco introduzem uma nova camada de complexidade que não pode ser subestimada. Sua execução revela complexidades relevantes.
O primeiro desafio está na definição e mensuração de resultados. Estabelecer o que configura sucesso terapêutico e como mensurá-lo, pode gerar divergências relevantes. Diferenças metodológicas, critérios clínicos ou indicadores mal definidos e dados inconsistentes, comprometem não só a execução e o equilíbrio do contrato, mas a relação entre as partes. Metas excessivamente rígidas também podem desincentivar a adoção do modelo ou gerar disputas comerciais.
Outro ponto sensível é a assimetria de informação entre os envolvidos. Se nem todos os participantes possuem o mesmo nível de acesso a dados, capacidade analítica ou maturidade operacional, pode gerar desequilíbrios tanto na negociação quanto na interpretação dos resultados.
Sob a perspectiva de negócio, os riscos jurídicos também merecem atenção. Esses acordos exigem definições claras em aspectos como elegibilidade de pacientes, definição de métricas, governança e validação dos dados clínicos, critérios de auditoria e comprovação de resultados, responsabilidades financeiras especialmente em cenários de insucesso terapêutico e gatilhos de compensação. Ambiguidades nesses elementos frequentemente se traduzem em conflitos, especialmente quando os resultados não são atingidos e em contratos de maior complexidade.
Há ainda o risco operacional. A gestão desses acordos exige integração entre áreas clínicas, financeiras, jurídicas, tecnológicas e outras áreas de negócios, um nível de maturidade organizacional que muitas instituições ainda não possuem plenamente estruturado.
Nesse contexto, fatores com maior potencial de gerar interpretações divergentes devem ser cuidadosamente estruturados e formalizados, de modo a garantir segurança jurídica e previsibilidade, especialmente em um ambiente regulatório que frequentemente evolui em ritmo mais lento do que a inovação.
Limites do modelo
Apesar de seu potencial, os acordos de compartilhamento de risco não são aplicáveis a todos os contextos.
Eles tendem a funcionar melhor em situações de alto custo, com populações bem definidas e desfechos clínicos mensuráveis em prazos relativamente claros. Em cenários em que os resultados são difusos, de longo prazo ou influenciados por múltiplas variáveis externas, a aplicabilidade se torna mais restrita e a complexidade pode superar os benefícios.
A capacidade de execução também impõe limites relevantes. Sem infraestrutura de dados confiável, protocolos clínicos bem definidos e governança consistente, o modelo pode gerar mais desgaste do que eficiência.
Outro ponto crítico é o equilíbrio econômico dos contratos. A alocação inadequada de risco entre os elos da cadeia pode comprometer a sustentabilidade da parceria e desestimular a adoção do modelo, especialmente em contratos mal calibrados ou em ambientes com baixa previsibilidade.
O futuro: saúde baseada em valor como norte estratégico
Os acordos de compartilhamento de risco são um dos vetores mais concretos da transição para a saúde baseada em valor. Mais do que uma tendência, representam um ajuste estrutural na forma como o setor equilibra inovação, acesso e sustentabilidade.
Seu avanço, no entanto, dependerá menos da adesão conceitual e mais da capacidade de execução.
Organizações que conseguirem operar nessa lógica, estruturando dados, medindo desfechos e operando com transparência estarão mais preparadas para um ambiente em que o valor gerado ao paciente será o principal indicador de sucesso.
O compartilhamento de risco não elimina incertezas, desde que bem estruturado e gerido, ele as organiza. E, ao fazer isso, contribui para a construção de um ecossistema de saúde mais eficiente, sustentável e alinhado ao que realmente importa: o resultado na vida real.
*Érika de Mello é advogada e fundadora do escritório FMK ADV e Coordenadora do Curso de Compliance Trabalhista e professora da FIA – Fundação Instituto de Administração.