A procura por produtos considerados mais saudáveis tem crescido desde a pandemia, mas a demanda ganhou força com o advento de medicamentos injetáveis que ajudam no controle do apetite (as canetas emagrecedoras).
Hoje as proteínas de alto valor estão presentes não apenas em barras e bebidas lácteas, mas também em snacks, chocolates, pães e até em vinhos e cervejas. No entanto, a indústria não conseguiu dar conta da demanda, já que os investimentos na ampliação da produção demandam um certo tempo.
“Foi uma combinação entre uma demanda que se acelerou e uma oferta que não conseguiu acompanhar esse aumento”, afirma Juliana Torres Santiago, analista de inteligência de mercado da StoneX. Segundo a consultoria, o WPC80 dos EUA chega ao Brasil custando em torno de R$ 160 mil a tonelada, já considerando impostos e custos de importação.
Cerca de 70% do WPC80 e do WPI consumidos no Brasil são importados. O país é um grande produtor de leite: são mais de 35 bilhões de litros por ano, segundo o IBGE. Mas a capacidade de processar o soro de leite e transformá-lo em ingredientes proteicos de maior valor agregado é limitada.
“Há um descompasso entre o crescimento da demanda por proteína concentrada de soro e o crescimento da disponibilidade de soro como subproduto da produção de queijo”, diz Marcel de Barros, CEO da Tirolez, uma das principais fabricantes de queijos do país. “Esse descompasso gera uma pressão de demanda, que leva a toda essa alta. É um fenômeno mundial”, acrescenta.
O mercado do soro no país não é exatamente uma novidade. A própria Tirolez comercializava esse subproduto para empresas que convertiam o ingrediente para uso na alimentação humana. Segundo Barros, a empresa busca “parcerias estratégicas de longo prazo” para ampliar a relevância do negócio dentro do grupo. No momento, a Tirolez fornece matéria-prima para empresas que usam whey na formulação de produtos.
A empresa adquiriu recentemente a planta do grupo Barbosa & Marques, em recuperação judicial, em Governador Valadares (MG). A capacidade de processamento e secagem é de 480 mil litros de soro por dia. Barros diz que a unidade opera na capacidade máxima. A Tirolez está arrendando a planta desde 1 de julho, mas a aquisição definitiva depende do processo de recuperação judicial.
Uma das poucas empresas que produzem essas proteínas de alta concentração no Brasil, a Sooro Renner tem unidades em Marechal Cândido Rondon (PR) e Estação (RS). A produção anual é de 8 mil toneladas de WPC80 e cerca de 2 mil toneladas de WPI. A empresa atua no B2B e vende os ingredientes a outras indústrias.
Após a fusão com a Relat, do grupo Renner Hermann, em 2019, a empresa traçou o plano de dobrar a capacidade de produção de proteínas. Em 2024, a Sooro decidiu construir uma nova planta em Francisco Beltrão (PR). A previsão é iniciar a produção no segundo semestre de 2027. A nova unidade, com investimento de mais de R$ 1 bilhão, deverá dobrar a capacidade atual de produção de WPC80 e WPI.
A indústria também terá formulações para nutrição infantil e público sênior. “Antigamente, o whey era considerado um produto só para ‘marombados’, as pessoas que viviam na musculação. Mas notamos que a pessoa que queria ter um estilo de vida mais saudável, seja correr, pedalar, fazer crossfit, também precisaria consumir mais proteína”, afirma o CEO da Sooro Renner, Eduardo Serra.
A empresa compra o soro de laticínios da região Sul. Segundo Serra, o custo da matéria-prima dobrou no último ano em meio à oferta restrita e ao aumento da demanda por proteínas. “Houve uma valorização de toda a cadeia. O meu fornecedor está recebendo mais, mas eu estou vendendo também mais caro”, afirma.
Diferentemente de outras empresas que precisam comprar soro de leite de terceiros, a francesa Lactalis tem uma fábrica de WPC integrada à de queijos, em Três de Maio (RS). O soro é levado por uma tubulação, em circuito fechado, diretamente para a produção de whey.
“O consumo per capita de proteína do leite nos Estados Unidos ou em outros mercados com economia mais madura ainda é bem maior que o do Brasil. Então acreditamos que aqui esse mercado vai continuar crescendo”, observa Guilherme Portella, diretor de comunicação, assuntos regulatórios e corporativos da Lactalis Brasil.
O mercado de bebidas proteicas movimenta atualmente cerca de 80 milhões de litros por ano, de acordo com consultoria MilkPoint. A título de comparação, bebidas UHT mais tradicionais chegam a quase 500 milhões de litros. Embora representem um volume pequeno, as bebidas proteicas apresentam crescimento acima de um dígito nos últimos anos, segundo Valter Galan, sócio da MilkPoint.
Ele observa que, como não existe soro suficiente para atender o mercado, há hoje projetos de unidades de queijo saindo já com plantas de proteína de soro acopladas.
Um dos projetos com esse perfil é do Grupo Piracanjuba, um dos maiores do ramo de laticínios do Brasil, que investiu mais de R$ 500 milhões na construção de complexo industrial em São Jorge d’Oeste (PR) com produção planejada e integrada de queijo, manteiga, whey protein e lactose em pó. A fábrica está em construção. A expectativa é produzir até 6 mil toneladas anuais de whey protein. Procurada, a empresa não deu entrevista.