Teste rápido da USP reduz estresse de pacientes em isolamento em UTIs por suspeita de superbactérias
21/08/2026

As superbactérias são cepas de microrganismos que desenvolveram resistência a múltiplos antibióticos. Isso acontece através da produção de enzimas destruidoras de remédios. A proliferação das bactérias do intestino, as Enterobactérias, que são resistentes aos carbapenêmicos (ERCs), é uma das condições mais graves para a saúde humana. No Brasil, por exemplo, infecções causadas pelas chamadas ERCs possuem uma taxa de mortalidade de 63,8%.

Entretanto, os métodos convencionais de tratamento, baseados no cultivo das bactérias em laboratório (cultura), demoram cerca de dois a três dias para fornecerem o resultado. Nesse meio tempo, pacientes têm que permanecer em um estressivo isolamento preventivo, sobrecarregando os hospitais e as equipes de enfermagem. Também existem os testes genéticos moleculares (como o PCR, Proteína C-Reativa), que oferecem maior rapidez e precisão, mas são inviáveis para a maioria dos hospitais públicos devido aos seus custos e equipamentos específicos.

Pensando nisso, pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), em parceria com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e a Fapesp, desenvolveram uma estratégia de precisão e baixo custo, capaz de detectar a presença das superbactérias no intestino humano. Para isso, aplicaram uma rotina na qual a amostra do paciente (coletada via swab retal) é colocada em um caldo nutritivo por apenas seis horas e depois inserida imediatamente no teste rápido, similar aos testes de farmácia, como da covid-19 e de gravidez, economizando tempo e recursos.

 

O pulo do gato

O médico infectologista Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da Faculdade de Medicina e um dos autores do estudo, conta qual é o diferencial da inovação, visto que testes rápidos já existiam no mercado. “O grande pulo do gato é a mudança no fluxo dos testes. Ao invés de realizarmos o exame no final do período de cultura das bactérias, ele agora é feito no início”, ressalta. Assim, a amostra coletada é colocada no meio de uma cultura líquida, durante apenas seis horas, quando já se apresenta adequada para a realização do teste, economizando até 60 horas de isolamento preventivo por paciente.

Em números concretos, o professor detalha qual é a diferença de custo entre o protocolo imunocromatográfico e os métodos tradicionais e quanto os hospitais economizam evitando as internações. “Realizamos uma simulação de uma UTI e, inicialmente, a cultura seria a opção mais viável, em torno de US$ 1.600. Enquanto o nosso imunocromatográfico custaria US$ 2.900 e o PCR, US$ 4.580. Mas a economia gerada pela redução dos isolamentos, causada pela demora do resultado do exame da cultura, torna o teste rápido e a opção mais econômica.”

“Os isolamentos por si só são muito caros e a redução de sua utilização economizaria muitos recursos e dinheiro para os hospitais. Nessa mesma modelagem que realizamos, a implementação do teste pouparia entre US$ 2.400 a US$ 3.900 para cada 100 leitos de UTI por semana. Se pensarmos num hospital que tenha 100 leitos de UTI, isso daqui em torno de um ano, estamos falando de praticamente US$ 200 mil, ou seja, mais de R$ 1 milhão”, completa o professor.

Mudanças na rotina hospitalar

Por outro lado, mudanças relevantes ocorrem na rotina das equipes de enfermagem que operam nas UTIs e na própria saúde mental dos pacientes hospitalizados ao terem o diagnóstico realizado em seis horas em vez de três dias. “Da perspectiva do paciente é muito estressante este grande período de tempo isolado pensando que pode ter uma bactéria potencialmente grave. E, para a enfermagem, é uma grande economia de tempo, que não precisará realizar inúmeros atendimentos para os mesmos pacientes”, afirma.

“É também importante ressaltar que a maior parte dos hospitais de pequeno e de médio porte tem poucos leitos para o isolamento. Então, abrir esses espaços muda completamente o fluxo e a dinâmica de atendimento dentro do centro médico. Além disso, medidas de prevenção de transmissão são implementadas em tempo mais otimizado”, diz. No geral, para a arquitetura hospitalar, o teste é algo que pode influenciar de forma muito positiva a disposição de recursos e pessoas.

Acessibilidade do teste

Apesar de o teste estar disponível para realização apenas em planos particulares no momento, a elaboração da nova tecnologia busca, além da otimização do tempo, acessibilizar o diagnóstico das superbactérias. “O kit de materiais e a estufa seriam os instrumentos mais custosos, mas a maioria dos materiais do exame é amplamente disponibilizada, para que grande parte dos hospitais consiga adquirir. Quando pensamos no projeto, visamos à disponibilização desse conhecimento para países em desenvolvimento e áreas remotas”, finaliza Salomão.

(Com informações do Jornal da USP)





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