A Casa de Saúde Menino Jesus de Praga (CSMJP), em Porto Alegre, inaugura a primeira estrutura de UTI Inteligente do país implantada em uma instituição de acolhimento de longa permanência. O novo modelo assistencial integra monitoramento contínuo, interoperabilidade de dados e Inteligência Artificial ao cuidado de crianças, adolescentes e adultos com lesões neurológicas e motoras graves e dependência total de cuidados.
A tecnologia já está em funcionamento nos núcleos da instituição e ganha uma nova estrutura com a Casa do Futuro, espaço com 12 leitos e infraestrutura de nível hospitalar.
Um dos principais diferenciais da arquitetura tecnológica adotada pela Casa está na origem e na qualidade dos dados utilizados pela Inteligência Artificial.
Em muitas aplicações de IA no cuidado assistencial, as informações precisam primeiro ser registradas manualmente pelas equipes nos sistemas. Na Casa de Saúde, os dados provenientes de monitores multiparamétricos, ventiladores mecânicos e bombas de infusão são enviados automaticamente ao prontuário eletrônico, sem necessidade de transcrição manual. É sobre essa base contínua de informações clínicas que a Inteligência Artificial atua.
A diferença ocorre em duas frentes. A primeira é a segurança: ao reduzir a necessidade de transcrição manual, diminuem também os riscos de erros de digitação, leitura ou registro no leito incorreto. A segunda está na frequência das informações. Enquanto a coleta manual registra sinais vitais em determinados momentos do turno, a captura automatizada gera dados continuamente, minuto a minuto, 24 horas por dia.
“É esse volume e essa granularidade de dados, impossíveis de alcançar apenas com registros manuais, que permitem à tecnologia apoiar a identificação precoce de alterações respiratórias, sinais sugestivos de infecção e sepse, oscilações importantes da pressão arterial e mudanças no padrão clínico do acolhido. Isso possibilita alertar a equipe para situações que precisam ser avaliadas antes que evoluam para complicações mais graves”, explica Rute Somensi, gerente de saúde e assistência da Casa de Saúde Menino Jesus de Praga.
Resultados que já aparecem nos indicadores
Os resultados de 2025, comparados às médias registradas entre 2022 e 2024, mostram o impacto das mudanças implementadas na assistência. A instituição registrou redução de 73% nas internações hospitalares externas e queda de 57% na taxa de óbitos. No mesmo período, houve aumento de 130% nas visitas familiares, resultado relacionado à maior estabilidade clínica dos acolhidos.
“Ao evitar internações, a Casa libera cerca de 26 mil diárias hospitalares de alta complexidade por ano ao sistema público de saúde, o que representa uma economia estimada entre R$ 78 milhões e R$ 130 milhões anuais”, destaca Arno Duarte, Diretor Executivo da Casa de Saúde Menino Jesus de Praga.
Casa do Futuro: 12 novos leitos com estrutura de nível hospitalar
O espaço reúne 12 leitos destinados a crianças de até 10 anos e incorpora as tecnologias já utilizadas pela instituição a uma infraestrutura física de nível hospitalar, ampliando as condições para o acompanhamento de acolhidos com alta dependência de cuidados.
“O espaço foi concebido a partir de conceitos de neuroarquitetura, design biofílico, acessibilidade e humanização dos ambientes. Conta com piso vinílico hospitalar, ilha de enfermagem, entrada de luz natural, maior espaçamento entre leitos e corredores, iluminação dimerizada e individualizada por leito e carrinhos com tecnologia para atendimento à beira-leito”, explica Arno.
A incorporação da tecnologia, segundo o Diretor Executivo, não substitui o cuidado humano. Ao automatizar processos de captura e integração de dados, a proposta é reduzir atividades operacionais e devolver aos profissionais mais tempo para a assistência direta aos acolhidos.
“Não começamos pela IA. Começamos pela infraestrutura, pelos dados, pela integração e pelas pessoas. O que estamos inaugurando agora mostra que inovação de ponta também pode nascer dentro do terceiro setor”, afirma Duarte.
Transformação construída por muitas mãos
O investimento de aproximadamente R$ 3 milhões em softwares, serviços, profissionais e dispositivos clínicos foi viabilizado pela combinação de emendas impositivas municipais e estaduais, emendas parlamentares federais, recursos do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados do Rio Grande do Sul e doações de pessoas físicas e jurídicas, articuladas pelo movimento Amigos da Casa, que conecta pessoas, empresas e lideranças públicas em torno do cuidado para toda a vida.
A eficiência alcançada pela instituição, no entanto, não significa autossuficiência financeira. Atualmente, 30% da operação da Casa depende de doações de pessoas físicas e empresas, voluntariado, vendas do bazar e projetos sociais e 70% são oriundos de convênios e contratos com o poder público.
“Esses recursos não chegam com a regularidade e nos valores necessários, enquanto o cuidado não pode parar: são 24 horas por dia, sete dias por semana, todos os dias do ano”, ressalta Duarte.