Canetas emagrecedoras: é possível democratizar o acesso?
25/09/2026

Poucas inovações médicas recentes provocaram impactos tão amplos e rápidos quanto os agonistas do GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”. Desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes 2, com resultados muito positivos, medicamentos como semaglutida e tirzepatida inauguraram também uma nova era no enfrentamento da obesidade - uma epidemia que desafia sistemas de saúde do mundo todo. No Brasil, dados do Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que a proporção de adultos com obesidade passou de 11,8% em 2016 para 25,7% em 2024 - um crescimento de 118%. 

Obesidade é uma doença crônica associada a diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, doença renal, apneia do sono, problemas musculoesqueléticos e alguns tipos de câncer. É nesse contexto que os agonistas de GLP-1 ganham relevância. Estudos clínicos apontam níveis de perda de peso muito superiores aos obtidos com medicamentos mais antigos ou com abordagens focadas em dieta e atividade física, além de importante redução de riscos para as outras doenças. 
 

Poderiam os sistemas de saúde bancar tratamentos com agonistas de GLP-1 ou seriam caros demais? É esse dilema que move, mundo afora, estudos de custo-efetividade. Eles não perguntam apenas se o remédio funciona, mas quanto custa obter determinado ganho de saúde e se esse ganho justifica o investimento quando comparado às alternativas disponíveis. São considerados aspectos como preço do medicamento, duração do tratamento, redução de internações, anos de vida ganhos e qualidade de vida. Um dos indicadores mais usados é o QALY (Quality-Adjusted Life Year), que combina quantidade e qualidade dos anos de vida. 

Um estudo de pesquisadores da Universidade de Chicago, publicado em 2025 no Jama Health Forum, simulou os efeitos de longo prazo de uso de semaglutida e tirzepatida nos Estados Unidos. Ambos geraram ganhos importantes com a prevenção de casos de diabetes e doenças cardiovasculares. Mas não atingiram o limiar de custo-efetividade aceitável, que deveria ser inferior a US$ 100 mil por ano de vida ajustado pela qualidade. Considerados os valores então praticados, o preço líquido da tirzepatida teria de ser reduzido em 30% e o da semaglutida, em 82%. 

Em 2025, aqui no Brasil, avaliando demanda de uma farmacêutica multinacional sobre a incorporação no SUS da semaglutida para tratamento de pacientes a partir de 45 anos com obesidade grau II e III (IMC = 35 kg/m2), sem diabetes e com doença cardiovascular instalada, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologia no SUS (Conitec) deu parecer desfavorável, considerando principalmente o elevado impacto incremental no orçamento, cerca de R$ 8 bilhões por ano. 

Hoje, o SUS oferece apenas o tratamento da obesidade baseado em dieta e atividade física e bariátrica para casos mais graves, com longas filas de espera. 

No mundo ideal, uma política pública deveria incorporar o que há de mais efetivo no tratamento de uma doença tão impactante. A questão é que, por enquanto, os números não cabem no orçamento. No entanto, novas tecnologias médicas costumam começar com preço elevado, depois a escala aumenta, a competição cresce (inclusive com a produção pela indústria nacional), os preços diminuem e o acesso se amplia. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as estatinas, para o controle do colesterol, e com os antirretrovirais, para tratamento do HIV/Aids, ambos incorporados ao SUS. 

 

Com a expiração da patente da semaglutida em março deste ano, farmacêuticas brasileiras se movimentaram rapidamente. Entre similares sintéticos e genéricos, mais de uma dezena de produtos já obtiveram registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e alguns chegaram recentemente ao mercado. São os primeiros passos que parecem seguir a lógica econômica: inovação, competição, queda de preços, escala, mais acesso. 

O melhor caminho talvez seja evitar decisões binárias - incorporar para todos ou para ninguém. O Brasil pode testar modelos de uso direcionado, priorizando pacientes com maior risco e avaliando resultados. Um exemplo é o projeto-piloto iniciado no Rio Grande do Sul, que deverá ajudar o Ministério da Saúde a colher dados para subsidiar decisões. O estudo envolve o tratamento com semaglutida em 250 pacientes do SUS com obesidade grave que estão na fila da bariátrica e precisam emagrecer para fazer a cirurgia. O acompanhamento será feito durante dois anos e avaliará perda de peso, indicadores clínicos, efetividade, segurança e custos. 

Gerar evidências para pautar as decisões é fundamental e pode levar algum tempo. Mas as perspectivas são positivas, pois a competição tende a aumentar e os preços devem cair com a escala, permitindo levar os benefícios a mais pessoas e enfrentar a epidemia da obesidade com a régua da equidade. Do ponto de vista médico, a revolução das “canetas emagrecedoras” está em pleno andamento e novas aplicações promissoras seguem em estudo. Mas a revolução que colherá as melhores vitórias é a que democratizará seu uso por todos que precisarem. 

Sidney Klajner é cirurgião do aparelho digestivo, coloproctologista e presidente do Einstein Hospital Israelita. 
Contato: www.linkedin.com/in/sidney-klajner 

 

 

 

 





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