Na Pague Menos, a categoria representou 8,2% das vendas totais no segundo trimestre deste ano. Na Panvel, 11,3% da receita bruta do varejo, com expansão de 63,6% ante 2025. Na RD Saúde, são cerca de 12% do faturamento total.
Walace Siffert, vice-presidente comercial da Pague Menos, afirma que, “na molécula da semaglutida, a comparação entre julho e o primeiro trimestre mostrou uma queda de 50% no preço médio e um aumento de 155% no volume”. “Na tirzepatida (Mounjaro), as doses mais altas tiveram redução de 23% no preço médio e alta de 60% no volume. Em ambas, o crescimento do volume mais do que compensou a redução do preço médio”, diz.
Flavio Correia, diretor de relações com investidores da RD Saúde, afirma que, no segundo trimestre de 2026, o preço médio da semaglutida na rede caiu 22% ante o trimestre anterior, e os volumes subiram quase 30%. “É um sinal claro do interesse da população e da expectativa de um acesso crescente à medida que mais volumes forem disponibilizados”, diz.
Para analistas, os números afastam o temor de uma ressaca. “No caso da semaglutida na Raia, a queda superior a 20% no preço foi totalmente compensada pelo volume (+28%), mantendo a receita nominal estável e provando a forte elasticidade do produto”, afirma Vinicius Strano, diretor executivo e analista-chefe de research do UBS BB. “O mercado não está encolhendo, está expandindo a base de usuários.”
De 70% a 84% dos consumidores que levaram genéricos ou similares no último trimestre são novos na categoria, dizem as redes. “Isso demonstra o enorme potencial de expansão à medida que o custo do tratamento cai”, afirma Siffert.
Jonas Marques, presidente da Pague Menos, afirmou em teleconferência com analistas que “84% dos clientes que começaram a tomar o Poviztra e o Ozivy nunca haviam comprado esses produtos conosco [na rede]. Estamos vendo o destravamento de uma demanda reprimida por preço.”
No segundo trimestre, porém, a categoria ainda pesou contra. A RD Saúde atribuiu a contração de 0,1 ponto percentual na margem bruta principalmente à maior participação dos produtos GLP-1, que, segundo a companhia, têm margens estruturalmente menores. A Panvel também listou o avanço da categoria entre os fatores que pressionaram a margem bruta do varejo, ao lado do reajuste da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e da competição. Na Pague Menos, a margem bruta recuou 0,1 ponto.
Uma inversão é o que os analistas esperam dos próximos trimestres. Com os remédios de marca, os laboratórios multinacionais impunham às farmácias margens brutas em geral abaixo de 18% a 20%. Com novos medicamentos aprovados pela Anvisa, entre eles o Semavy, da Hypera, a escassez de oferta fica para trás.
Ganho de margem e o salto expressivo no volume preservam a geração de lucro”
— Luiz Guanais
“Quando você tem apenas o medicamento de referência original, a margem percentual do varejo é apertada”, explica Strano. “A medida que a oferta de similares e genéricos aumenta, a cadeia de valor migra do fabricante para o varejista. As farmácias passam a ter poder de escolha e negociação, o que deve expandir a margem bruta percentual da categoria nos próximos trimestres.”
Para Luiz Guanais, analista do BTG Pactual, a perda de exclusividade favorece a rentabilidade das redes. “Embora o lucro em reais por unidade vendida possa ser menor com um tíquete mais baixo, o ganho percentual de margem e o salto expressivo no volume bruto preservam e expandem a geração de lucro bruto total das companhias.”
Márcia Wagner, diretora executiva comercial da Panvel, vê efeito indireto na cesta. “Observamos que o avanço desses itens contribui para o aumento da frequência de compra e da quantidade de itens por cupom, impulsionando a procura por produtos complementares, como suplementos, vitaminas e materiais de aplicação.”
O mercado temia que o estoque desses remédios caros sufocasse o capital de giro das redes com juros altos. “O GLP-1 é um produto de giro extremamente rápido. Em termos gerais, ele chega à loja e vende, o que tende a reduzir, e não aumentar, os dias de estoque”, avalia Guanais. Para ele, os aumentos pontuais de estoque no segundo trimestre vieram de reestruturações de centros de distribuição, como o novo centro de distribuição da Pague Menos na Paraíba, não de represamento.
Nos recebíveis, a queda de preços trouxe alívio na comparação do segundo trimestre de 2026 com o primeiro deste ano. “Como o tíquete médio era muito alto, o cliente exigia maior parcelamento no cartão. Com a redução dos preços médios, o nível de parcelamento caiu, o que já trouxe melhora no prazo médio de recebimento (PMR)”, explica Siffert.
De acordo com relatório do UBS BB, o mercado formal de GLP-1 movimenta de R$ 1,4 bilhão a R$ 1,5 bilhão por mês e deve fechar 2026 entre R$ 15 bilhões e R$ 17 bilhões. Para o banco, o volume mensal salta de 780 mil caixas em 2025 para 2,5 milhões em 2027 e 3,7 milhões em 2030.
O avanço se apoia em três pilares: genéricos mais baratos; novas indicações, como apneia do sono e doenças cardiovasculares e renais; e novas moléculas, como os agonistas triplos, além das versões orais.
“A foto do segundo trimestre mostrou um crescimento mais normalizado nas receitas nominais após o estouro inicial de 2025”, resume Guanais. “Mas o que devemos ver olhando para a frente é a retomada de uma escala exponencial sustentada por volume, acessibilidade e novas aplicações médicas. O GLP-1 continuará sendo o principal motor de crescimento do varejo farmacêutico.”