Quando pensamos no Setembro Amarelo, é natural que nosso olhar se volte para o paciente. Falamos sobre prevenção do suicídio, depressão, ansiedade e busca por ajuda. Mas há uma pergunta que precisa entrar nessa conversa: quem cuida de quem passa a vida cuidando dos outros?
Médicos e demais profissionais da saúde adoecem. Ansiedade, depressão e esgotamento podem atingir quem diariamente orienta, diagnostica, acolhe e trata. O diploma não suspende a condição humana.
Ao longo da minha trajetória, passei por plantões, hospitais públicos e privados e conheci uma rotina que exige mais do médico do que conhecimento técnico: noites sem dormir, decisões sob pressão, pacientes graves, famílias angustiadas, falta de estrutura e pressão por produtividade.
Na saúde pública, há escassez de recursos e demanda elevada; na privada, outros desafios. Com vínculos fragmentados e contratos como pessoa jurídica, muitos médicos acumulam hospitais, clínicas e plantões, com pouco espaço para recuperação.
Pesquisa brasileira publicada em 2024 no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, voltada a médicos residentes, reuniu literatura que aponta prevalências importantes de depressão e registra que até 8% podem relatar ideação suicida no período de um ano. Os números variam, mas reforçam que o sofrimento psíquico de quem se forma para cuidar precisa ser visto.
A residência é um período fundamental e de enorme exigência. A legislação prevê até 60 horas semanais, com plantões, folga e descanso após o plantão noturno. Ainda assim, quem passou por ela sabe que a vida real nem sempre cabe no papel: escalas precisam ser cobertas, pacientes continuam chegando e intercorrências não respeitam horário.
Durante muito tempo, a cultura médica tratou resistência quase como virtude: dormir pouco era dedicação, suportar plantões consecutivos era força, não reclamar era vocação. Precisamos rever essa equação. Suportar sofrimento não deveria ser medida de competência.
Há ainda uma armadilha silenciosa: o médico pode continuar atendendo e cumprindo a agenda mesmo quando não está bem. Sofrimento psíquico não é sinônimo automático de incapacidade, assim como produtividade não é atestado de saúde mental.
Ansiedade, depressão e comportamento suicida são multifatoriais. Seria incorreto atribuir o adoecimento à profissão, mas igualmente equivocado fingir que o trabalho não importa. Carga horária, autonomia, descanso e previsibilidade também fazem parte dessa experiência.
Uma carreira médica atravessa décadas. Reorganizá-la pode significar diminuir plantões, mudar de serviço ou área, combinar atividades ou buscar maior autonomia. A perícia médica, área em que atuo hoje, foi um dos caminhos que encontrei dentro da própria Medicina. Não porque a perícia seja solução para o adoecimento mental. Não é. Depressão, ansiedade e burnout exigem avaliação e cuidado adequados, e nenhuma mudança profissional substitui tratamento. Mas conhecer outros caminhos pode ajudar a construir uma carreira mais compatível com a vida que se deseja ter.
Nem sempre viver melhor significa trabalhar menos. Às vezes, significa construir uma relação diferente com o trabalho. Neste Setembro Amarelo, além de perguntar como estão nossos pacientes, precisamos perguntar: como estão os profissionais que passam os dias cuidando deles? Quem cuida também pode adoecer. Quem cuida também pode precisar de ajuda. E quem cuida também merece ser cuidado.
*Caroline Daitx é médica especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, professora, autora e CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE).