Quando tratar pesa no bolso: a toxicidade financeira do câncer
20/08/2026

Quando falamos em câncer, pensamos imediatamente no diagnóstico, no tratamento, na possibilidade de cura e na sobrevida. Mas existe uma dimensão da doença que ainda recebe menos atenção do que deveria: o impacto financeiro sobre o paciente e sua família.

Quando o tratamento pesa no bolso, compromete a renda, altera a rotina de trabalho e ameaça a capacidade de manter despesas essenciais, estamos falando de toxicidade financeira do câncer.

O tema ganhou ainda mais relevância com o Global status report on cancer 2026, da Organização Mundial da Saúde. A OMS aponta uma prevalência global agrupada de gastos catastróficos relacionados ao câncer de 56,1%. Nos países de baixa renda, esse índice chega a 73,3%; nos de renda média, a 57,6%; e, nos países de alta renda, fica em 26%.
Gasto catastrófico não significa simplesmente uma despesa elevada. É aquele que compromete recursos necessários para alimentação, moradia, transporte, educação e outras necessidades essenciais.

A toxicidade financeira se forma por uma combinação de fatores. Existem os custos diretamente relacionados ao cuidado, como consultas, exames, medicamentos, procedimentos e coparticipações. Mas existem também despesas menos visíveis: transporte, alimentação, hospedagem, adaptações na rotina e a necessidade de permanecer próximo a centros de referência.

Ao mesmo tempo, enquanto as despesas aumentam, a capacidade de gerar renda pode diminuir. O paciente reduz sua jornada, afasta-se do trabalho ou deixa de exercer sua atividade. Familiares e cuidadores também podem precisar reorganizar a vida profissional para acompanhar o tratamento.

A equação é especialmente perversa: os gastos aumentam justamente quando a renda diminui. E isso não é apenas um problema econômico. É também um problema de saúde.

A dificuldade financeira pode levar ao adiamento de exames e consultas, comprometer a adesão e interromper o acompanhamento. Um paciente pode ter o medicamento coberto e, ainda assim, não conseguir pagar o transporte até o serviço de saúde. Pode ter acesso ao procedimento, mas não ter renda suficiente para permanecer afastado do trabalho.

Ter cobertura, portanto, não significa necessariamente ter acesso real ao cuidado.

Foi dessa inquietação que nasceu o livro Vencer o Câncer: Toxicidade Financeira — Entre a Vida e a Dívida. A obra ajuda a tornar visível uma dimensão do câncer que muitas vezes permanece fora das discussões tradicionais sobre acesso.

Ao estudarmos o tema no Brasil, ficou ainda mais evidente que precisamos ampliar a pergunta. Não basta saber se o paciente recebeu o medicamento ou realizou o procedimento. É preciso saber se consegue chegar ao serviço, manter o tratamento, preservar sua renda, sustentar sua família e reconstruir sua vida durante e depois da doença.

A própria OMS reforça essa visão ao defender redução dos pagamentos diretos feitos pelos pacientes, mecanismos de assistência financeira, proteção relacionada ao afastamento por doença, apoio aos cuidadores e medidas de proteção no trabalho.

Para gestores, profissionais de saúde, fontes pagadoras, empregadores e formuladores de políticas públicas, fica uma provocação: qual é o verdadeiro desfecho que queremos produzir?

Sobrevida e controle da doença são fundamentais. Mas, se ao final do tratamento o paciente estiver endividado, desempregado e sem condições de recuperar sua autonomia, existe uma parte importante do cuidado que ficou pelo caminho.

O câncer não termina quando o medicamento é autorizado ou quando o procedimento é coberto. O cuidado também não deveria terminar aí. Combater a toxicidade financeira é reconhecer que tratar o câncer também significa proteger a possibilidade de continuar vivendo com renda, autonomia, dignidade e futuro.


*Gabriela Tannus é economista da Saúde e voluntária técnica do Instituto Vencer o Câncer.





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