Setembro Amarelo reforça a importância da prevenção do suicídio, da valorização da vida e da atenção aos sinais de sofrimento psíquico. Nesse contexto, uma pesquisa liderada por docentes da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCM–SCSP) demonstra como a ciência e a tecnologia podem contribuir para ampliar as possibilidades de identificação precoce de sinais associados à depressão. O estudo, publicado no periódico internacional PLOS Mental Health, utilizou inteligência artificial para analisar características acústicas da voz em áudios enviados pelo WhatsApp e identificou padrões relacionados a níveis elevados de sintomas depressivos, sem considerar o conteúdo das falas.
A relevância social da pesquisa está justamente na possibilidade de desenvolver, no futuro, ferramentas acessíveis que auxiliem profissionais e serviços de saúde na identificação de pessoas que possam estar vivenciando sofrimento psíquico. Em um cenário no qual reconhecer precocemente alterações na saúde mental pode favorecer a busca por cuidado, tecnologias de baixo custo e de fácil utilização podem ampliar as possibilidades de triagem e acompanhamento, especialmente em contextos de telemedicina e saúde pública.
O estudo foi desenvolvido no Departamento de Saúde Mental da FCMSCSP, sob liderança do Prof. Doutor Ricardo R. Uchida, médico psiquiatra e chefe do Departamento de Saúde Mental da Faculdade, em parceria com a empresa internacional de Digital Health Infinity Doctors (EUA). A pesquisa contou ainda com a participação dos docentes Prof. Doutor Victor H. O. Otani e Prof. Doutor Lucas Murrins Marques, além do doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde e especialista em Inteligência Artificial da Infinity Doctors, Felipe O. Aguiar, entre colaboradores nacionais e internacionais.
A pesquisa analisou 160 participantes brasileiros, incluindo pacientes com diagnóstico clínico de Transtorno Depressivo Maior e indivíduos sem o transtorno. Os modelos de aprendizado de máquina foram treinados a partir de mensagens de voz espontâneas e apresentaram resultados superiores a 91% de acurácia entre mulheres e próximos de 75% entre homens em tarefas mais naturalistas, como a descrição da semana anterior.
Para o Prof. Doutor Ricardo R. Uchida, os resultados evidenciam o potencial da integração entre ciência, avaliação clínica e inovação tecnológica no enfrentamento dos desafios contemporâneos da saúde mental. “Este estudo demonstra como a integração entre avaliação clínica rigorosa e inteligência artificial pode gerar ferramentas inovadoras, seguras e baseadas em evidências para apoiar a identificação precoce de transtornos mentais”, afirma.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que a tecnologia não substitui o diagnóstico médico nem a avaliação de profissionais especializados. Trata-se de uma linha de investigação que pode contribuir para futuras estratégias de triagem, monitoramento e pesquisa.
No contexto do Setembro Amarelo, iniciativas como essa reforçam que a prevenção passa também pelo investimento contínuo em ciência, informação e acesso ao cuidado. Identificar sinais de sofrimento é uma etapa importante, mas o acolhimento, a escuta qualificada e o encaminhamento para atendimento profissional permanecem fundamentais para a promoção da saúde mental e a valorização da vida.