No Brasil, porém, esse avanço ainda caminha em ritmo muito mais lento. Segundo a Federação Internacional de Robótica (IFR), o país possui aproximadamente 10 robôs para cada 10 mil trabalhadores, enquanto a média mundial supera 160. A última contagem nacional identificou cerca de 15,6 mil robôs em operação em 2019. Considerando o ritmo de crescimento, estima-se que esse número estivesse próximo de 25 mil equipamentos em 2025, ainda muito distante do potencial do mercado brasileiro.
Esse cenário contrasta com uma indústria que acelera globalmente. As projeções indicam que o mercado mundial de robótica deverá movimentar cerca de US$100 bilhões até o fim desta década, impulsionado justamente por aplicações em setores onde produtividade, escassez de mão de obra e segurança operacional passaram a caminhar juntas.
A maior barreira ainda está na gestão
Curiosamente, o principal obstáculo para essa transformação não é tecnológico.
Os robôs já conseguem navegar utilizando sensores LiDAR, visão computacional e inteligência artificial, desviando de pessoas, acessando elevadores e executando rotas de forma totalmente autônoma. A tecnologia amadureceu e está pronta para o mercado.
O desafio real está na forma como as organizações enxergam esse investimento. Ainda existe a percepção de que a robótica representa apenas uma despesa elevada de capital (CapEx). Na prática, trata-se de incorporar uma nova capacidade operacional, capaz de reduzir desperdícios, aumentar a previsibilidade e melhorar a utilização das equipes. A discussão deixa de ser “quanto custa comprar um robô?” para passar a ser “como tornar a operação mais eficiente e sustentável”.
Também existe uma barreira cultural importante. Toda automação desperta receio quando associada à redução de postos de trabalho. No ambiente hospitalar, essa narrativa é especialmente sensível. O sucesso da adoção depende justamente da mensagem oposta: o robô não substitui o profissional de saúde; substitui o deslocamento desnecessário. O objetivo não é retirar pessoas do hospital, mas retirar profissionais qualificados de tarefas que não exigem sua formação.
Há ainda um benefício frequentemente negligenciado pelos gestores. Processos logísticos automatizados tornam o fluxo de materiais totalmente auditável por meio de rastreabilidade total, diminuem os deslocamentos entre áreas críticas fortalecendo estratégias de controle de infecção hospitalar, e garantem que as rotinas de abastecimento ganhem pontualidade e consistência operacional.
Durante muito tempo, robôs hospitalares foram vistos como demonstrações de inovação para impressionar visitantes. Essa fase de “vitrine” ficou para trás.
A próxima discussão será estritamente econômica e assistencial. Quanto custa continuar desperdiçando horas de enfermagem em atividades logísticas? Quanto custa uma ruptura no abastecimento interno de um setor crítico? Quanto custa manter processos dependentes de deslocamentos constantes em um sistema de saúde que já opera sob pressão permanente?
A inteligência artificial continuará revolucionando diagnósticos, exames e decisões clínicas. Mas a transformação que tende a produzir resultados operacionais mais rápidos para os hospitais brasileiros provavelmente acontecerá longe dos holofotes, percorrendo silenciosamente corredores, elevadores e centrais logísticas.
Porque, no fim das contas, a tecnologia mais valiosa na saúde não é aquela que tenta simular a mente humana, mas a que devolve aos profissionais aquilo que faz mais diferença para o paciente: tempo para cuidar.
*Fabio Taborda Marques é CEO do Grupo MGITECH.

