Recentemente, Helton Freitas, presidente da Seguros Unimed, afirmou que os medicamentos agonistas de GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, vieram para ficar e que, em algum momento, deverão fazer parte da realidade da saúde suplementar. Essa afirmação vai muito além da incorporação de uma nova tecnologia.
A frase nos convida a refletir sobre um dos maiores desafios enfrentados pelas operadoras: como equilibrar inovação, acesso e sustentabilidade financeira em um cenário de crescimento acelerado das doenças crônicas e do envelhecimento da população?
Durante muitos anos, o setor concentrou seus esforços em administrar o aumento da utilização dos serviços de saúde. Agora, um novo componente ganha protagonismo: terapias altamente eficazes, porém de elevado custo, que podem alterar significativamente o comportamento das despesas assistenciais.
Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de discutir apenas quanto custará incorporar os medicamentos GLP-1, deveríamos falar sobre como utilizá-los de forma inteligente, segura e baseada em evidências.
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e progressiva. Está diretamente relacionada ao aumento de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, problemas osteoarticulares e diversas outras condições que representam parcela relevante dos custos da saúde suplementar.
Quando analisamos apenas o preço da medicação, enxergamos uma parte da equação. Já no momento em que analisamos toda a jornada do beneficiário, percebemos que a discussão envolve prevenção de complicações, redução de internações, menor utilização de procedimentos de alta complexidade, melhora da qualidade de vida e aumento da produtividade.
É justamente nesse contexto que dados deixam de ser um ativo operacional e passam a ser um instrumento estratégico de decisão.
As operadoras precisarão responder perguntas como: Qual é a população elegível para esse tipo de tratamento?; Quais beneficiários apresentam maior risco de evolução para eventos de alto custo?; Como definir critérios clínicos objetivos para indicação da terapia?; Como acompanhar adesão, persistência e efetividade do tratamento?; Quais indicadores assistenciais e financeiros devem ser monitorados para avaliar o retorno desse investimento?
Essas respostas não podem ser construídas com base apenas em percepções. Elas exigem integração de informações clínicas, farmacêuticas, atuariais e assistenciais. Mas essa integração somente é possível quando existe interoperabilidade entre os diferentes sistemas que compõem a jornada do beneficiário. Informações provenientes de operadoras, hospitais, clínicas, laboratórios, programas de cuidado, prescrições eletrônicas, utilização de medicamentos e dispositivos precisam conversar entre si para formar uma visão longitudinal do paciente. Sem interoperabilidade, os dados permanecem fragmentados e a tomada de decisão continua limitada.
Quando essas informações são integradas, abre-se espaço para uma gestão muito mais inteligente da saúde populacional. E assim, é possível identificar precocemente pacientes com maior risco clínico, direcionar intervenções para quem realmente poderá se beneficiar da terapia, acompanhar a evolução dos resultados e mensurar, de forma consistente, o impacto assistencial e econômico das decisões.
Essa é uma mudança importante de perspectiva. A discussão deixa de ser exclusivamente sobre controlar custos e passa a ser sobre gerar valor em saúde.
Nos próximos anos, os medicamentos GLP-1 provavelmente serão apenas o início. Novas terapias de alta complexidade e alto custo continuarão chegando ao mercado. As organizações que se destacarem serão aquelas capazes não apenas de acumular grandes volumes de dados, mas de torná-los interoperáveis e transformá-los em inteligência para apoiar decisões clínicas, atuariais e estratégicas. No futuro da saúde suplementar, a vantagem competitiva estará menos na posse dos dados e mais na capacidade de conectá-los ao longo de toda a jornada do beneficiário.
Mais do que incorporar inovação, será necessário saber para quem, quando, como e com quais resultados ela deve ser utilizada. Esse talvez seja o maior desafio e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade para a saúde suplementar brasileira.
*Lenisa Spínola é Gerente de Negócios da Prospera, Unidade de Negócios do Grupo Funcional.