Distribuidoras de remédios sob pressão
22/09/2026

As três maiores distribuidoras de medicamentos e materiais hospitalares — Elfa, Viveo e Oncoprod (do grupo Santa Cruz) — vêm protagonizando movimentos que refletem o quanto esse setor está sob pressão. O Pátria vendeu a Elfa por R$ 620, a Viveo está captando quase R$ 900 milhões num aumento de capital para reduzir a alavancagem e a Oncoprod busca receber um crédito de R$ 1,2 bilhão com a Oncoclínicas, que está em processo de recuperação extrajudicial. 

O mercado de distribuição de medicamentos e materiais hospitalares, que movimenta compras de cerca de R$ 77 bilhões por ano, está pressionado desde 2022, com a crise das operadoras de planos de saúde e a alta dos juros. O setor deve atravessar uma nova etapa difícil com a Reforma Tributária, prevista para iniciar em 2027. O setor deve ser mais impactado a partir de 2029, quando começam as mudanças no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). 

As distribuidoras são consideradas um elo frágil da cadeia de saúde. De um lado, estão as operadoras e hospitais e na outra ponta, a indústria. Entre 2021 e 2023, período em que as operadoras amargaram prejuízo acumulado de R$ 17,5 bilhões houve uma pressão em cascata. As empresas de planos de saúde alongaram prazos de pagamento e aumentaram os questionamentos (glosas) dos procedimentos realizados pelos hospitais e laboratórios. Os estabelecimentos de saúde, por sua vez, pressionaram os distribuidores. 

“Esse é um setor de margem Ebitda apertada, é beneficiado por crédito tributário que vai mudar com a Reforma Tributária. É um mercado que privilegia mais preço do que prazo de entrega”, disse Vinícius Figueiredo, analista do Itaú BBA. 

Atualmente, as empresas de distribuição são beneficiadas com crédito tributário, mas essa vantagem não é equânime no setor porque há incidência de diversos tributos a nível federal e estadual. “Como a transição do ICMS se estenderá até 31 de dezembro de 2032, as empresas deverão avaliar tanto os efeitos diretos sobre preços, fluxo de caixa e resultados quanto os impactos indiretos em contratos, logística, compras, vendas e sistemas”, disse Bruna Bellini, sócia de Consultoria Tributária da Deloitte. 

“A margem média é de 8%, já considerando os benefícios fiscais. A situação dessas grandes empresas não é uma coincidência, mas elas estão numa situação um pouco mais complicada porque fizeram muitas aquisições e ficaram alavancadas”, disse Paulo Maia, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares (Abradimex). 

No mês passado, após rumores de que a Elfa poderia pedir recuperação extrajudicial, a distribuidora foi vendida por R$ 620,49 para Gravataí Participações, uma empresa que tem como gestores ex-sócios do parque Hopi Hari. Esse valor é infinitamente menor do que o investido pelo Pátria. Somente em 2023, a gestora de private equity fez dois aportes de capital, um de R$ 620 milhões e outro de R$ 253 milhões. 

No primeiro semestre, a Elfa apurou prejuízo de R$ 309 milhões, mais do que o dobro do mesmo período de 2025. A dívida está em R$ 1,5 bilhão após cerca de 20 aquisições. 

A Oncoprod, que pertence ao Grupo Santa Cruz e conhecida por ter uma estratégia mais agressiva de preços, também enfrenta dificuldades devido a uma dívida de R$ 1,2 bilhão da Oncoclínicas. A rede de tratamento de câncer está em processo de recuperação extrajudicial e negocia um alongamento de prazo para quitação desse passivo. 

A Viveo, por sua vez, precisou renegociar com os credores para não estourar sua alavancagem e busca com um aumento de capital de quase R$ 900 milhões reequilibrar as contas. A transação já tem adesão da DNA Capital e, na semana passada, o BTG Pactual se comprometeu absorver as sobras do aumento de capital. O banco vai subscrever as debêntures dos quais é detentor e passará a deter até 19,9% da distribuidora. 

“Passamos por muitas mudanças nos últimos anos. Fizemos cerca de 25 aquisições com uma taxa de juro muito diferente, houve ainda mudanças setorial e tributária”, disse Flávia Carvalho, vice-presidente de estratégia, relações com investidores e fusões e aquisições da Viveo. Hoje, o foco da companhia está na rentabilidade e redução de alavancagem. Após o aumento de capital, a relação Ebitda/dívida deve ficar em 2,7 vezes. 

A Viveo fez 25 aquisições e a Elfa comprou por volta de 20 empresas, sendo uma delas a Descarpack por R$ 1 bilhão, em 2021. A Descarpark foi colocada como garantia de debêntures da distribuidora de medicamentos. 

Segundo o analista do Itaú BBA, a Viveo pode ser beneficiada no atual cenário com a venda da Elfa e com a Oncoprod menos agressiva comercialmente. No entanto, Figueiredo destaca que ainda pesa o impacto da reforma tributária. 

 

Segundo Maia, da Abradimex, parte do impacto já acontece na virada do ano, com as distribuidoras comprando os produtos em novembro e dezembro e distribuindo no começo de 2027. “O impacto é de 0,73% sobre as vendas, o percentual é baixo, mas o volume é alto e a margem é reduzida”, disse o presidente da entidade. 

Ele pondera que a longo prazo a reforma tributária será positiva porque todas as empresas vão operar na mesma base de tributária. A vice-presidente comercial da Viveo, Cristina Lopes Coutinho, diz que o setor será afetado somente em 2029, uma vez que o tributo mais relevante na cadeia de distribuição é o ICMS, cujas regras mudam daqui três anos. 

Procurados pela reportagem, a Fenasaúde, entidade que representa as seguradoras e operadoras de planos de saúde, argumentou por meio do seu diretor executivo, Bruno Sobral, que “a melhora nos resultados não significa que as operadoras vão afrouxar os critérios. Há exageros e as operadoras não vão pagar por isso.” Sobral destacou ainda que a máfia das órteses e próteses voltou, com médicos recebendo comissões vantajosas para adotar determinadas fabricantes. 

A Anahp, associação dos hospitais, destacou que o “sistema de saúde suplementar vive um momento desafiador pela dificuldade de manter crescimento que simultaneamente permita o cumprimento de seus compromissos com 53 milhões de beneficiários e a sustentabilidade econômica das empresas envolvidas, de forma equânime. A falta de consenso em torno desta revisão precisa ser enfrentada por um diálogo realista e construtivo dentro da própria saúde suplementar e entre esta e os demais segmentos do sistema de saúde.” 

A Elfa e Pátria informaram que não vão comentar. A Oncoprod não retornou. 

 





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