SUS terá R$ 9,8 bi para se adequar a impactos do El Niño
15/09/2026

Diante das previsões de chuvas intensas, ondas de calor e queimadas que podem ocorrer simultaneamente no país, neste segundo semestre, por causa do chamado Super El Niño, o Ministério da Saúde está reforçando a estrutura assistencial do SUS para atender os possíveis afetados pelos desastres climáticos. A pasta prevê um investimento de R$ 9,5 bilhões até 2035. 

O prazo alongado se deve às expectativas de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. “As mudanças climáticas estão trazendo um desafio muito maior e mais duradouro dos eventos episódicos que a gente estava vivendo. Os eventos não vão ser só mais agudos, serão permanentes. Com o aumento da temperatura, também passamos a ter, por exemplo, casos de dengue em regiões de clima mais frio”, diz o médico sanitarista Adriano Massuda, secretário executivo do Ministério da Saúde. 

Esse orçamento é voltado para diferentes frentes como readaptação das unidades básicas de saúde, treinamento de equipes, serviços de monitoramento do clima e impactos epidemiológicos, construção de hospitais de campanha em casos mais extremos. 

“Nós estamos modelando unidades básicas de saúde para os diferentes impactos ambientais que a gente vai ter no país. O El Niño vai nos exigir uma aceleração da implantação do plano que estava previsto no Adapta-SUS”, diz Massuda, em referência à [inciativa do governo para adequar o SUS aos impactos climáticos. 
 

A ideia é que as unidades básicas de saúde sejam readaptadas, construídas e equipadas já conforme às demandas de saúde que devem surgir com as novas condições climáticas. Esses postos deverão ter medicamentos, vacinas e materiais adequados às características regionais, além disso, também sendo analisadas as localidades de construção da UBS a fim de evitar regiões que podem ser afetadas, por exemplo, por enchentes. 

A estratégia também se estende para treinamento de pessoal do SUS, uma vez que as enfermidades que podem surgir vão variar por região. São esperados diferentes fenômenos climáticos. No Sul, há previsão de chuvas, inundações e calor. No Sudeste, além do calor, pode haver temporais e queimadas. No Norte e Centro-Oeste, a população deve sofrer com seca, estiagem, calor e queimadas, assim como no Nordeste, com exceção de queimadas. 

O governo criou um projeto-piloto com Centros de Informação em Saúde e Clima (CISC) em nove cidades do país para analisar quais impactos epidemiológicos podem ocorrer com os eventos climáticos extremos. A ideia é que essas informações subsidiem o SUS para que a rede pública de saúde esteja mais preparada. As cidades que estão sendo acompanhadas são Porto Alegre, Salvador, Santarém (PA), Belém, Fortaleza, Cuiabá, Belo Horizonte, Curitiba e Rio de Janeiro. 

O infectologista Celso Granato, diretor clínico do Fleury e professor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, alerta que o surgimento de doenças como dengue, entre outras que não são típicas em determinadas regiões, provocam danos mais sérios porque há uma população muito maior sem imunidade para aquelas enfermidades. 

''Brasil pode ter diferentes fenômenos climáticos, que podem provocar doenças distintas, ao mesmo tempo” 

— Celso Granato 

Nas regiões afetadas pelas queimadas, a preocupação é a fuga de roedores para as cidades. Ele lembra que esse fenômeno ocorreu na Bolívia, em 2024, o que já é uma preocupação de saúde pública. A região afetada foi Santa Cruz, próximo ao Pantanal e à Amazônia. 

“É um cenário preocupante. O Brasil pode ter diferentes fenômenos climáticos, que podem provocar doenças distintas, ao mesmo tempo”, afirma o infectologista. 

As iniciativas do Ministério da Saúde estão sendo tocadas dentro da Força Nacional do SUS, programa do governo federal criado em 2021, quando houve o desastre na região serrana do Rio de Janeiro. Segundo Massuda, a Força Nacional conta com uma equipe de 50 servidores alocadas dentro do Ministério da Saúde para acompanhar as demandas, além de 70 mil pessoas cadastradas e outras 2,5 mil treinadas para serem chamadas e atuar em situações de emergência como ocorreu no Rio Grande do Sul, nas enchentes de 2024. 

“O Ministério da Saúde está com uma rede integrada. Para a parte de vigilância, há os Centros de Informação Estratégica da Vigilância em Saúde (CIEVS), que são cerca de 200 em todo o Brasil. E, na parte assistencial temos a Força Nacional do SUS”, explicou o secretário. “Os eventos, as emergências de pública, nunca a gente está plenamente preparado. Mas, hoje, nós estamos muito melhor preparados do que estávamos quando começou o governo, em 2023”, complementou.

A Força Nacional tem unidades em Brasília, Salvador e Porto Alegre. Outros pontos estão sendo erguidos em Manaus, Belém, Porto Velho, Recife, Fortaleza, Campo Grande e Rio de Janeiro. 

O Rio Grande do Sul está no radar do governo e da rede privada por ser uma região com grande probabilidade de ser afetada novamente por chuvas intensas. “Dois anos atrás, coincidentemente, convidamos o ambientalista Carlos Nobre. Ele disse que o novo epicentro do novo El Niño sequencial que vem, nas próximas décadas, é o Rio Grande do Sul, Porto Alegre especificamente, que tem uma configuração geográfica com confluência de rios da lagoa dos Patos e configuração de saída para o mar muito estreita. Então, é uma cidade que tem um desafio comparável a Amsterdã”, disse Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre. 

Nas enchentes de 2024, o hospital não foi atingindo por estar numa localização alta, mas cerca de 500 funcionários foram afetados, sendo que 200 deles foram morar no hospital. “Fizemos alojamentos nas salas de aula para abrigar as pessoas”, contou. 

O CEO diz que, passados dois anos da tragédia de 2024, a saúde mental da população foi duramente afetada e que hoje essa é a maior preocupação médica. “Houve a pandemia da covid e na sequência teve a enchente. São dois traumas num curto período, houve perdas, pessoas indo embora. Agora, há o El Niño que traz novas inseguranças”, afirma Parrini. 

Segundo pesquisa do IBGE, apresentada em julho, 67,5% das vítimas da tragédia de 2024 afirmam que a saúde mental foi afetada. A população de baixa renda é a que mais sofreu os impactos. Cerca de um quarto dos entrevistados afirmou que, atualmente, reside em locais em que as condições de vida são piores daquelas vividas um mês antes das enchentes. 

Levantamento do Moinhos de Vento mostra que 1,5 mil famílias foram impactadas e estão sendo acompanhadas por um projeto social do hospital. “O Massuda nos pediu para ampliar essa iniciativa para um outro projeto que envolve o Paraná, que também foi afetado por enchentes recentemente”, diz Parrini. Uma ideia é que esse projeto se estenda para outras regiões afetadas por tragédias. 

A presidente da BP - Beneficência Portuguesa de São Paulo, Denise Santos, também diz estar preocupada com os impactos do El Niño. Os hospitais precisam ter uma estrutura robusta para não interromper atendimentos de urgência. Denise conta que as equipes passam por treinamentos constantes simulando quedas de energia, emergências variadas. 

“Além da infraestrutura física, nos preparamos com reforço de estoque de materiais e medicamentos, estratégias de como atuar com colaboradores que pode não conseguir chegar no hospital porque está inundado. Se houver um caso desse, por exemplo, podemos realocar pessoal de áreas menos urgentes”, diz presidente da BP. 

 





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