Os avanços da medicina e o aumento da capacidade de resposta dos hospitais de alta complexidade têm reduzido a mortalidade intra-hospitalar. Como consequência, cresce também o número de pacientes que sobrevivem a quadros graves, mas que ainda necessitam de período prolongado de recuperação e reabilitação após a fase aguda do tratamento.
Esses pacientes deixam de precisar dos recursos intensivos de alta tecnologia e passam a demandar de cuidado mais contínuo, humanizado e multidisciplinar, voltado à recuperação de funções comprometidas durante a internação.
É nesse contexto que surgem os hospitais e as clínicas de transição, serviços voltados à reabilitação física, funcional e emocional de pessoas que já podem deixar o ambiente hospitalar, mas ainda demandam cuidados contínuos.
“Essas unidades funcionam como ponte entre o hospital e o retorno para casa, oferecendo acompanhamento multiprofissional e estrutura adequada para pacientes em recuperação de média e alta complexidades. Entre os serviços estão cuidados de enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia, assistência social e suporte médico quando necessário”, explica Felipe Vecchi, médico geriatra e diretor médico e operacional da BSL Saúde.
Dados da rede de Clínicas Sainte Marie, em São Paulo, ajudam a dimensionar o perfil dos pacientes atendidos nesse modelo de assistência. Ao todo, em 2025, 50,8% das pessoas internadas nas unidades possuem 60 anos ou mais, público que concentra grande parte das demandas por reabilitação e cuidados continuados.
A maioria desses pacientes é do sexo masculino, e os quadros clínicos mais frequentes envolvem recuperação pós-AVC (Acidente Vascular Cerebral), complicações após infecções e pacientes em cuidados de fim de vida.
Do “tech” para o “touch”
Esse modelo propõe mudança importante no cuidado: menos foco exclusivamente tecnológico e mais atenção ao acompanhamento integral do paciente. “O foco não é apenas tratar a doença ou as consequências dela, mas preparar o paciente para recuperar sua independência e autonomia, evitando re-internações e promovendo qualidade de vida”, explica Bruna Gomes Viana, enfermeira responsável da Clínica Sainte Marie, no Morumbi, em São Paulo.
Recuperação gradual e humanizada
Diferentemente do hospital tradicional, onde o atendimento costuma estar concentrado na fase aguda e em procedimentos técnicos, nas clínicas e hospitais de transição o cuidado acontece de forma mais próxima e contínua.
“A enfermagem passa a ser a equipe central desses ambientes, acompanhando toda a jornada de recuperação do paciente de forma integral e apoiando seu familiar ou outros cuidadores responsáveis”, afirma Bruna. Os profissionais também atuam fortemente na prevenção de complicações, na educação em saúde e no estímulo à retomada da autonomia do paciente.
O modelo de assistência busca acelerar a recuperação funcional e reduzir riscos de novas internações, especialmente em pacientes idosos com doenças crônicas, sequelas neurológicas, limitações motoras ou necessidade de suporte respiratório e nutricional.
Papel estratégico no futuro da Saúde
A melhora nos tratamentos e no controle das doenças crônicas tem contribuído para o aumento da expectativa de vida, mas também amplia o número de pacientes que sobrevivem a quadros graves e precisam de recuperação prolongada e reabilitação após a fase aguda da internação.
“O avanço da medicina faz com que as doenças crônicas permaneçam controladas por mais tempo. O impacto disso aparece justamente quando o idoso chega a uma fase de maior fragilidade. Muitas vezes, a própria internação hospitalar prolongada pode ser mais prejudicial para esse paciente”, explica o médico geriatra e diretor médico e operacional da BSL Saúde, Felipe Vecchi.
Segundo o IBGE, o Brasil tinha 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2024. Entre 2012 e 2024, a população idosa cresceu 53,3%, evidenciando o rápido envelhecimento demográfico do País.
Esse processo também tem impacto direto sobre a demanda por serviços de Saúde, já que o envelhecimento está associado ao aumento da necessidade de cuidados continuados, reabilitação e acompanhamento de doenças crônicas e condições de maior complexidade.
Nesse cenário, hospitais e clínicas de transição surgem como alternativa estratégica para ampliar a eficiência da rede e liberar leitos de alta complexidade. Dados do Observatório Anahp 2026 mostram que a taxa de ocupação operacional geral dos hospitais associados à entidade chegou a 77,79% em 2025, mantendo-se em patamar elevado.
Para o médico e executivo da BSL Saúde, a lógica desse modelo assistencial está diretamente ligada à necessidade de oferecer o cuidado adequado para cada etapa da recuperação do paciente.
“Os hospitais de alta complexidade possuem estruturas ultra especializadas, com UTI, centros cirúrgicos, medicina diagnóstica avançada e tecnologias de alto custo. Mas muitos pacientes, depois da fase crítica, já não precisam mais desse nível de complexidade. Eles precisam de um ambiente assistencial intermediário, focado em reabilitação, recuperação funcional e segurança clínica”, afirma.
Além da assistência mais adequada ao perfil do paciente, o modelo também apresenta impacto econômico importante para operadoras de saúde e hospitais. “O custo da internação hospitalar é muito mais alto por conta da tecnologia envolvida, dos medicamentos e da estrutura altamente especializada. Quando o paciente é direcionado para um ambiente de cuidado intermediário no momento correto, existe uma distribuição mais eficiente desses custos dentro do sistema”, explica Felipe Vecchi.
Ainda segundo ele, o investimento em cuidados de transição também pode contribuir para reduzir novas internações e retornos precoces ao hospital. “Se esse paciente recebe alta antes de estar preparado para voltar para casa, a chance de re-hospitalização aumenta. O hospital e a operadora podem fazer um investimento nessa transição justamente para evitar esse retorno precoce e garantir uma recuperação mais segura e sustentável”, conclui.
Estimativas do setor apontam que a transferência de pacientes elegíveis para unidades de transição pode reduzir em até 75% os custos associados a internações prolongadas, dependendo do perfil clínico e do nível de complexidade do cuidado. O modelo também contribui para liberar leitos hospitalares de alta complexidade e direcionar cada paciente para uma estrutura compatível com sua necessidade assistencial.
Mercado em expansão
O setor também apresenta forte potencial de expansão. Segundo o Diagnóstico do Setor de Transição de Cuidados no Brasil, da Associação Brasileira de Hospitais e Clínicas de Transição (ABRAHCT), divulgado em abril de 2025, existem 2.573 leitos de transição em operação no País, dos quais 181 são voltados ao SUS. A oferta atual cobre cerca de 32% da demanda potencial estimada, enquanto a taxa de ocupação chega a 81%, indicando espaço para ampliação da oferta desse modelo assistencial.
Além da relevância assistencial, o segmento já movimenta a economia da Saúde. De acordo com a ABRAHCT, em abril de 2025, o setor empregava cerca de 4,7 mil profissionais no País, sendo 72% deles diretamente envolvidos na assistência aos pacientes.
Nesse cenário, o avanço das unidades de transição no Brasil acompanha uma transformação mais ampla na forma de cuidar, com foco não apenas na sobrevivência do paciente, mas também na recuperação funcional, na autonomia, na segurança e na qualidade de vida após períodos prolongados de internação ou nos cuidados de fim de vida.