A saúde suplementar chega a 2027 com a tarefa de ampliar o acesso aos planos sem comprometer a rentabilidade das operadoras nem transferir integralmente aos consumidores o aumento dos custos assistenciais. Depois da recuperação financeira observada em 2025, os resultados do primeiro semestre de 2026 mostram perda de fôlego, enquanto as empresas aceleram investimentos em prevenção, tecnologia, integração de serviços e novos modelos de atendimento. A mudança na fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) acrescenta uma nova dimensão à transformação do setor.
Dados da ANS mostram que a receita das operadoras cresceu 8,37% no primeiro semestre, para R$ 201,9 bilhões. O lucro operacional, porém, recuou 18,8%, para R$ 9 bilhões, enquanto o lucro líquido caiu 10,5%, para quase R$ 17 bilhões. A sinistralidade alcançou 81,91%, alta de 0,76 ponto percentual. Os resultados foram influenciados também por eventos não recorrentes, incluindo a constituição de provisões e operações societárias.
Para a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), os números indicam que a recuperação aos níveis anteriores à pandemia dá sinais de arrefecimento. A margem operacional caiu de 3,9% para 3,2%, enquanto a margem líquida passou de 7,7% para 6,2%, segundo a entidade. “A recuperação ocorrida em 2025 começa a perder força”, afirma Bruno Sobral, diretor-executivo da FenaSaúde. A entidade defende o controle de custos e desperdícios para preservar a sustentabilidade das operações.
A ANS apresenta uma leitura distinta sobre a situação financeira do mercado. Segundo a entidade, 64% das operadoras registraram resultados positivos. Washington Oliveira Alves, gerente de habilitação e estudos de mercado, afirma que a proporção de empresas com prejuízo permanece próxima do padrão histórico. A agência também informa que as despesas decorrentes da judicialização somaram R$ 2,6 bilhões no semestre, mas avalia que os números não demonstram, isoladamente, uma ameaça à sustentabilidade do setor.
Entre as maiores empresas, a Bradsaúde aposta na integração de planos médicos e odontológicos, hospitais, clínicas e tecnologia para ganhar eficiência. Criada a partir da reorganização dos negócios de saúde do Bradesco, a companhia encerrou junho com 13,6 milhões de beneficiários e incorporou 855 mil vidas em 12 meses. O lucro líquido alcançou R$ 2,4 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 28%.
Segundo Carlos Marinelli, CEO da Bradsaúde, a nova estrutura permite coordenar estratégias comerciais e assistenciais, preservando uma rede credenciada de mais de 37 mil prestadores. Para 2027, a prioridade será expandir a presença regional e ampliar a oferta para pequenas e médias empresas, combinando produtos adaptados a cada mercado com controle da sinistralidade.
A SulAmérica também apresenta melhora operacional. A companhia encerrou junho com 6,1 milhões de beneficiários, crescimento de 9,7% em 12 meses. A receita de saúde e odontologia somou R$ 8,3 bilhões no segundo trimestre, alta de 6,5%, enquanto a sinistralidade recuou três pontos percentuais, para 78,9%. Gustavo Guimarães, vice-presidente de clientes da SulAmérica, destaca os investimentos no acompanhamento de pacientes com doenças complexas, como câncer e enfermidades autoimunes. A estratégia utiliza dados e equipes médicas para reduzir a fragmentação do atendimento. Para 2027, a companhia pretende ampliar as iniciativas de prevenção e coordenação do cuidado que demonstrarem resultados consistentes.
Na Amil, a carteira cresceu 4,5% até julho, com a incorporação de 140 mil clientes, ante expansão de 0,5% do mercado no mesmo período, segundo a companhia. O CEO Renato Manso prevê sinistralidade inferior a 80% e Ebitda superior a R$ 2,5 bilhões em 2026. A empresa também mantém conversas com investidores e admite propostas de participação minoritária, sem abrir mão do controle societário.
A transformação do modelo assistencial é apontada como condição para conter a escalada dos custos. No Sistema Unimed, a sinistralidade, que se aproximou de 90% em 2023, recuou para a faixa de 80% em 2025 e 2026. Omar Abujamra Junior, presidente da Unimed do Brasil, afirma que a incorporação de medicamentos e tecnologias de alto custo, a judicialização e o envelhecimento populacional continuam pressionando as despesas. A entidade criou núcleos dedicados à atenção à saúde, avaliação de tecnologias e geração de valor, com foco em resultados clínicos e revisão dos modelos de remuneração. A mudança é complexa em um sistema formado por 336 cooperativas autônomas e 116 mil médicos cooperados.
O consultor Valter Hyme considera que o modelo de financiamento não acompanhou a mudança no perfil da população. Segundo ele, a remuneração por volume de procedimentos estimula gastos sem necessariamente garantir melhores resultados. A solução passa por maior integração entre saúde pública e privada e por mecanismos que valorizem a capacidade de resolução dos tratamentos.
Desde maio, a ANS adota um modelo de fiscalização mais preventivo e orientador, voltado à identificação de problemas recorrentes e à correção de falhas nos processos das operadoras. A agência considera prematuro avaliar os resultados após apenas quatro meses de vigência. O principal indicador continuará sendo o Índice Geral de Reclamações (IGR), cuja redução é um dos objetivos da mudança.
A FenaSaúde considera a nova abordagem um avanço, mas pede transparência na metodologia de fiscalização, garantia do direito de defesa e reconhecimento das correções realizadas pelas operadoras. Para 2027, a entidade também defende regras que permitam maior coordenação do atendimento e critérios mais claros para a incorporação de tratamentos de alto custo.