Valor 1000: Planos de saúde buscam eficiência para sustentar crescimento
09/09/2026
As operadoras de planos de saúde, que enfrentam elevada inflação médico-hospitalar, judicialização, fraudes e desperdícios, estão adotando uma gestão focada no uso racional dos recursos, nos mecanismos de controle e na inovação contínua, com apoio de inteligência artificial (IA), em seus processos e serviços ao cliente. Também criam produtos mais focados, de olho nas necessidades dos diversos perfis de empresas, já que cerca de 84% dos planos do mercado são coletivos. 

Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam que, em junho passado, 53,1 milhões de pessoas tinham planos de assistência médica, ante 52,4 milhões no mesmo mês de 2025, e 36,7 milhões contavam com planos exclusivamente odontológicos (em junho de 2025, esse número era 34,1 milhões). 
 

A Bradesco Saúde vem apostando na integração de dados e informações para aprimorar a coordenação do cuidado e aumentar a eficiência dos processos. Encerrou o primeiro semestre de 2026 com 13,6 milhões de beneficiários em saúde e odonto — mais de 90% em planos coletivos —, com adição líquida de 423 mil vidas no período. 

“Esse modelo de gestão orientou a expansão do portfólio, fortalecendo nossa atuação em segmentos estratégicos, como o de pequenas e médias empresas (PMEs)”, destaca Carlos Marinelli, presidente da Bradsaúde (empresa criada a partir da consolidação dos ativos de saúde do grupo Bradesco, no início de 2026). 

 

A Bradesco Saúde vem apostando na integração de dados e informações para aprimorar a coordenação do cuidado e aumentar a eficiência dos processos. Encerrou o primeiro semestre de 2026 com 13,6 milhões de beneficiários em saúde e odonto — mais de 90% em planos coletivos —, com adição líquida de 423 mil vidas no período. 

“Esse modelo de gestão orientou a expansão do portfólio, fortalecendo nossa atuação em segmentos estratégicos, como o de pequenas e médias empresas (PMEs)”, destaca Carlos Marinelli, presidente da Bradsaúde (empresa criada a partir da consolidação dos ativos de saúde do grupo Bradesco, no início de 2026). 

Para as PMEs, a operadora — que também avança em modelos de coparticipação e novas modalidades de reembolso — vem desenvolvendo planos regionais, mas que também contam com cobertura nacional. Além dessa iniciativa, já presente em cinco mercados e com previsão de chegar a outros, há opções regionais em Goiás e no noroeste paulista. O cenário de 2027, diz Marinelli, aponta para oportunidades de crescimento da saúde suplementar, especialmente impulsionadas pelo mercado de trabalho e pelo fortalecimento das pequenas e médias empresas. 

A Hapvida, outra gigante do setor, seguiu em 2025 uma agenda de maior integração da rede própria, aprimoramento dos protocolos clínicos baseados em evidências, maior uso de tecnologia na gestão assistencial e operacional e fortalecimento da atenção primária à saúde. Sua estratégia está ancorada no modelo verticalizado, que permite maior coordenação do cuidado. 

Em 2026, diz Luccas Adib, CEO da Hapvida, esse trabalho ganhou ainda mais rigor “com escrutínio regional e benchmarks internos por unidade na rede própria, além de avanços em negociações com a rede credenciada e uso intensivo de dados e inteligência artificial (IA) no combate a fraudes e desperdícios”. 

A operadora de saúde da família Pinheiro, que está em um longo processo de reestruturação financeira, avalia vender ativos na região Sul do país para reduzir sua alavancagem. A empresa perdeu cerca de R$ 14 bilhões em valor de mercado nos 12 meses encerrados em agosto, após sucessivos resultados fracos, atribuídos a margens fracas, sinistralidade e judicialização. 

A Hapvida fechou o segundo trimestre de 2026 com 8,7 milhões de beneficiários em planos de saúde e 7,3 milhões de beneficiários em planos odontológicos, com 82% da carteira em planos coletivos. Os investimentos da operadora, que tem uma gestão rigorosa dos custos, são em modernização da rede própria, tecnologia, expansão da atenção primária e desenvolvimento de soluções apoiadas por IA. Também quer competir no segmento premium, com a marca NotreDame Saúde. 

 

Na SulAmérica Saúde e Odonto, a manutenção da disciplina na precificação, a evolução do tíquete médio, o aumento da base de beneficiários e o fortalecimento de vendas regionais e de produtos para PMEs são estratégias que estão dando certo. No ano passado, a operadora registrou, por exemplo, queda de 3,2 pontos percentuais na sinistralidade em saúde e odonto. O indicador retornou ao patamar pré-pandemia, ficando em 79,5%. Já no fechamento do segundo trimestre de 2026, o indicador caiu para 78,9%, menos três pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano passado. 

A operadora, que registrava no fim do segundo trimestre de 2026 uma carteira com 6,1 milhões de beneficiários em saúde e odonto — 9,7% acima do fechamento do segundo trimestre de 2025 —, também atua em outras frentes para equilibrar o negócio. Uma delas é a coparticipação, vista como uma ferramenta de conscientização. “Acreditamos nessa solução, não para que os beneficiários usem menos o plano, mas para que usem melhor”, diz Raquel Reis, CEO da SulAmérica Saúde e Odonto. 

Com aumento de 6,9% na receita líquida no segundo trimestre de 2026 sobre o igual período de 2025 — com expansão de base e ajuste de preços —, a seguradora vê a prevenção como forma de favorecer diagnósticos precoces e tratamentos mais efetivos. E, para continuar crescendo, a aposta é na diferenciação: além do foco em PMEs, há uma estrutura especializada, de perfil mais consultivo, para atender empresas de maior porte. 

Outra gigante do setor, a Amil, que ganhou 400 mil beneficiários em planos de saúde no ano passado, segue com iniciativas que deram certo em 2025. Isso inclui gestão de custos médicos, precificação adequada, negociações com hospitais atreladas a indicadores de qualidade, novos modelos de contrato, priorização de serviços com prestadores de referência e controle de fraudes e de desperdícios. 

A operadora, que tem cerca de 6,3 milhões de beneficiários — 57% em planos médicos e 43% em planos odontológicos, com 88% do total em planos coletivos, colhe frutos da criação, no ano passado, da vice-presidência de clientes, visando a centralidade do cliente em toda a operação. “Os reflexos são claros: começamos este ano com a melhor retenção histórica da Amil”, observa Renato Manso, CEO da Amil. Em 2026, a Amil quer crescer na carteira empresarial e ampliar seu segmento premium. “Com o lançamento da linha Amil Black em fevereiro, fortalecemos a nossa posição em um segmento estratégico, onde estão os tomadores de decisão das empresas”, conta Manso. 

 

Ele aponta o mercado de trabalho resiliente como fator para operar com a perspectiva de crescimento da saúde suplementar, ainda que de forma pontual. “O cenário atual exige das operadoras e dos prestadores de serviço uma postura cada vez mais competitiva e inovadora”, diz o executivo. 

Adquirida no fim de 2023 pelo empresário José Seripieri Filho, conhecido como Júnior no mercado, a Amil voltou a ser alvo de fundos interessados na compra da operadora. As gestoras Advent e Bain Capital estão em conversas para adquirir a companhia, mas não há um acordo fechado até o momento. 
 

A operadora, fundada pelo empresário Edson Godoy Bueno, foi vendida para a gigante americana UnitedHealth Group (UHG), que, por sua vez, negociou a empresa de saúde para Júnior, no fim de 2023. O empresário desembolsou R$ 2 bilhões e assumiu R$ 9 bilhões em contingências. 

Nesses últimos meses, o empresário conseguiu resolver as contingências do grupo e o negócio voltou a ficar lucrativo. 

As cooperativas médicas, que detêm cerca de um terço do mercado de planos de saúde, também trabalham para melhorar seus indicadores e processos. Nesse segmento, o desempenho varia bastante. Há desde a Unimed-Ferj (antiga Unimed-Rio), que está em processo de recuperação extrajudicial, até outras cooperativas que apresentam desempenho acima da média, como as Unimeds de Belo Horizonte e de Porto Alegre. 

Para a CNU (antiga Unimed Nacional), que é a maior cooperativa médica, o ano de 2026 será de consolidação de sua recuperação econômico-financeira, diz seu presidente, Luiz Otávio Fernandes de Andrade. Depois de três anos de prejuízo, registrou lucro de R$ 239,3 milhões em 2025. A reversão foi apoiada por eficiência operacional, disciplina financeira, governança mais robusta e melhoria contínua da gestão assistencial. Também foi essencial para essa recuperação o aporte de R$ 1 bilhão de outras cooperativas do sistema Unimed. 

Atualmente, os 98% dos 2,12 milhões de beneficiários da CNU pertencem a planos coletivos e a cooperativa tem investido em tecnologia, aprimorando a jornada digital do usuário e usado inteligência de dados para prevenção de fraudes. Produtos para vários perfis corporativos foram redesenhados, como planos de cobertura nacional e versões regionalizadas. Mas são as empresas que possuem operações descentralizadas ou equipes em múltiplas regiões do país que estão no centro da estratégia. “Nosso diferencial é entregar soluções de saúde para organizações que demandam escala, capilaridade nacional e capacidade de gestão de carteiras complexas”, destaca o executivo. 



 

Em Minas Gerais, a Unimed-BH conta com 1,63 milhão de beneficiários (87% em planos coletivos) e aposta em ampliação da rede própria, avanço da saúde digital, uso intensivo de dados e IA, coordenação do cuidado e inovação. No ano passado, a partir da incorporação da Unimed Sete Lagoas, passou a atuar em 46 municípios do Estado. 

Até 2027, a expectativa é entregar novos hospitais — um em Contagem (que terá a primeira fase concluída até o fim de 2026) e outro em Nova Lima, além do fortalecer modelos assistenciais orientados por protocolos baseados em evidências científicas, uso de IA, combate a fraudes, entre outras medidas. 

Para estimular um uso mais assertivo da rede prestadora, a operadora criou uma solução de IA que direciona o beneficiário para o serviço mais adequado à sua necessidade. “A ferramenta contribui para reduzir atendimentos evitáveis em urgências e emergências e para melhorar a experiência do cliente”, destaca Frederico Peret, diretor-presidente da Unimed-BH. 

A operadora também está ampliando os atendimentos via saúde digital, que já acumulam mais de 2,6 milhões de consultas on-line e disponibilizou aos médicos cooperados um novo prontuário eletrônico, com assistente de voz e IA para transcrição automática das consultas, histórico clínico integrado, prescrição digital e acesso em tempo real a informações sobre medicamentos. 

A Associação Brasileira dos Planos de Saúde (Abramge) projeta, com base na relação histórica entre o crescimento da economia e a evolução do número de beneficiários, um aumento de 1,1% em 2026 sobre 2025. Assim, o ano fecharia com cerca de 53,5 milhões de pessoas em planos médico-hospitalares. 

Segundo o presidente da Abramge, Gustavo Ribeiro, a maior incidência de doenças crônicas, a incorporação acelerada de novas tecnologias e a judicialização exigem cada vez mais eficiência do setor. “O crescimento das doenças crônicas, por exemplo, é uma realidade que exige planejamento de médio e longo prazo, com maior atenção à prevenção, à atenção primária e à coordenação do cuidado”, destaca o executivo. 

Bruno Sobral, diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), observa que os resultados positivos recentes mostram recuperação após as fortes perdas pós-pandemia, mas também o fim desse ciclo de recuperação. As operadoras, acrescenta, trabalham no limite da precificação. “A sinistralidade do setor é superior a 82% e as margens são muito apertadas”, ressalta. 

O equilíbrio, diz Sobral, virá de um modelo que reduza as ineficiências do setor com o aprofundamento de modelos de pagamento baseados em valor, o uso responsável da IA, maior interoperabilidade de dados, mais liberdade econômica para o desenho de produtos e preços e medição de desfechos em saúde. Para 2027, ele espera que o mercado consiga manter um ritmo de crescimento sustentável, “apesar de as taxas de desemprego já se encontrarem em níveis historicamente baixos”. 

 

 





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