Farmacêuticas líderes colocam pacientes no centro da inovação
18/08/2026
A capacidade de inovar é mais do que um pilar estratégico para as empresas farmacêuticas e de ciências da vida. Ela é um indicador de relevância em um mercado ultracompetitivo. Vencer a corrida pelo desenvolvimento de produtos nessa área é o que sustenta essas indústrias no longo prazo. O Aché Laboratórios lidera o ranking Valor Inovação Brasil 2026 com uma estrutura robusta. Com seis laboratórios de pesquisa e desenvolvimento (P&D), um deles dedicado ao escalonamento industrial, e um laboratório de alta potência, a empresa investe em projetos com alto grau de diferenciação, com um foco: o paciente. 

“Esse é o ponto central de toda nossa inovação”, diz Wilson Junior, diretor-presidente do Aché. Segundo ele, inovar não significa apenas criar uma nova molécula. Entre os destaques recentes do portfólio de inovações da empresa estão os medicamentos desenvolvidos com tecnologia de grânulos orodispersíveis (ODG), que se dissolvem na boca sem necessidade de água, facilitando a administração. “Inovar é, por exemplo, entender que para alguém com Parkinson uma necessidade muito importante é dificuldade de deglutição”, explica. 

Os resultados apresentados pelo Aché são sustentados por investimentos consistentes. Em 2025, 8,7% da receita líquida foi destinada à inovação, tecnologia e transformação digital, sendo 5,2% para P&D, resultando em mais de 200 produtos lançados nos últimos cinco anos. “Só em 2025, chegamos a 55 lançamentos, o equivalente a um novo medicamento por semana nas farmácias”, afirma o executivo. 


 

O foco da estratégia é transformar necessidades médicas ainda não atendidas em soluções relevantes para pacientes e profissionais de saúde. Hoje, a empresa alcança cerca de 60 milhões de brasileiros com tratamentos em diversas áreas terapêuticas e almeja chegar a 100 milhões em 2030. 

Já a EMS mantém um dos maiores e mais modernos centros de P&D da América Latina, em Hortolândia (SP), onde concentra seus principais esforços em projetos voltados para medicamentos de alta complexidade e tecnologias capazes de ampliar o acesso a terapias inovadoras. “Em 2026, fomos a primeira farmacêutica nacional a lançar uma caneta de semaglutida no país”, conta o vice-presidente da empresa, Marcus Sanchez. 

O projeto foi desenvolvido com tecnologia própria da EMS, com base em síntese química de peptídeos. Segundo Sanchez, a inauguração da primeira fábrica de peptídeos do Brasil, também em Hortolândia, marcou um novo ciclo de inovação da companhia ao unir desenvolvimento tecnológico e capacidade industrial na mesma plataforma. 

Esse investimento viabilizou a produção nacional de análogos de GLP-1 e criou a base tecnológica para uma série de novos projetos. “Isso inclui o avanço da nossa estratégia internacional, com a aceitação pela FDA [Food and Drug Administration] das submissões para análise de semaglutida e tirzepatida, o que reforça nossa capacidade de competir em mercados globais”, diz Sanchez. 

Ele considera que um dos maiores aprendizados para a EMS nos últimos anos foi a necessidade de investir simultaneamente em várias frentes: pesquisa, capacidade produtiva e formação de equipes altamente especializadas. “A construção da plataforma de peptídeos mostrou que investimentos estruturantes geram ganhos que vão muito além de um único medicamento.” A mesma base tecnológica desenvolvida para a produção de liraglutida permitiu acelerar o desenvolvimento da semaglutida e ampliar a estratégia internacional da companhia. “Isso cria competências que hoje sustentam novos projetos, futuras moléculas e o processo de internacionalização da EMS.” 

Hypera Pharma vem buscando atuar com inovação incremental e aproveitar oportunidades de mercado geradas por exclusividades e patentes expiradas, além da expansão de grandes marcas para novos territórios de consumo. O medicamento Ondif, voltado ao tratamento de náuseas, é um exemplo de inovação incremental. Trata-se de um filme (película) oral que dissolve na língua de forma mais rápida e agradável ao consumidor. 

 

Com relação ao fim de exclusividades, a empresa desenvolveu a primeira alternativa à combinação Bronfeniramina + Fenilefrina — antialérgico e descongestionante nasal —, até então exclusiva no mercado. O lançamento englobou diferentes marcas do portfólio, como Descon, Hiscongex e Coristina D Congest, além da versão genérica na marca Neo Química. Já sobre queda de patentes, a Hypera lançou o Ecoxe, alternativa de um anti-inflamatório de última geração. E sobre a expansão de marcas do portfólio, o Engov After ampliou o seu território ao se conectar a um público mais jovem. 

A farmacêutica também pretende lançar produtos e novas formulações já desenvolvidas e ainda não disponíveis no Brasil. Os projetos são selecionados de acordo com o potencial de geração de valor para os consumidores, além de forte aderência à estratégia de crescimento da companhia. 

A Eurofarma, por sua vez, conta com um time de mais de 770 pesquisadores e especialistas para conduzir sua estratégia de inovação. Em 2025, investiu mais de R$ 700 milhões em PD&I, com um pipeline de mais de 300 projetos ativos em diferentes estágios de maturidade, da pesquisa inicial ao lançamento comercial. 

Segundo o vice-presidente de inovação da Eurofarma, João Siffert, a estrutura da empresa a posiciona como uma das poucas indústrias latino-americanas do setor com capacidade de desenvolver projetos de ponta a ponta de forma completa e integrada. Entre os projetos de destaque mais recentes estão a aprovação do XCopri, um medicamento relevante para pacientes com epilepsia farmacorresistente e a introdução de novas tecnologias de prevenção, como a vacina contra chikungunya, submetida à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

A estratégia da Eurofarma se sustenta em dois motores complementares. A inovação interna é conduzida principalmente pelo Eurolab, onde a empresa busca desenvolver novas soluções terapêuticas, plataformas tecnológicas e projetos de inovação incremental e radical. “Há 11 anos temos investido na busca de novos fármacos a partir de descobertas científicas próprias”, explica Siffert. O segundo motor é externo, num modelo de parcerias, licenciamento e codesenvolvimento com outras empresas biofarmacêuticas, startups, universidades e centros de pesquisa internacionais. 

Segundo Siffert, a Eurofarma adota três critérios básicos ao priorizar um projeto de inovação: o potencial de gerar benefícios clínicos para os pacientes, especialmente em necessidades médicas ainda não plenamente atendidas; a capacidade de o projeto ampliar o acesso a terapias inovadoras para populações que enfrentam barreiras econômicas ou geográficas; e a possibilidade de o projeto criar capacidades estratégicas para a companhia, fortalecendo suas competências científicas, tecnológicas e regulatórias. 

O Cristália mantém um comitê permanente de inovação para decidir os investimentos. “As ideias podem vir de todas as áreas”, explica Rogério Almeida, vice-presidente de PD&I da empresa. “Do marketing, ao ouvir necessidades dos profissionais médicos e dos pacientes; da nossa própria área médica, participando de congressos ou mesmo pelo acompanhamento de artigos científicos.” 
 

Almeida também destaca o papel ativo do departamento de patentes: “Estamos sempre monitorando o panorama futuro de possíveis quedas de patentes para identificar potenciais projetos para a área de genéricos”. A estratégia também envolve a prospecção ativa de empresas internacionais que buscam parceiros para desenvolvimento no Brasil. “Com isso, participamos de etapas clínicas e obtemos o direito de exploração de produtos inovadores no território latino-americano.” Um exemplo dessas parcerias foi o lançamento de um colírio para glaucoma sem conservantes, que pode ser mantido em temperatura ambiente depois de aberto e que reduz o risco de reações adversas. 

A empresa também mantém projetos de inovação radical em parceria com universidades públicas brasileiras. Um deles é o desenvolvimento de um lipossoma de resgate, descoberto pela Universidade Federal de Goiás, capaz de sequestrar a cocaína do organismo, para salvar vítimas de overdose. “Estamos finalizando a documentação para pedir autorização da Anvisa para iniciar testes em humanos”, diz Almeida. Outro projeto, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, busca o desenvolvimento de uma terapia gênica para controlar a saciedade no consumo de álcool. 


Qualquer que seja o cenário, a linha de corte do Cristália é sempre o benefício terapêutico. “O investimento sempre passa pela avaliação: aquilo vai trazer benefícios para o paciente ou alguma vantagem para o prescritor? Isso vai definir se um estudo vai ou não seguir adiante”, conta Almeida. 





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