As ações da operadora de saúde Hapvida caíram 33% ontem, cotadas a R$ 6,41, após a divulgação de resultados fracos no segundo trimestre. Há exatos 9 meses, os papéis da companhia chegaram a recuar 42% no pregão do dia 13 de novembro, também pressionados por um balanço ruim. No acumulado de 12 meses, a Hapvida perdeu R$ 14,2 bilhões em valor de mercado, desvalorização de 81,62% no período. Somente no pregão de quinta-feira (13), a empresa sofreu depreciação de R$ 1,6 bilhão e fechou avaliada em R$ 3,2 bilhões na B3.
Os resultados fracos são atribuídos às margens apertadas, piora na sinistralidade, forte consumo de caixa e alta na judicialização.
Entre as medidas anunciadas para voltar ao azul, a Hapvida informou que 947 mil planos de saúde são considerados deficitários, uma vez que o valor médio da mensalidade equivale à metade do tíquete médio praticado pela companhia, que foi de R$ 305,50 no segundo trimestre.
Uma parcela dessa carteira terá um reajuste de “duplo dígito alto” e uma outra parte será cancelada nos próximos 12 meses. A maioria dos planos de saúde atingidos é corporativo, modalidade em que a operadora pode rescindir o contrato.
Segundo Luccas Adib, CEO da Hapvida, a companhia está amparada judicialmente para promover esses cancelamentos.
Os 947 mil usuários representam 11% do total da operadora, que tem 8,6 milhões de beneficiários. Deste total, 5 milhões são planos corporativos, outro 1,4 milhão é da modalidade PME (pequenas e médias empresas), 670 mil são planos por adesão e o restante, convênios individuais. Com exceção do plano individual, as outras categorias são passíveis de cancelamentos pela operadora.
O anúncio que afeta quase 1 milhão de beneficiários ocorre num cenário em que vários indicadores no balanço do segundo trimestre da operadora vieram fracos e abaixo das projeções do mercado.
O lucro líquido caiu 98,5% de abril a junho, houve um consumo de caixa de mais R$ 600 milhões, aumento na taxa de sinistralidade de três pontos percentuais, para 75,2%, alta na judicialização que deve se estender no terceiro trimestre e multas a serem pagas à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), cujo patamar deve continuar elevado no segundo semestre. Além disso, a operadora perdeu 16 mil usuários de convênio médico no segundo trimestre.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ficou em R$ 492,6 milhões no trimestre. O montante é 20% inferior ao projetado pelos analistas do Citi e 30% abaixo do esperado pela equipe do BTG.
Os analistas do Itaú BBA destacaram que o atual cenário com retomada da judicialização e queda no Ebitda torna difícil projetar qual será o nível normalizado de rentabilidade da companhia daqui para frente.
Durante teleconferência realizada ontem para analistas e investidores, Adib destacou que a judicialização está acima dos níveis sustentáveis, mas deve melhorar gradualmente após uma reformulação completa do modelo de gestão jurídica que a companhia está promovendo. Em apenas três meses, houve um incremento de R$ 37,4 milhões em sinistros judiciais.
A taxa de sinistralidade entre o primeiro e o segundo trimestres subiu três pontos percentuais. “A evolução sequencial refletiu em larga escala a volumetria sazonal mais desfavorável no período, que se comportou próxima a patamares históricos, em adição a um transbordo maior de contas médicas entregues, acompanhando a maior utilização e frequências observadas em março”, informou a companhia.
A diretoria da Hapvida disse ainda que trabalha para resolver a questão de “centenas” de leitos ociosos e estuda o fechamento ou reavaliação da viabilidade de cerca de 30 unidades nos próximos 60 dias.
Nas regiões expostas aos planos de saúde que estão sob análise para readequação de preço ou cancelamentos, a empresa já tem ações para reduzir a capacidade da rede própria e mitigar a alavancagem operacional negativa.
Outra frente para crescer no mercado do Sudeste, que é hoje o “calcanhar de Aquiles” da Hapvida, é o aumento do credenciamento de estabelecimentos de saúde para planos de São Paulo, incluindo o interior paulista, e parte do Rio de Janeiro. Nessas praças, a companhia vem sofrendo concorrência com outras operadoras e os públicos dessas regiões têm se mostrado resistentes a ter convênio médico com rede própria. No Sudeste, a Hapvida perdeu 17 mil usuários, o que foi parcialmente compensado pelo incremento de 6,6 mil no Nordeste, Norte e Centro-Oeste.
Cerca 40% dos custos com cirurgias no Estado de São Paulo já foram negociados com prestadores de saúde. Agora, a iniciativa está indo para o Rio e interior de São Paulo. Há ainda reavaliação de estratégias comerciais, com investimentos redirecionados para iniciativas que melhor retorno. (Colaboraram Felipe Laurence e Adriana Peraita)