Simulador de Realidade Virtual treina aplicação de injeções
21/09/2026

A administração de injeções por via intramuscular exige conhecimento da anatomia humana, domínio da técnica e cuidados de biossegurança. Para auxiliar nesse treinamento, pesquisadores da Escola de Enfermagem (EE) e da Escola Politécnica (Poli) da USP desenvolveram um simulador de realidade virtual capaz de ensinar a identificação do local e a aplicação correta da medicação.

“Pensamos em desenvolver esse simulador com o objetivo de treinar a habilidade de realizar a medicação intramuscular na região ventroglútea, um músculo considerado ‘padrão-ouro’ por ser mais seguro, livre de nervos e vasos importantes, além de menos doloroso”, relata Regina Célia Diogo, pós-doutoranda da EE e primeira autora do estudo. Publicado na revista Teaching and Learning in Nursing, o trabalho apresenta o desenvolvimento e uma primeira avaliação da tecnologia.

A região ventroglútea é formada pelos músculos glúteo médio e mínimo e, apesar de ser considerada uma das áreas mais seguras para a aplicação intramuscular, ainda é pouco utilizada na prática clínica. “Os profissionais têm dificuldade para encontrar os pontos anatômicos e delimitar essa região”, afirma Regina Diogo. De acordo com a pesquisadora, o desconhecimento dos pontos anatômicos faz com que os profissionais continuem utilizando o músculo dorsoglúteo, que pode causar lesão no nervo ciático. A população também desconhece essa região como alternativa para aplicação de medicamentos.
 

Treinamento virtual complementa aulas presenciais

O simulador funciona por meio de um aplicativo de realidade virtual que reproduz um posto de saúde e apresenta um paciente virtual. A imagem do paciente é alinhada a um manequim físico, sobre o qual o usuário posiciona as mãos. O sistema reconhece os movimentos e permite delimitar a região de aplicação de maneira semelhante ao procedimento realizado presencialmente.

De acordo com Ricardo Nakamura, professor da área de Engenharia e Computação da Poli e um dos autores do artigo, até o momento é possível caminhar pelo cenário virtual, tocar no paciente, delimitar da área de aplicação, segurar e posicionar a seringa. “Ainda está faltando aparecer um triângulo como feedback ao profissional, indicando que ele delimitou corretamente e pode aplicar o medicamento no centro do triângulo, que é o local correto de acordo com a técnica”, complementa Regina.

A realidade virtual oferece um ambiente no qual o aluno pode praticar quantas vezes forem necessárias. A simulação também elimina a necessidade de materiais descartáveis, como seringas, agulhas e luvas. “O aluno pode repetir várias vezes, sem usar materiais descartáveis, sem poluir o ambiente, o que contribui para a sustentabilidade” destaca a autora.

“A realidade virtual ajuda alunos que têm mais dificuldade de se expor, por exemplo. Ele pode treinar sozinho, repetir quantas vezes quiser e não precisa estar em um laboratório. Ele pode estar em uma sala de aula, em qualquer local, desde que tenha óculos” diz Regina Célia Diogo.

O simulador foi concebido para ser um complemento às aulas práticas presenciais. O objetivo do projeto é oferecer aos estudantes uma oportunidade de treinanento e permitir que determinadas etapas sejam repetidas fora do laboratório. “O estudo conclui que a tecnologia deve complementar as aulas práticas e as atividades clínicas, e não substituí-las”, afirma a pesquisadora.
 

O projeto é um estudo metodológico de desenvolvimento de uma ferramenta educativa digital em cinco etapas: análise, planejamento, conceituação, modelagem, implementação e avaliação. A Poli entrou na etapa de modelagem e desenvolvimento tecnológico.

Segundo Nakamura, a proposta, a longo prazo, é incorporar ao simulador todo o check-list adotado pela EE para o treinamento: desde a interação inicial, preparo, aplicação e descarte da seringa. “Atualmente, estamos nos concentrando na etapa de delimitação da região de aplicação, que é um dos aspectos da técnica que causa mais dúvidas” , explica o professor.

Desafios tecnológicos

Uma das limitações da versão atual é a ausência da sensação de toque no corpo do paciente virtual. “Isso é necessário para a prática da delimitação, mas dispositivos para produzir essa sensação são caros e muitas vezes só permitem simular o toque de um ponto, não de uma superfície”, diz Nakamura.

Por isso, os pesquisadores optaram pelo uso do manequim físico, alinhado ao paciente virtual, uma estratégia usada em alguns simuladores para treinamento em saúde. A solução, porém, traz desafios tecnológicos, entre eles o alinhamento entre o manequim e o paciente virtual. “Utilizamos a interação no simulador diretamente com as mãos e isso traz algumas dificuldades quando uma mão fica muito próxima da outra, ou elas se sobrepõem” comenta o professor.

De acordo com Ricardo Nakamura, também é necessário melhorar a triangulação entre o manequim, o paciente virtual e a interação com as mãos da pessoa que aplica a injeção. “Com essas melhorias, teremos uma versão que permite o treinamento da delimitação e pelo menos uma primeira interação de aplicação do medicamento”.

O projeto está na fase de avaliação de protótipos, que envolve a demonstração e uso do simulador para a coleta de sugestões e críticas. “Nós já testamos com alunos e o que a gente está vendo é que as pessoas gostam muito da tecnologia”, diz Regina Célia Diogo.

Todos os protótipos serão avaliados por professores da área de educação, saúde do adulto, tecnologia e especialistas de laboratório de ensino de habilidades. Em seguida, a feramenta será testada pelo público-alvo, formado por profissionais e estudantes de graduação da área da saúde. “O resultado que a gente espera é que o simulador possa complementar o ensino de habilidades em saúde”, afirma a autora.

A pesquisa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e faz parte do projeto de pós-doutorado de Regina Célia Diogo. A equipe também conta com Maria Fernanda Ruschel, Lucas de Souza Santos, Rosely da Silva Martins Liberatori, Ricardo Nakamura e Paula Cristina Nogueira. (Com informações do Jornal da USP)





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