Queda de preço abre espaço para avanço de caneta emagrecedora
21/09/2026
A queda dos preços dos medicamentos para emagrecer deve ampliar a base de consumidores e mudar o perfil de crescimento do mercado nos próximos trimestres. Após dois anos de expansão acelerada puxada por produtos de marca e preço alto, os balanços do segundo trimestre de 2026 mostram uma acomodação do crescimento nominal das receitas das grandes redes de farmácia com os análogos de GLP-1, mas avanço expressivo dos volumes vendidos com a chegada de genéricos e similares. 

A perda da patente da semaglutida, vendida como Ozempic e Wegovy, e a chegada de alternativas mais baratas, como o Poviztra, da Novo Nordisk em parceria com a Eurofarma, e o Ozivy, da EMS, deflagraram uma competição de preços nas prateleiras. Os primeiros dados indicam que a redução do preço unitário vem sendo compensada pelo aumento do número de unidades vendidas, abrindo espaço para expansão da categoria entre consumidores que antes não tinham acesso ao tratamento. 
 

Na Pague Menos, a categoria representou 8,2% das vendas totais no segundo trimestre deste ano. Na Panvel, 11,3% da receita bruta do varejo, com expansão de 63,6% ante 2025. Na RD Saúde, são cerca de 12% do faturamento total. 

Walace Siffert, vice-presidente comercial da Pague Menos, afirma que, “na molécula da semaglutida, a comparação entre julho e o primeiro trimestre mostrou uma queda de 50% no preço médio e um aumento de 155% no volume”. “Na tirzepatida (Mounjaro), as doses mais altas tiveram redução de 23% no preço médio e alta de 60% no volume. Em ambas, o crescimento do volume mais do que compensou a redução do preço médio”, diz. 

Flavio Correia, diretor de relações com investidores da RD Saúde, afirma que, no segundo trimestre de 2026, o preço médio da semaglutida na rede caiu 22% ante o trimestre anterior, e os volumes subiram quase 30%. “É um sinal claro do interesse da população e da expectativa de um acesso crescente à medida que mais volumes forem disponibilizados”, diz. 

Para analistas, os números afastam o temor de uma ressaca. “No caso da semaglutida na Raia, a queda superior a 20% no preço foi totalmente compensada pelo volume (+28%), mantendo a receita nominal estável e provando a forte elasticidade do produto”, afirma Vinicius Strano, diretor executivo e analista-chefe de research do UBS BB. “O mercado não está encolhendo, está expandindo a base de usuários.” 

De 70% a 84% dos consumidores que levaram genéricos ou similares no último trimestre são novos na categoria, dizem as redes. “Isso demonstra o enorme potencial de expansão à medida que o custo do tratamento cai”, afirma Siffert. 

Jonas Marques, presidente da Pague Menos, afirmou em teleconferência com analistas que “84% dos clientes que começaram a tomar o Poviztra e o Ozivy nunca haviam comprado esses produtos conosco [na rede]. Estamos vendo o destravamento de uma demanda reprimida por preço.” 

No segundo trimestre, porém, a categoria ainda pesou contra. A RD Saúde atribuiu a contração de 0,1 ponto percentual na margem bruta principalmente à maior participação dos produtos GLP-1, que, segundo a companhia, têm margens estruturalmente menores. A Panvel também listou o avanço da categoria entre os fatores que pressionaram a margem bruta do varejo, ao lado do reajuste da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e da competição. Na Pague Menos, a margem bruta recuou 0,1 ponto. 

 

Uma inversão é o que os analistas esperam dos próximos trimestres. Com os remédios de marca, os laboratórios multinacionais impunham às farmácias margens brutas em geral abaixo de 18% a 20%. Com novos medicamentos aprovados pela Anvisa, entre eles o Semavy, da Hypera, a escassez de oferta fica para trás. 

Ganho de margem e o salto expressivo no volume preservam a geração de lucro” 

— Luiz Guanais 

“Quando você tem apenas o medicamento de referência original, a margem percentual do varejo é apertada”, explica Strano. “A medida que a oferta de similares e genéricos aumenta, a cadeia de valor migra do fabricante para o varejista. As farmácias passam a ter poder de escolha e negociação, o que deve expandir a margem bruta percentual da categoria nos próximos trimestres.” 

Para Luiz Guanais, analista do BTG Pactual, a perda de exclusividade favorece a rentabilidade das redes. “Embora o lucro em reais por unidade vendida possa ser menor com um tíquete mais baixo, o ganho percentual de margem e o salto expressivo no volume bruto preservam e expandem a geração de lucro bruto total das companhias.” 

Márcia Wagner, diretora executiva comercial da Panvel, vê efeito indireto na cesta. “Observamos que o avanço desses itens contribui para o aumento da frequência de compra e da quantidade de itens por cupom, impulsionando a procura por produtos complementares, como suplementos, vitaminas e materiais de aplicação.” 
 

O mercado temia que o estoque desses remédios caros sufocasse o capital de giro das redes com juros altos. “O GLP-1 é um produto de giro extremamente rápido. Em termos gerais, ele chega à loja e vende, o que tende a reduzir, e não aumentar, os dias de estoque”, avalia Guanais. Para ele, os aumentos pontuais de estoque no segundo trimestre vieram de reestruturações de centros de distribuição, como o novo centro de distribuição da Pague Menos na Paraíba, não de represamento. 

Nos recebíveis, a queda de preços trouxe alívio na comparação do segundo trimestre de 2026 com o primeiro deste ano. “Como o tíquete médio era muito alto, o cliente exigia maior parcelamento no cartão. Com a redução dos preços médios, o nível de parcelamento caiu, o que já trouxe melhora no prazo médio de recebimento (PMR)”, explica Siffert. 

De acordo com relatório do UBS BB, o mercado formal de GLP-1 movimenta de R$ 1,4 bilhão a R$ 1,5 bilhão por mês e deve fechar 2026 entre R$ 15 bilhões e R$ 17 bilhões. Para o banco, o volume mensal salta de 780 mil caixas em 2025 para 2,5 milhões em 2027 e 3,7 milhões em 2030. 

O avanço se apoia em três pilares: genéricos mais baratos; novas indicações, como apneia do sono e doenças cardiovasculares e renais; e novas moléculas, como os agonistas triplos, além das versões orais. 

“A foto do segundo trimestre mostrou um crescimento mais normalizado nas receitas nominais após o estouro inicial de 2025”, resume Guanais. “Mas o que devemos ver olhando para a frente é a retomada de uma escala exponencial sustentada por volume, acessibilidade e novas aplicações médicas. O GLP-1 continuará sendo o principal motor de crescimento do varejo farmacêutico.” 

 


 




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