Entre a IA e a escassez de profissionais: um novo desafio
17/09/2026

O setor de saúde atravessa uma mudança estrutural marcada pelo envelhecimento populacional, aumento da demanda por atendimento, pressão sobre custos e escassez de profissionais. Esse cenário amplia a complexidade da gestão e exige das lideranças uma visão capaz de conciliar sustentabilidade financeira, eficiência operacional e qualidade do cuidado, sem perder de vista as transformações que já afetam o trabalho das equipes.

Dentro dessa agenda, a inteligência artificial ganhou espaço como uma das principais ferramentas para melhorar processos e ampliar a capacidade operacional. Segundo o Future Health Index 2026, levantamento global da Philips com líderes do setor, 62% dos executivos afirmam que os investimentos em inteligência artificial já entregam resultados iguais ou superiores aos esperados. Entre as aplicações estão a automação de tarefas administrativas, o apoio à tomada de decisão e a otimização de fluxos de trabalho.

Embora os resultados sejam promissores, a incorporação da tecnologia à rotina das organizações ainda está em estágio inicial. Pesquisa da Arcadia aponta que apenas 14% das organizações de saúde conseguiram integrar completamente a inteligência artificial aos processos de tomada de decisão. O dado reforça que o principal desafio não está mais apenas em testar ferramentas, mas em definir aplicações relevantes, estabelecer critérios de governança e preparar as equipes para utilizá-las de forma adequada.

A discussão sobre inteligência artificial também se relaciona diretamente com a busca por produtividade. Com uma demanda crescente e recursos limitados, organizações de saúde precisam melhorar fluxos, reduzir desperdícios e utilizar estruturas e equipes de maneira mais eficiente. O foco não deve estar apenas na redução de despesas, mas na capacidade de ampliar o atendimento preservando qualidade, segurança e experiência do paciente.

Esse desafio operacional ocorre em paralelo a uma pressão crescente sobre o mercado de trabalho da saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima um déficit global de aproximadamente 11 milhões de profissionais até 2030. A escassez tende a intensificar a disputa por talentos e torna ainda mais importante investir em qualificação, desenvolvimento e retenção das equipes.

A relação entre tecnologia e pessoas, portanto, passa a ocupar uma posição central na estratégia das organizações. A introdução de novas ferramentas modifica processos e exige novas competências, enquanto a falta de profissionais aumenta a necessidade de aproveitar melhor o conhecimento disponível. Cabe à liderança conduzir essas mudanças sem perder de vista as particularidades do trabalho em saúde.

Nesse contexto, o papel dos executivos também se amplia. Além de acompanhar avanços tecnológicos e indicadores de desempenho, eles precisam tomar decisões em cenários de incerteza, conduzir mudanças organizacionais e desenvolver profissionais. A capacidade de conectar essas dimensões será importante para que as transformações produzam efeitos consistentes na operação e no cuidado.

A educação executiva ganha relevância diante desse cenário. A formação de lideranças precisa ir além da atualização técnica e contribuir para o desenvolvimento de competências relacionadas à tomada de decisão, gestão de mudanças e desenvolvimento de pessoas. Em um setor no qual decisões estratégicas têm impacto direto sobre a operação e a assistência, preparar líderes para lidar com essa complexidade passa a ser parte da própria estratégia de sustentabilidade das organizações.

A saúde entra, assim, em uma fase na qual tecnologia, eficiência e capital humano precisam ser considerados dentro de uma mesma estratégia.


*Douglas Souza é CEO do CNEX.





Obrigado por comentar!
Erro!
Contato
+55 11 5561-6553
Av. Rouxinol, 84, cj. 92
Indianópolis - São Paulo/SP