Durante muito tempo, acreditamos que ampliar o acesso à informação era suficiente para promover saúde. A lógica parecia simples: informação gera conhecimento, conhecimento gera melhores decisões e, consequentemente, uma população mais saudável. Mas essa lógica deixou de ser suficiente quando a internet e as redes sociais passaram a ter peso multiplicador nesta equação.
Segundo um levantamento da NordVPN, divulgado este ano, o brasileiro passa 52 anos, 9 meses e 16 dias de sua vida conectado online. Se considerada uma expectativa de vida de 76 anos, significa dizer que mais de 68% da vida é passada online. Estamos falando de uma população com acesso à informação na palma da mão, mas ainda assim vivemos um paradoxo quando o assunto é saúde. Com a internet, nunca foi tão fácil acessar informações sobre doenças, prevenção, alimentação, saúde mental ou qualidade de vida. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil saber em quem confiar.
Uma pesquisa global publicada pela revista Nature mostrou que 70% das pessoas acreditam em pelo menos uma informação falsa ou não comprovada sobre saúde, e isso inclui brasileiros. No nosso país, o mesmo estudo revelou que apenas metade (52%) da população confia na própria capacidade de encontrar respostas confiáveis para questões relacionadas à saúde e tomar decisões informadas.
Esses números revelam uma transformação importante. O desafio deixou de ser encontrar informação e agora é conseguir distinguir evidências de opiniões, conhecimento de especulação e ciência de conteúdo produzido apenas para chamar atenção.
O algoritmo não diferencia evidências de opiniões, se engaja, ele distribui
A saúde passou a disputar espaço na economia da atenção. Um artigo científico, revisado durante meses por especialistas, aparece na mesma tela que promessas de curas milagrosas, relatos individuais tratados como verdades universais e vídeos produzidos para maximizar engajamento. O algoritmo, infelizmente, não diferencia evidências de opiniões, ele recompensa aquilo que desperta emoções.
O resultado é um fenômeno que vai muito além da desinformação. Vivemos uma infodemia, um excesso de informações, muitas vezes contraditórias, que torna cada decisão mais difícil. Em vez de promover autonomia, esse ambiente frequentemente produz insegurança.
As consequências aparecem no cotidiano. Cresce a automedicação, um hábito comum entre 90% dos brasileiros, aumentam as dúvidas sobre tratamentos comprovados, fenômenos como a hesitação vacinal ganham força e até sintomas comuns passam a ser interpretados como doenças graves depois de algumas pesquisas na internet. Para além de espalhar informações incorretas ou dificultar o raciocínio sobre elas, a informação enfraquece algo essencial para o cuidado: a capacidade das pessoas de decidir com segurança. É justamente por isso que a comunicação em saúde precisa assumir um novo papel.
Empatia baseada em evidências
Além de informar, hoje é preciso transformar informação em compreensão e compreensão em confiança, e isso exige reconhecer que rigor científico não depende de linguagem complicada. Pelo contrário, a boa comunicação não simplifica a ciência, simplifica a forma de apresentá-la, traduz conceitos complexos sem perder precisão, explica incertezas com transparência e aproxima o conhecimento da realidade das pessoas.
Em um cenário em que qualquer indivíduo pode produzir conteúdo, a credibilidade já não é mais consequência da autoridade, é preciso também consistência. Construir confiança exige compromisso permanente com as evidências, clareza para admitir o que ainda não se sabe e responsabilidade para evitar respostas fáceis diante de temas complexos.
Esse desafio também amplia a responsabilidade de quem comunica. Empresas, profissionais de saúde, instituições, veículos de imprensa e criadores de conteúdo influenciam diariamente decisões que impactam diretamente a vida das pessoas. Por isso, sua responsabilidade vai muito além do negócio, ela é ética, social e educativa. Quando falamos de saúde, a comunicação precisa ser vista, para além de uma estratégia de reputação, como ferramenta de interesse público e gestão da confiança.
Penso que este pode ser o principal aprendizado da era da infodemia: não basta produzir mais conteúdo, é preciso produzir entendimento. No futuro, e também já no presente, o diferencial das organizações ligadas à saúde dificilmente estará apenas na tecnologia, na oferta de serviços ou na capacidade de alcançar milhões de pessoas. Será preciso trabalhar a capacidade de conquistar confiança.
E confiança se constrói com transparência, responsabilidade, consistência e profundo respeito pela inteligência e pelas dúvidas das pessoas. Quando o assunto é saúde, comunicar bem nunca significou falar mais alto que a marca concorrente, mas sim ajudar as pessoas a fazerem escolhas melhores, com base naquilo que a ciência pode assegurar. Penso que essa seja a mensagem mais importante para qualquer comunicador de saúde: acolha as pessoas, respeite suas dúvidas e nunca negocie a qualidade da evidência científica.
*José Colagrossi é Vice-presidente da GT7, empresa do Grupo Cartão de TODOS.