O Nevo, ferramenta que usa inteligência artificial (IA) para analisar imagens de pintas e manchas na pele em busca de sinais de alerta para câncer, ganha operação em escala em parceria com a healthtech AI Pathology — depois de testes com trabalhadores rurais no interior de Goiás e com colaboradores de grandes empresas. O acordo marca a entrada da AI Pathology no varejo de diagnóstico de alto volume, um canal diferente dos que a startup já operava.
Um dos cânceres mais comuns em países tropicais como o Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), os tumores de pele geralmente têm baixa letalidade, mas precisam ser detectados precocemente para aumentar as chances de cura — e muitas vezes as pessoas não procuram um médico assim que uma pinta ou mancha surge. Foi justamente essa lacuna que motivou a criação do Nevo, pelo cofundador e CEO da AI Pathology, Willian Boelcke.
Boelcke conta que não houve um momento único de virada. "Eu tinha 16 anos quando perdi meu pai para um câncer de pele e, nessa idade, você não transforma dor em empresa. Você só carrega e pensa que quer fazer algo a respeito para que isso não aconteça com outras pessoas", diz, em entrevista à EXAME.
Ele se formou dentista, foi direto para o doutorado na FOP-Unicamp e passou quase dez anos estudando oncologia. "Nesse período, eu não estava construindo a AI Pathology; estava entendendo o problema e por que a gente ainda sofre tanto com ele. A resposta é tecnológica e também de acesso. Falta conexão, falta fazer o paciente chegar ao médico na hora certa."
A AI Pathology nasceu em 2023, com o Dr. Lucas Lacerda, sócio de Boelcke à frente da IA. Em 2024, a tecnologia já funcionava — mas a empresa percebeu que isso, sozinho, não bastava.
"Vimos que ela sozinha não muda o ponteiro da assistência. Era preciso conectar as pontas do sistema de saúde para, aí sim, termos impacto e trabalharmos em escala", afirma.
Foi uma conversa com o Sabin que mudou o rumo do projeto. "Ficou claro que resolver a leitura da imagem não resolve nada se a pessoa continua sem chegar ao médico. O gargalo real era o acesso."
A empresa então adaptou modelos já validados em países como Nova Zelândia e Austrália, referências em teledermatologia, à realidade brasileira. Da ideia ao primeiro modelo funcional, segundo Boelcke, , foi cerca de um ano de trabalho.
Por que o Sabin apostou na parceria?
O produto rendeu à AI Pathology o Social Impact Fellowship Fund (SIFF), do Harvard Innovation Labs, em 2024, além de reconhecimento no Health Systems Innovation Hackathon, do Harvard Health Systems Innovation Lab, e participação em um programa de incubação no InovaHC, da Faculdade de Medicina da USP.
"Para nós, aqui no Sabin, inovação nasce quando se buscam soluções para problemas reais na saúde. Foi essa visão que nos aproximou da AI Pathology quando conhecemos o Nevo, que facilita muito a jornada de quem tem lesões que podem levar a um câncer de pele", afirma Rafael Jácomo, médico e diretor técnico do Grupo Sabin.
Segundo Jácomo, o Nevo não foi a primeira tentativa do Sabin no campo da triagem digital.
"Há um ano nós iniciamos a construção de um portfólio do que estamos denominando testes digitais. O primeiro teste que disponibilizamos foi o Biologix, desenvolvido por uma startup que é investida do Grupo por meio do fundo de VC Kórtex", diz. Para ele, a AI Pathology "compreendeu esta dor e adaptou seu modelo."
Como funciona o exame?
O serviço está disponível, por enquanto, para clientes do Sabin em Brasília, pelo e-commerce da empresa, com avaliação de até cinco lesões por atendimento.
Depois da contratação, uma equipe treinada vai até o endereço informado pelo cliente para coletar as imagens, usando um smartphone equipado com uma lente de magnificação e iluminação por luz polarizada — recurso que revela estruturas da pele não visíveis a olho nu.
As imagens são analisadas pela IA do Nevo; quando a tecnologia identifica um achado suspeito, o sistema aciona automaticamente uma teleconsulta com um dermatologista.
Segundo Boelcke, o limite de cinco lesões é uma decisão metodológica, não técnica nem apenas operacional.
"Cinco foi a média que a gente definiu para começar a validar o produto aqui no Brasil. Você precisa de um protocolo fixo para conseguir comparar resultados entre operações, regiões e versões do modelo. Sem isso, você não tem validação, tem coleta", afirma. "Existem casos que precisam de mais imagens. A gente já identificou isso em campo e vai adaptar nas próximas versões."
Por que Brasília primeiro?
Jácomo explica a escolha da capital para o lançamento. "Brasília é a sede do nosso grupo, onde boa parte da nossa estratégia é estabelecida e onde temos, individualmente, o maior número de clientes. Como estamos tratando de uma solução e modelo de negócio que estão em construção, as adaptações necessárias no processo inicial ocorrem mais rapidamente aqui. Mas nosso objetivo é levar os demais testes do portfólio a toda a nossa rede."
Sobre prazos para expandir a outras cidades, ele é cauteloso: "Como estamos falando de um modelo em construção, não trabalhamos com meta para expansão. Este início é uma experimentação [...] No momento em que eventuais atritos deste ciclo estiverem solucionados, começaremos com a expansão do serviço, pensando na capacidade de absorção em cada unidade e também na criticidade desse [exame] para cada localidade."
Quem responde se o exame errar?
Um ponto sensível é a responsabilidade em caso de erro de triagem. Segundo Jácomo, o Nevo nunca substitui o julgamento médico e todas as análises passam por um dermatologista, que é quem define a orientação final.
"A responsabilidade é compartilhada, no sentido de que nós entendemos que a ferramenta é segura para ser disponibilizada e, da parte da AI [Pathology], há uma responsabilidade técnica de fato, inclusive com a presença dos profissionais dermatologistas", afirma.
Boelcke afirma também que "O Nevo é triagem, não diagnóstico. Quem diagnostica câncer de pele é o médico, com laudo e exame histopatológico. O que a gente faz é ajudar a encurtar o tempo de quem precisa ver um médico com urgência."
Treinada para não deixar a pele escura passar despercebida
Um dos pontos mais técnicos do Nevo trata de um viés histórico da dermatologia digital: a maioria dos modelos de IA do mundo foi treinada majoritariamente com imagens de pele clara.
"O problema estrutural da IA dermatológica é que ela foi treinada em pele branca. A gente mapeou os 30 principais datasets públicos de dermatologia do mundo. Nesse corpus inteiro, fototipos V e VI de Fitzpatrick [os mais escuros da escala usada em dermatologia] são 5,8% das imagens, enquanto na linha de base global de consultas dermatológicas esses fototipos representam cerca de 43,8%", diz Boelck. "Não é que os modelos existentes sejam ruins com pele escura. Eles nunca viram pele escura."
Segundo ele, a base de treinamento do Nevo — cerca de 1 milhão de imagens coletadas no Brasil, em cinco regiões do país, incluindo a Amazônia — cobre todos os fototipos, do I ao VI.
Para efeito de comparação, ele cita que a soma dos 30 maiores datasets públicos de dermatologia do mundo chega a 1.145.893 imagens — próxima do volume que a AI Pathology já reúne sozinha, vindo de uma única população.
"Um algoritmo treinado majoritariamente em pele europeia traz para o Brasil um viés que não é abstrato — ele se manifesta como falso negativo em paciente de pele parda e negra, que justamente quem chega mais tarde ao diagnóstico. Corrigir isso não é só uma questão de justiça. É uma questão de desempenho técnico."
93% de acerto no piloto premiado em Harvard
Sobre a taxa de assertividade divulgada publicamente pela empresa — até 95% —, Boelcke faz questão de detalhar a origem do número.
"Em campo, no piloto com o SENAR em Goiás, a assertividade observada foi de 93% contra o padrão de referência. Hoje a validação é interna, retrospectiva, dentro da nossa base de dados multi-institucional", afirma.
O piloto, realizado entre setembro de 2025 e maio de 2026 em quatro municípios goianos, foi premiado por Harvard no ano passado. "Foram 2.058 rastreamentos em trabalhadores rurais, exatamente a população de maior risco e menor acesso do país [...] Desses 2.058, 75 casos de câncer de pele foram confirmados por biópsia. Essas pessoas não estavam procurando atendimento, que não tinham queixa, e que hoje sabem o que têm", diz.
Segundo ele, a estimativa de custo evitado para o sistema de saúde é de cerca de R$ 31 milhões, considerando cerca de R$ 147 mil por paciente de alto risco tratado a tempo.
Próximos passos: Anvisa, FDA e integração ao ecossistema do Sabin
A AI Pathology está em fase final de registro do Nevo junto à Anvisa como software para dispositivo médico.
"Isso era condição inegociável para operar dentro de uma rede de diagnóstico [...] Nenhum parceiro do porte do Sabin coloca uma plataforma no fluxo assistencial sem as devidas autorizações", diz Boelcke.
O próximo passo é internacional: a empresa busca validação do modelo em população americana sob o padrão da FDA, agência regulatória de medicamentos dos Estados Unidos, com o registro (clearance) no país como meta declarada.
O Sabin não é o único canal comercial da healthtech — o Nevo já opera com seis grandes empresas em nível nacional, entre saúde corporativa e rastreamento populacional.
Do lado do Sabin, a integração do Nevo a outras frentes do grupo, como o Rita Saúde e a Amparo Saúde, já está nos planos. "Entendemos que esta solução é válida não apenas como um novo modelo de acesso a diagnósticos mais complexos, mas também pode ser uma ferramenta para o médico em geral na avaliação de seus pacientes", diz Jácomo.
Para Boelcke, a meta segue além de qualquer planilha. "Fazer com que o rastreamento do câncer de pele deixe de ser um privilégio de quem mora perto de um dermatologista. Meu pai morreu de uma doença que dava para ver. É isso que vamos consertar."