Nesse cenário, a discussão sobre excelência no ensino médico passa por questões que vão além da transmissão de conhecimento. A preparação dos futuros médicos envolve o desenvolvimento de habilidades práticas, capacidade de comunicação, profissionalismo, tomada de decisões, integração com outros profissionais e atualização ao longo de toda a carreira.
No Brasil, essas transformações ganham relevância em meio à expansão da oferta de cursos de medicina e à busca por mecanismos capazes de acompanhar a qualidade da formação. A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o Enamed, colocou o tema no centro do debate nacional ao oferecer um novo retrato do desempenho dos cursos. Mas a própria discussão sobre a avaliação evidencia uma perspectiva mais ampla: medir conhecimento é uma parte importante do processo, mas não esgota as competências necessárias para o exercício da medicina.
A experiência acumulada por instituições brasileiras na avaliação prática, o desenvolvimento de novas tecnologias educacionais e a necessidade de formar profissionais preparados para uma população que envelhece apontam para uma transformação que começa na graduação, mas não termina com o diploma.
O debate sobre a qualidade da formação médica ganhou uma nova dimensão com os resultados do Enamed. O exame passou a oferecer informações sobre o desempenho dos cursos e a alimentar discussões sobre infraestrutura, qualificação docente, campos de prática, currículo e capacidade de formar profissionais preparados para atuar nos diferentes contextos do sistema de saúde.
O novo instrumento é realizado anualmente e unifica as matrizes de referência e os instrumentos de avaliação no âmbito do Enade para os cursos de medicina e da prova objetiva de acesso direto ao Exame Nacional de Residência. Seus resultados também podem ser utilizados nos processos seletivos de programas de residência médica.
Mais do que estabelecer uma comparação entre instituições, o modelo abre espaço para uma discussão sobre os diferentes elementos que compõem a formação. O desempenho dos estudantes é uma dimensão importante, mas a qualidade de um curso também está relacionada às condições em que o ensino acontece, à qualificação dos professores, à integração entre teoria e prática e à capacidade dos serviços de saúde de absorver estudantes e oferecer experiências formativas.
Para o ex-ministro da Educação, Camilo Santana, que esteve à frente da pasta até o início de abril, o Enamed tem o papel de diagnóstico da formação médica, mostrando as instituições que apresentam bom desempenho e aquelas que precisam melhorar: “Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse país, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas”.
Santana também destacou a importância de avaliar diferentes condições que fazem parte da formação. “O que estamos avaliando é se os cursos têm uma boa infraestrutura, se eles têm monitoria, laboratório, se têm bons professores. E isso a gente só pode fazer avaliando os resultados e, também, dialogando com as instituições para que possam melhorar”, considerou.
A discussão ganha importância diante do crescimento da oferta de cursos. Nos últimos dez anos, o número de vagas autorizadas em cursos de medicina mais do que dobrou, passando de 23,5 mil, em 2014, para 48,4 mil, em 2024, segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, elaborada em parceria entre o Ministério da Saúde, a Faculdade de Medicina da USP e a Associação Médica Brasileira.
Ao mesmo tempo, os desafios da formação ultrapassam a abertura de novas vagas. A expansão exige condições para o ensino em serviço, preceptoria qualificada, infraestrutura assistencial e oportunidades de desenvolvimento profissional depois da graduação.
É nesse contexto que a discussão sobre qualidade se aproxima de uma questão central para o futuro da educação médica: quais competências um médico precisa demonstrar para estar preparado para cuidar de pacientes?
A resposta a essa pergunta ajuda a explicar uma das principais transformações dos modelos contemporâneos de formação e avaliação. O domínio do conhecimento científico continua essencial, mas, isoladamente, não demonstra todas as competências necessárias para o exercício profissional.
A discussão foi retomada no Brasil com o debate sobre novas formas de certificação e avaliação de proficiência. Para os pesquisadores Luiz Ernesto de Almeida Troncon, Marcos Carvalho Borges e Valdes Bollela, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, nenhuma prova escrita, por mais abrangente que seja, consegue avaliar sozinha se um recém-formado está preparado para atender pacientes.
A competência profissional, segundo os pesquisadores, reúne dimensões que precisam ser consideradas de forma integrada: conhecimento científico, habilidades práticas e atitudes profissionais, incluindo ética, comunicação e relacionamento com o paciente.
Para Marcos Carvalho Borges, ser um médico competente exige mais do que demonstrar conhecimento: “É preciso mostrar, na prática, que sabe colher a história clínica, examinar o paciente, comunicar-se adequadamente, tomar decisões e agir com profissionalismo. Essas competências não podem ser avaliadas apenas por uma prova escrita”.
Essa perspectiva aproxima o Brasil de uma tendência consolidada na educação médica: a formação orientada pelo desenvolvimento de competências.
A mudança não significa reduzir a importância do conhecimento teórico. Pelo contrário. A proposta é integrar conhecimento, habilidades e atitudes, reconhecendo que o exercício da medicina exige a articulação permanente dessas dimensões.
O desenvolvimento dos futuros médicos envolve, dessa forma, uma preparação que combina conhecimento científico, experiência prática, capacidade de comunicação e tomada de decisões, ética e profissionalismo.
À medida que a formação passa a considerar um conjunto mais amplo de competências, os modelos de avaliação também ganham novas dimensões.
A questão é particularmente relevante em um momento em que a avaliação da formação médica passa a ocupar espaço central nas políticas educacionais e profissionais. Uma prova escrita pode demonstrar se o estudante domina determinado conteúdo e sabe aplicá-lo a situações apresentadas no papel. A prática clínica, no entanto, exige outras formas de observação.
“Uma prova escrita pode mostrar se o estudante domina o conhecimento e sabe aplicá-lo em situações descritas no papel. Mas ela não revela como esse futuro médico se comporta diante de um paciente, se consegue realizar a técnica do exame físico corretamente, comunicar um diagnóstico difícil ou tomar decisões em uma situação clínica real”, explica Valdes Bollela.
Essa perspectiva ajuda a explicar a busca pela combinação de diferentes métodos de avaliação, capazes de observar dimensões distintas da formação.
Entre as metodologias que traduzem essa mudança está o Exame Clínico Objetivo Estruturado, conhecido pela sigla OSCE, do inglês Objective Structured Clinical Examination. O estudante percorre uma sequência de estações que reproduzem situações da prática médica e permitem avaliar diferentes competências.
A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP implantou a metodologia em 1995 e acumula três décadas de experiência com esse modelo. A trajetória foi resgatada recentemente por pesquisadores da instituição em meio ao debate sobre avaliação de proficiência em medicina.
A experiência também mostra que a discussão sobre novas formas de avaliar competências não começa agora no Brasil. Segundo Bollela, o resgate da trajetória da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto contribui para o debate atual. “Resgatar essa trajetória também é mostrar que a experiência acumulada em Ribeirão Preto pode contribuir para o debate e os desafios que o Brasil vive hoje na avaliação de proficiência em medicina”, afirma.
A lógica do OSCE permite observar o estudante em situações estruturadas, nas quais diferentes aspectos da prática podem ser avaliados. A capacidade de realizar uma entrevista clínica, examinar um paciente, comunicar informações, tomar decisões e demonstrar profissionalismo passa a integrar uma avaliação que complementa o conhecimento demonstrado em provas escritas.
Essa combinação de instrumentos acompanha uma tendência mais ampla da educação médica. À medida que as competências profissionais se tornam mais complexas, também aumenta a necessidade de avaliações capazes de observar o desempenho em diferentes contextos.
O debate brasileiro sobre certificação profissional e exames nacionais reforça essa perspectiva. Mais do que escolher um único instrumento capaz de responder a todas as questões, a discussão sobre competências abre espaço para modelos multidimensionais, nos quais diferentes métodos contribuem para avaliar dimensões distintas da formação.
A transformação da educação médica também passa pelos ambientes em que o aprendizado acontece.
A avaliação prática está diretamente relacionada a outra transformação do setor: o uso crescente da simulação como ambiente de aprendizagem.
A possibilidade de reproduzir situações clínicas permite que estudantes desenvolvam habilidades e tomem decisões em contextos estruturados. A simulação também amplia as oportunidades de treinamento e de avaliação antes da atuação em situações assistenciais reais.
O desenvolvimento de tecnologias educacionais é apontado como um dos caminhos para a qualificação permanente dos profissionais de saúde. Entre as recomendações apresentadas pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, o IESS, estão o maior uso de recursos como simulação e teleducação, além de políticas de desenvolvimento profissional contínuo, formação interprofissional e mecanismos de certificação e acreditação das práticas formativas.
A incorporação dessas ferramentas acompanha a transformação digital do próprio sistema de saúde. O médico formado nos próximos anos encontrará uma prática cada vez mais marcada pela disponibilidade de dados, pelo uso de novas tecnologias e pela integração entre diferentes serviços e profissionais.
Nesse ambiente, a formação precisa acompanhar não apenas a incorporação de novos recursos, mas também o desenvolvimento da capacidade de utilizá-los de forma crítica e integrada ao cuidado.
A tecnologia, portanto, passa a ocupar um espaço que vai além do ensino de ferramentas específicas. Simulação, teleducação e outros recursos podem ampliar experiências de aprendizagem e apoiar a atualização ao longo da carreira.
Uma das perspectivas mais importantes para o futuro da educação médica é a consolidação da ideia de que o processo formativo não se encerra com a graduação.
O relatório do IESS sobre os desafios da força de trabalho em saúde até 2035 destaca que o Brasil não possui uma política nacional obrigatória de capacitação para todas as categorias da saúde. O estudo aponta fragilidades nos currículos e na formação em serviço e ressalta a necessidade de preparar os profissionais para transformações demográficas, sociais e tecnológicas.
“A força de trabalho em saúde precisa estar preparada para uma sociedade que envelhece rapidamente e que exige competências técnicas, sociais e culturais mais amplas do que as práticas tradicionais contemplam”, afirma José Cechin, superintendente executivo do IESS.
A avaliação apresentada pelo instituto aponta que, mesmo com a expansão dos cursos, a preparação ainda é insuficiente para estimular competências interprofissionais, sensibilidade cultural e domínio de tecnologias emergentes.
A necessidade de atualização acompanha o profissional ao longo de toda a trajetória. Nas palavras de Cechin: “Sem investir em qualificação permanente, continuaremos formando profissionais que não respondem adequadamente às necessidades reais da população, especialmente nas regiões mais vulneráveis”.
Experiências internacionais apresentadas no estudo mostram modelos estruturados de atualização profissional em países como Canadá, Austrália e Reino Unido, com avaliações periódicas, prática reflexiva e documentação sistemática.
“Esses países mostram que a formação não termina na graduação. É preciso acompanhar, avaliar e garantir padrões mínimos de competência ao longo de toda a carreira”, complementa Cechin.
Essa perspectiva amplia o conceito de educação médica. A graduação continua sendo a etapa em que são construídas as bases científicas, práticas e profissionais do médico, mas a velocidade das transformações na saúde torna a atualização contínua parte crescente do exercício da profissão.
Novas tecnologias, mudanças nos modelos assistenciais, avanço do conhecimento científico e transformações no perfil da população fazem com que a capacidade de continuar aprendendo se torne uma competência central.
O futuro da formação médica também será moldado pelas mudanças no perfil da população brasileira. O envelhecimento, o crescimento das doenças crônicas e a multimorbidade ampliam a necessidade de profissionais preparados para atuar em contextos cada vez mais complexos.
O estudo do IESS aponta o envelhecimento populacional como um desafio central para a organização da força de trabalho em saúde. O país deverá demandar mais geriatras, profissionais de reabilitação, cuidadores formais, psicólogos e assistentes sociais.
A transformação não diz respeito apenas ao número de profissionais disponíveis. Ela também exige mudanças na forma de organizar a formação e o cuidado.
A população que envelhece necessita de acompanhamento contínuo, integração entre diferentes especialidades e comunicação entre profissionais e níveis de atenção. Nesse cenário, a formação médica se aproxima cada vez mais de competências relacionadas ao trabalho em equipe e à articulação entre serviços.
O relatório do IESS projeta que, em 2035, o Brasil deve alcançar 5,25 médicos por mil habitantes. As desigualdades regionais, porém, deverão permanecer. Enquanto o Distrito Federal pode ultrapassar 11,8 médicos por mil habitantes, estados da Amazônia Legal devem manter densidades menores, como Maranhão, com 2,43, e Pará, com 2,56.
A distribuição territorial dos profissionais também influencia o acesso ao cuidado e reforça a necessidade de relacionar a formação às características de cada região.
O Sudeste concentra a maior parte dos profissionais, apoiado por maiores ofertas formadoras e infraestrutura. Norte e Nordeste apresentam desigualdades importantes, especialmente entre capitais e municípios menores. O Centro-Oeste tem distribuição relativamente mais proporcional, mas ainda insuficiente em municípios de menor porte.
A formação médica do futuro, portanto, estará inserida em um cenário no qual quantidade e qualidade precisam ser acompanhadas pela capacidade de responder às necessidades de diferentes populações e territórios.
As mudanças demográficas e epidemiológicas também reforçam a importância da integração entre os profissionais e os diferentes níveis de atenção.
Para Marília Louvison, médica sanitarista e professora do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP/USP), a fragmentação dos sistemas de saúde está entre os principais desafios para a construção de um cuidado mais eficiente. “O problema dos sistemas de saúde públicos universais é a fragmentação. Se ele é fragmentado, eu tenho desperdício e repetição, e não tenho cuidado. Muitas vezes nem acesso a ele”, pontuou.
A necessidade de comunicação clínica entre os serviços amplia o conjunto de competências exigidas dos profissionais. O conhecimento técnico precisa ser acompanhado pela capacidade de atuar em rede, compartilhar informações e compreender o percurso do paciente dentro do sistema de saúde.
Para a professora, a saúde digital pode contribuir para melhorar esses fluxos. Uma maior interconectividade entre setores pode apoiar a troca de informações como exames, laudos, prescrições e dados sobre consultas e retornos.
“As orientações e recomendações podem ser conversas feitas e organizadas por meio de um sistema, uma telessaúde, um sistema de referência e contrarreferência. Pode ser muita coisa”, esclareceu Louvison.
A transformação dos sistemas de saúde, dessa forma, também produz novas demandas para a formação. O profissional precisa estar preparado para atuar em ambientes nos quais a comunicação e a integração entre os serviços se tornam cada vez mais relevantes.
“Precisamos de mecanismos de comunicação clínica para que a atenção básica e a atenção especializada dialoguem. Também precisamos formar médicos melhores, precisamos de informações de qualidade, mas a gente precisa criar mecanismos gerenciais de comunicação, regulação e articulação entre os níveis de atenção, para conseguir um cuidado mais integral e racional, pensando principalmente no envelhecimento e nas condições crônicas”, enfatizou a professora.
A perspectiva aproxima a educação médica de uma formação cada vez mais conectada à realidade dos sistemas de saúde. O desenvolvimento de competências deixa de estar restrito ao ambiente da sala de aula ou do hospital e passa a considerar a capacidade de atuar ao longo de diferentes pontos da rede.
Se a graduação representa a construção das competências fundamentais, a residência médica é uma das principais etapas de aprofundamento da formação.
O crescimento do número de vagas na graduação torna a discussão sobre a capacidade do sistema de oferecer oportunidades de residência ainda mais importante. Enquanto as vagas autorizadas em cursos de medicina mais do que dobraram entre 2014 e 2024, as vagas em residências médicas passaram de 22,1 mil, em 2018, para 24,2 mil, em 2024.
Para Louvison, o descompasso exige atenção. “Estamos formando cada vez mais médicos, precisamos ampliar as vagas de residências. Ampliamos a formação médica no Brasil, o que era fundamental acontecer, mas muito fortemente pelo mercado. É preciso regulação pública para formar no SUS, para o SUS. Precisamos criar materialidade, porque se um dia você for ao posto de saúde para fazer uma consulta com seu médico da família ou clínico e só conseguir realizá-la um, dois, seis meses depois, cria-se um problema de fila na atenção primária. Se o SUS tiver um problema de fila no primeiro nível de atendimento, estamos falando de falta de acesso”, destacou.
A discussão relaciona a formação às necessidades de acesso da população e à organização da força de trabalho. A ampliação da oferta de médicos pode contribuir para diferentes regiões e serviços, mas a capacidade de formar profissionais em contextos adequados de prática continua sendo uma dimensão decisiva.
A residência também representa a continuidade do aprendizado em ambientes assistenciais, com acompanhamento e desenvolvimento progressivo de competências. Em um cenário de expansão da formação médica, a articulação entre graduação, residência e necessidades do sistema de saúde se torna parte das perspectivas para os próximos anos.
Os dados e as experiências que alimentam o debate brasileiro mostram que a excelência na educação médica está associada a um conjunto de fatores.
O desempenho acadêmico continua sendo um indicador importante, assim como a qualidade do corpo docente, a infraestrutura e a disponibilidade de campos de prática. Mas o desenvolvimento dos futuros médicos envolve também a integração entre conhecimento científico e habilidades práticas, a capacidade de comunicação, a ética e o profissionalismo.
A expansão das tecnologias educacionais amplia as possibilidades de aprendizagem. A simulação permite reproduzir situações da prática. A teleducação cria novas formas de atualização. Os modelos de avaliação por competências ajudam a observar dimensões que não aparecem necessariamente em uma prova escrita.
Ao mesmo tempo, as mudanças no perfil da população e no funcionamento dos sistemas de saúde colocam novas questões para as instituições formadoras. O envelhecimento e as doenças crônicas ampliam a necessidade de cuidado contínuo e integrado. As desigualdades territoriais reforçam a importância de relacionar a formação às necessidades regionais. A transformação digital cria novas ferramentas e novos contextos para o exercício profissional.
Nesse ambiente, a excelência deixa de ser entendida apenas como o resultado de uma etapa específica da formação. Ela passa a estar relacionada à capacidade de construir bases sólidas na graduação e de desenvolver mecanismos para que o aprendizado continue ao longo da carreira.