Após uma negociação com muitas idas e vindas nos últimos meses, o empresário José Seripieri Filho, conhecido como Júnior no mercado, desistiu de vender a operadora de saúde Amil para as gestoras Bain Capital e Advent. A reunião que bateu o martelo sobre o negócio ocorreu nesta quinta-feira (10.
Essa foi a segunda tentativa tanto da Bain quanto da Advent em adquirir a Amil. As gestoras de “private equity” (que compram participação em empresas) olharam a operadora na época em que a americana UnitedHealth Group (UHG) colocou o ativo à venda, em 2023. No entanto, adquirir a companhia sem diligências como queriam os americanos estava fora de cogitação. Júnior, por sua vez, comprou a operadora de “porteira fechada” numa transação avaliada em R$ 11 bilhões, sendo que R$ 9 bilhões eram contingências judiciais.
Júnior negou a proposta das gestoras, mas deixou uma porta aberta para outros interessados desde que a transação envolva uma participação minoritária.
“Nós conversamos com esses investidores, como é praxe no mercado, porém, gostaríamos de informar a você, em primeira mão, que esse processo está encerrado, sem qualquer mudança societária na companhia. Continuamos abertos a propostas futuras de investimentos minoritários, preservados nossos princípios e valores”, informa trecho de comunicado enviado aos funcionários da Amil. O documento, enviado ontem, é assinado pelo conselho de administração da operadora, do qual Júnior é presidente.
O empresário estaria apostando numa abertura de capital no momento em que o mercado esteja favorável. Um investidor minoritário poderia ajudá-lo no processo de expansão para que a Amil tenha um “valuation” atraente no momento de um IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês).
Segundo fontes, Júnior e a direção executiva da companhia, liderada por Alberto Bulus e Grace Tourinho, acreditam que ainda há espaço para crescer sobretudo no mercado de planos de saúde voltado para a base da pirâmide, no Sudeste do país. Hoje, esse segmento é liderado pela Hapvida, mas a operadora tem enfrentado dificuldades, inclusive, por conta da concorrência com a Amil.
Além do vai e vem nas negociações, os valores que circularam no mercado também oscilaram muito. No começo, falava-se que o ativo era avaliado em R$ 12 bilhões, mas no decorrer das conversas, com o aumento do interesse dos fundos, chegou-se a cogitar até R$ 20 bilhões.
Segundo fontes, o empresário teria aceitado vender 100% da operadora, o que fez as gestoras darem andamento ao processo. Nas últimas semanas, as conversas giravam em torno das garantias para possíveis riscos. Os fundos não abriam mão e o empresário não teria aceitado as condições levando-o a desistir de vez. Sobre esse ponto, a Amil informou que não vai comentar.
Operadoras de planos de saúde podem ter contingências como ações judiciais movidas por usuários de planos de saúde, risco de sinistralidade de produtos subprecificados, provisões exigidas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Além disso, a Amil tem uma carteira de planos de saúde individual bastante deficitária, que já foi alvo de tentativa de venda por parte da UHG.
Júnior resistia em se desfazer da empresa comprada há menos de três anos. A aquisição da operadora trouxe o empresário novamente aos holofotes — o que também pode ter pesado, após quase três anos (entre 2020 e 2023) mais afastado do burburinho do setor de saúde, do mercado financeiro, entre outras demandas típicas de lideranças.
A operadora, que durante dez anos apurou prejuízos sob comando da americana UnitedHealthGroup (UHG), voltou a ter lucro operacional, de R$ 1,9 bilhão, no ano passado. A empresa tem receita anual de quase R$ 30 bilhões, com 3,6 milhões de usuários de convênio médico e 2,7 milhões de plano dental.