A transformação digital deixou de ser uma possibilidade distante e passou a fazer parte da rotina dos sistemas de saúde. Ferramentas digitais, sistemas de informação, inteligência artificial e plataformas de monitoramento vêm modificando a forma como informações são coletadas, analisadas e utilizadas na tomada de decisão.
Na vigilância epidemiológica, essa transformação pode ser particularmente importante. A identificação precoce de mudanças no comportamento das doenças depende não apenas da existência de dados, mas da capacidade de transformar esses dados em informação útil para os profissionais responsáveis pelas decisões.
É nesse ponto que a tecnologia deve ser compreendida como ferramenta de apoio, e não como substituta do profissional de saúde.
Um sistema pode organizar milhares de informações em poucos segundos. Um algoritmo pode identificar padrões difíceis de perceber manualmente. Uma plataforma pode integrar dados provenientes de diferentes fontes. Entretanto, interpretar esses resultados dentro de um contexto sanitário, social e epidemiológico continua exigindo conhecimento profissional.
A tecnologia, portanto, não elimina a necessidade do olhar humano. Ao contrário: quanto maior a quantidade de informações disponíveis, maior se torna a necessidade de profissionais preparados para avaliar criticamente aquilo que os sistemas apresentam.
O desafio não é apenas ter tecnologia
Um dos principais equívocos quando se discute transformação digital em saúde é imaginar que a simples aquisição de novas ferramentas produzirá melhores resultados. Não necessariamente.
Uma tecnologia somente produz valor quando está integrada ao processo de trabalho e quando os profissionais compreendem como utilizá-la. Sistemas complexos, pouco intuitivos ou desconectados da realidade dos serviços podem, inclusive, aumentar a carga de trabalho.
Por isso, a transformação digital precisa envolver quem está diretamente na assistência, na vigilância e na gestão.
Enfermeiros e outros profissionais de saúde conhecem dificuldades que nem sempre são percebidas durante o desenvolvimento de uma ferramenta tecnológica: duplicidade de registros, ausência de integração entre sistemas, atrasos na notificação, dificuldade para acessar informações e excesso de etapas operacionais.
Ouvir esses profissionais durante o desenvolvimento e a implementação das tecnologias pode aproximar inovação e necessidade real.
A enfermagem também precisa ocupar esse espaço
A discussão sobre inteligência artificial e saúde digital não deve ficar restrita aos profissionais de tecnologia.
A enfermagem participa diariamente da produção, do registro e da utilização de uma quantidade enorme de informações em saúde. Esses profissionais estão presentes na assistência, na gestão, na vigilância, na educação em saúde e em diferentes pontos das redes de atenção.
Consequentemente, precisam participar também das decisões sobre como as novas tecnologias serão desenvolvidas e utilizadas.
Isso exige formação. Não significa transformar todo enfermeiro em programador. Significa desenvolver competências para compreender dados, avaliar tecnologias, reconhecer suas limitações e participar criticamente da implementação de soluções digitais.
Tecnologia deve apoiar melhores decisões
O verdadeiro avanço não está em utilizar inteligência artificial porque ela é novidade. Está em utilizar tecnologia quando ela resolve um problema real.
Uma ferramenta tecnológica pode ajudar profissionais a reconhecer alterações epidemiológicas mais rapidamente, organizar informações, melhorar a comunicação entre serviços e apoiar decisões. Mas seu valor precisa ser medido pela capacidade de contribuir para melhores processos e, principalmente, melhores resultados em saúde.
“Qual tecnologia podemos implementar?”
Talvez a pergunta mais importante seja:
“Qual problema de saúde queremos resolver e como a tecnologia pode ajudar?”
Essa mudança de perspectiva coloca novamente o profissional e as necessidades da população no centro da transformação digital.
O futuro da saúde continuará sendo humano
Nos próximos anos, a presença de inteligência artificial, sistemas automatizados e tecnologias digitais nos serviços de saúde deverá crescer.
Resistir a essa transformação não parece ser a melhor resposta. Aceitá-la sem avaliação crítica também não.
O caminho mais promissor está na integração entre conhecimento humano e capacidade tecnológica.
A tecnologia pode processar informações. O profissional de saúde compreende contexto, prioridades, necessidades e consequências.
Quando essas duas capacidades trabalham juntas, a transformação digital deixa de ser apenas inovação tecnológica e passa a representar uma oportunidade real de fortalecer os sistemas de saúde.
*Michelle de Oliveira Guimarães Arantes é enfermeira e doutora em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP).