Tratamento por hemodiálise pode consumir 78 mil litros de água por paciente ao ano
13/08/2026

As mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental para se tornarem também um desafio da saúde. Na nefrologia, os impactos são ainda mais evidentes: pacientes com doença renal crônica estão entre os mais vulneráveis às ondas de calor, eventos climáticos extremos e interrupções no fornecimento de água e energia, essenciais para a realização da diálise. Ao mesmo tempo, os próprios serviços de terapia renal substitutiva figuram entre os que mais consomem recursos naturais dentro do sistema de saúde, utilizando grandes volumes de água, energia elétrica e gerando quantidade significativa de resíduos. Esse impacto não é pequeno. Segundo o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o setor da saúde responde por cerca de 5% a 10% das emissões globais de carbono, reforçando a importância de iniciativas voltadas à sustentabilidade também na assistência renal.

Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) criou, em 2023, o Comitê de Nefrologia Sustentável, responsável por desenvolver estratégias para tornar a assistência renal mais eficiente e ambientalmente responsável. Entre os integrantes do grupo está a médica nefrologista Cinthia Vieira, gestora da Clinefro e coordenadora do comitê. “O cuidado com os rins não pode estar separado do cuidado com o meio ambiente. A sustentabilidade deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade dentro da medicina”, afirma.
 

Sustentabilidade também pode reduzir custos

Embora ainda seja um tema pouco debatido no Brasil, a chamada Nefrologia Sustentável vem ganhando espaço em diversos países. Diferentemente do que acontece em outros setores, onde práticas ambientais costumam exigir investimentos elevados, na diálise muitas ações sustentáveis também representam economia.

O reaproveitamento da água descartada pelos sistemas de osmose reversa, a utilização de energia solar, o uso racional de insumos e a melhor gestão de resíduos podem reduzir significativamente os custos operacionais das clínicas de diálise. “É uma situação em que todos ganham. O paciente recebe um atendimento de qualidade, o meio ambiente sofre menos impacto e as clínicas conseguem otimizar recursos em um setor que trabalha com margens bastante apertadas”, explica a especialista.

A necessidade da discussão se torna ainda mais evidente quando se observa o impacto ambiental da terapia renal substitutiva. Uma única sessão de hemodiálise de quatro horas utiliza, em média, 500 litros de água. Ao longo de um ano, cada paciente pode consumir aproximadamente 78 mil litros, além de gerar cerca de 323 quilos de resíduos sólidos. O tratamento também demanda elevado consumo de energia elétrica.

Além de reduzir o impacto ambiental dos serviços de saúde, as recomendações elaboradas pelo Comitê buscam preparar a nefrologia para um cenário em que os efeitos das mudanças climáticas tendem a aumentar a incidência de doenças renais relacionadas ao calor extremo, à desidratação e às dificuldades de acesso ao tratamento durante desastres naturais.

Para Cinthia Vieira, esse é um compromisso que vai além da preservação ambiental. “Sustentabilidade é garantir que continuemos oferecendo assistência de qualidade para as próximas gerações. Quando utilizamos os recursos de forma consciente, reduzimos desperdícios, fortalecemos o sistema de saúde e protegemos tanto os pacientes quanto o planeta.”

O documento reúne diretrizes voltadas à educação permanente, monitoramento de indicadores ambientais, uso eficiente de água e energia, gestão de resíduos, planejamento para eventos climáticos extremos, incentivo à prevenção da doença renal, fortalecimento do transplante renal, inovação tecnológica e certificações de sustentabilidade. As recomendações foram aprovadas com 98,5% de concordância durante a 2ª Convenção da Diretoria da Sociedade Brasileira de Nefrologia e suas Regionais, e publicadas recentemente no Brazilian Journal of Nephrology.





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