Quando a genética não explica: desafios de casos sem diagnóstico
11/09/2026

Quando os exames genéticos convencionais não conseguem explicar a causa de uma doença, uma nova tecnologia amplia a investigação do DNA e abre caminho para respostas mais precisas. Na investigação de uma condição genética, diferentes métodos diagnósticos são utilizados para responder a perguntas distintas. O sequenciamento do exoma é capaz de identificar pequenas alterações no DNA, enquanto métodos citogenéticos, como o cariótipo e o array, olham para alterações maiores na quantidade ou na estrutura dos cromossomos.

O desafio surge quando a alteração responsável pela doença está na estrutura do genoma: uma sequência que mudou de lugar, foi invertida, duplicada ou deletada, por exemplo. Algumas dessas alterações ficam fora do alcance dos métodos convencionais.

É nesse contexto que o Mapeamento Óptico do Genoma (OGM, do inglês Optical Genome Mapping) entra como uma alternativa. A tecnologia analisa moléculas muito longas de DNA, preservando sua estrutura, o que permite visualizar alterações estruturais em maior resolução e em escala de todo o genoma. Assim, a técnica identifica alterações que ajudam a explicar casos que permaneceram sem diagnóstico após outras etapas da investigação.

Uma nova ferramenta para investigar doenças raras

Um dos principais potenciais do OGM está na investigação de doenças raras e casos sem diagnóstico definido. Em um estudo publicado em 2025, pesquisadores avaliaram pacientes que já haviam passado por cariótipo, array e exoma sem encontrar uma causa para o quadro clínico. O OGM identificou alterações estruturais que não haviam sido detectadas anteriormente, incluindo translocações e deleções.

Para pessoas que passaram por uma longa jornada diagnóstica, realizando diferentes etapas de investigação sem conseguir identificar a causa de sua condição, a tecnologia abre uma nova frente de análise. O objetivo não é substituir os métodos genéticos existentes, mas ampliar a capacidade diagnóstica quando há suspeita de uma alteração estrutural que as abordagens anteriores não conseguiram esclarecer.

Aplicação também na reprodução assistida

O OGM também tem aplicação na investigação genética de casais que enfrentam infertilidade, perdas gestacionais recorrentes ou histórico de alterações cromossômicas sem causa esclarecida.

Algumas pessoas carregam uma alteração cromossômica estrutural equilibrada, como uma translocação, sem apresentar manifestação clínica. A questão pode aparecer no momento da formação dos gametas, aumentando o risco de gerar embriões com alterações cromossômicas e, consequentemente, de infertilidade, abortamentos ou doenças genéticas na descendência.

Nesses casos, o OGM permite identificar alterações estruturais que não foram detectadas pelo cariótipo e delimitar com maior precisão o ponto de quebra no DNA. Estudos recentes demonstraram essa aplicação em casais com alterações cromossômicas crípticas e histórico de desfechos reprodutivos adversos.

A tecnologia também pode ser considerada quando um casal apresenta repetidamente embriões aneuploides na análise por PGT-A, especialmente quando o padrão dos resultados levanta suspeita de uma alteração cromossômica estrutural. Essa informação contribui para o aconselhamento genético e para o planejamento reprodutivo.

Da ciência à prática clínica no Brasil

Há cerca de dois anos, durante minha participação no American Society of Human Genetics (ASHG), acompanhei diferentes apresentações sobre o potencial do OGM na investigação de doenças genéticas, especialmente em pacientes que permaneciam há anos sem uma resposta diagnóstica.

O contato com a evolução da tecnologia e com os resultados apresentados internacionalmente abriu a oportunidade de trazer essa possibilidade para a prática clínica brasileira. Hoje, o OGM já é disponibilizado no Brasil, ampliando as ferramentas disponíveis para a investigação de alterações estruturais do genoma.

Para pacientes e famílias que ainda não encontraram uma explicação para sua condição, a tecnologia representa uma alternativa adicional na busca pelo diagnóstico. Em genética, uma resposta mais precisa pode ajudar a compreender a origem de uma doença, orientar o acompanhamento do paciente, investigar outros familiares e apoiar decisões sobre o futuro.


*Luciana Rodrigues é Superintendente de Operações e Negócios da Dasa Genômica.





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