As cinco empresas de serviços médicos mais bem classificadas no Valor Inovação Brasil 2026 têm em comum uma visão estruturada de gestão da inovação. “Hoje, a competitividade está diretamente relacionada à capacidade de gerar valor de forma contínua. Instituições que desenvolvem competências em inovação conseguem antecipar tendências, estabelecer parcerias estratégicas, atrair talentos e acelerar a adoção de soluções que fortalecem sua capacidade de resposta aos desafios do setor”, resume Sidney Klajner, presidente do Einstein Hospital Israelita.
A instituição persegue a inovação como forma de entregar vidas mais saudáveis a um número cada vez maior de pessoas. Neste ano, foi credenciada como Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) na área de saúde digital e também anunciou a criação de centros colaborativos de inovação (CCIs) por meio dos quais trabalhará com a indústria no desenvolvimento de novas tecnologias em saúde, sua validação clínica e a preparação das soluções para lançamento e uso em larga escala.
Segunda colocada no setor, a Dasa divide a inovação em três grandes blocos: tecnologia, técnica-médica e grandes parcerias com a indústria para modernização dos equipamentos. Por meio da tecnologia, o grupo focado em análises clínicas e medicina diagnóstica visa melhorar a experiência do usuário, provendo jornada digital de atendimento, exemplificado pelo Nav Dasa. Para estruturar a operação digital, a companhia integrou dados, passou pela transformação digital, fez investimentos em computação em nuvem, implementou um grande repositório centralizado de dados e avançou no modelo ágil.
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Os agendamentos, antes por call center, estão atualmente concentrados nos canais digitais. Pode parecer simples, mas a marcação de exames tem especificidades que tornam o processo complexo. “Quando você vai fazer um grupo de exames, deve seguir uma ordem certa e preparos específicos. Colocamos inteligência artificial para a unificação dos preparos de exame”, detalha Rafael Lucchesi, CEO da Dasa, que atende anualmente cerca de 20 milhões de pessoas e realiza 400 milhões de exames. O agendamento digital se mostrou duas vezes mais rápido, com redução de 65% no volume de ligações; agora, 60% das jornadas são iniciadas pelo digital.
Com relação à inovação técnica, a Dasa tem um grupo de médicos que trabalha nas áreas de imagem e no laboratório central valendo-se da base de dados integrada. Resultam disso modelos de IA que pré-identificam nas imagens geradas pelos exames achados críticos de doenças e interagem com os médicos para dar um direcionamento de diagnóstico. “Esses algoritmos olham de uma forma ampla e ajudam o médico a ter uma maior acurácia e produtividade no trabalho do dia a dia”, frisa Lucchesi.
A inteligência artificial permeia toda a organização em frentes que incluem o uso de copilotos para aumentar a produtividade do médico, atuando como assistente na melhoria da qualidade do exame, transformação do atendimento ao cliente e curadoria de agentes de IA — a Dasa tem perto de 50 agentes de IA em estágios de produção e validação.
No ano passado, somando investimentos em tecnologia, na renovação dos parques e na área de inovação técnica-médica, a Dasa destinou pouco mais de 2,5% da receita líquida para inovação. Nos últimos três, também vem fazendo investimentos na área genômica que resultam no lançamento de testes a cada ano.
O centenário Grupo Fleury trata a inovação de forma transversal e estipula objetivos de curto, médio e longo prazos. No horizonte próximo, entram as melhorias contínuas e específicas, que juntas respondem por cerca de 70% das iniciativas e investimentos. No médio prazo, são projetos que demoram mais para serem feitos e têm risco, como experiência digital para pacientes, incorporação de novas metodologias e novos testes na rotina. No longo prazo, entram o desenvolvimento de novos negócios e ofertas e a participação em pesquisas.
Em 2025, foram gastos R$ 107 milhões com inovações que retornaram R$ 112 milhões em ganhos de eficiência e R$ 350 milhões em novas receitas. Os resultados são acompanhados dentro de uma janela de dois anos, por meio de metas. No último ano, foram 484 novos produtos e alterações de metodologias, 53 projetos com startups implementados dentro da organização e cem novos artigos científicos publicados.
Entre os destaques, Patrícia Maeda, presidente da unidade de negócios B2C do Grupo Fleury, aponta o painel cardiológico, que analisa 11 ceramidas plásticas diferentes para avaliar o risco cardiológico e o potencial de desenvolvimento de doença cardiológica cinco anos antes de ela aparecer. “A gente tem a propriedade intelectual desse exame, que será lançado no segundo semestre. Ele tem a característica de ajudar as pessoas a antecipar problemas futuros”, frisa Maeda.
A implantação de um novo núcleo técnico operacional (NTO) na sede em São Paulo ampliou em 30% a capacidade produtiva da unidade de negócio Lab-to-Lab, pelo qual o Grupo Fleury processa exames de oito mil laboratórios menores presentes em dois mil municípios. Através de uma esteira inteligente, na qual o transporte de amostras circula em carros individuais, é possível realizar roteamento dinâmico e priorização automática de amostras urgentes, trazendo padronização, velocidade e automação avançada. Com isso, 80% da rotina produzida é liberada em até 180 minutos e houve uma redução de 23% no tempo de entrega do exame, no comparativo entre janeiro de 2025 e o mesmo mês deste ano.
Já o A.C. Camargo Cancer Center destina em torno de 1,5% da receita líquida para investimentos em pesquisas — como descobertas científicas, desenvolvimento de biomarcadores e testes diagnósticos e genéticos para verificar mutações e alterações do tumor com finalidade de tratamento — e inovações voltadas à transformação digital da instituição, que é focada no combate ao câncer. Iniciado há dois anos, o projeto Dédalo (acrônimo para Desenvolvimento Estratégico da Pesquisa para Descobertas Aplicáveis à Jornada Oncológica) une o laboratório assistencial e o de pesquisa tecnológica e acadêmica. “É acoplar a nossa veia científica com a parte de inovação. Queremos desenvolver muitas pesquisas. Por exemplo, biomarcadores que sejam transferidos para a área assistencial. A gente pretende, até o fim do ano, trazer de dois a três novos testes”, diz José Humberto Fregnani, diretor de ensino, pesquisa e inovação.
Fregnani também destaca o desenvolvimento da jornada oncológica digital, com uso de um assistente baseado em inteligência artificial, abarcando desde o momento antes de a pessoa virar paciente até a vida após o câncer. “É um dos principais projetos da área de inovação P&D, porque não existe algo assim no mercado. Estamos desenvolvendo junto com o setor de TI para trazer uma melhor experiência para o paciente, facilidade no agendamento, acesso ao hospital e respostas a perguntas”, detalha. O projeto está em desenvolvimento e tem a perspectiva de cinco anos. A expectativa é ter um MVP antes do fim deste ano para ser testado.
Para acelerar o processo de inovação, a Rede D’Or estruturou uma diretoria de transformação assistencial, inovação e inteligência artificial, que integra iniciativas desenvolvidas em diferentes áreas, atuando de forma transversal em toda a organização. “Priorizamos projetos com potencial de melhorar a jornada do paciente, aumentar a segurança, facilitar a prática médica e gerar ganhos de eficiência em escala”, diz Rodrigo Gavina, CEO de hospitais na Rede D’Or, que conta com cerca de 70 unidades.
A instituição usa IA para apoiar decisões clínicas, otimizar agendas, integrar informações médicas e tornar a jornada do paciente mais simples e fluida, com integração e segurança. A consolidação da transformação assistencial, incluindo automações e inteligência artificial, foi o principal avanço no último ano, quando o grupo também expandiu as soluções capazes de identificar precocemente pacientes com doenças como câncer, hepatopatias, endometriose e doenças reumatológicas e cardiológicas.
O modelo de inovação é sustentado pela combinação entre assistência em larga escala e pesquisa científica, tendo o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor) como um dos principais motores. “A integração entre hospitais e pesquisa permite transformar conhecimento em soluções aplicadas rapidamente à prática clínica, beneficiando pacientes, médicos e toda a operação”, ressalta Gavina. O planejamento do Idor prevê aproximadamente R$ 1 bilhão em investimentos até 2033 para ampliar atividades de pesquisa, ensino e inovação.