O Mercado Livre lançou ontem (24) o programa “envios agora” para entrega em até um hora de mercadorias de até 15 quilos para qualquer categoria de produto. Além disso, a companhia passará a fazer envios de itens de farmácia também com entregas em até 60 minutos de produtos que precisam de receita médica - incluindo medicamentos à base de GLP-1. O início dessa venda ocorrerá por São Paulo, a partir de hoje.
O mercado já reagiu à movimentação da empresa: minutos após a divulgação da informação, as ações das varejistas RD Saúde (Raia Drogasil) e Panvel tiveram forte queda na B3, atingindo a maior baixa do dia e fechando com recuo de 5,38% e 4,90%, respectivamente. O papel da Pague Menos teve a maior desvalorização, de 8%.
O movimento marca uma mudança estratégica em relação à categoria de saúde na empresa: a plataforma deixa de atuar apenas com produtos sem retenção da receita, como analgésicos e vitaminas, e entra na disputa de segmentos em que a competição tem sido mais acirrada, como as canetas emagrecedoras, e de mercados tradicionais, como antibióticos e de uso controlado.
O plano é ter já neste ano acordo com 20 drogarias na capital paulista, que poderão estar dentro do “envios agora”. Inicialmente, há três contratos já negociados com lojas de farmácias, mas a empresa preferiu não dizer os nomes.
No momento, há entrega de produtos sem prescrição limitada ao estoque que a empresa opera a partir de uma farmácia na zona sul de São Paulo, em atuação mais restrita. O Mercado Livre analisa como ficará a questão do frete gratuito mas, momentaneamente, continuam valendo as mesmas condições de entrega sem custos para usuários do programa Meli+ em itens elegíveis em envios acima de R$ 19.
A venda coloca a empresa em concorrência direta com nomes como RD Saúde, Pague Menos e Drogaria São Paulo, líderes nacionais. Nessas companhias, parte das entregas expressas é cobrada. A RD Saúde cobra R$ 7,99 nas vendas abaixo de R$ 200, segundo simulações no site das redes feitas pelo Valor. A São Paulo cobrou R$ 7,99 pelo envio, não importando o valor da cesta para a capital paulista.
“Percebemos que havia muita busca por remédio [na plataforma]. Além disso, a taxa de conversão de medicamentos [de visitas em vendas] é muito maior quando comparada aos demais produtos”, disse Fernando Yunes, vice-presidente executivo do Mercado Livre para a América Latina. Na prática, a empresa está de olho ainda na receita a ser gerada a partir da frequência de compra de medicamentos, uma das mais altas do varejo. Ao mesmo tempo, contudo, começa a atuar num segmento sem a base de dados do público consumidor que as grandes cadeias já possuem, e sem os pontos de venda, que geram o atendimento do balcão.
A companhia deve fechar o ano com 30 centros de distribuição tradicionais, com modelo “fulfillment” (que opera todo os serviços aos lojistas, como armazenamento, envio e entregas), crescimento versus os 21 centros do ano anterior. Ao considerar os “cross dockings” (espaços em que o produto permanece estocado curtos períodos), centros de recebimento e de triagem, por exemplo, serão 72 estruturas até o fim de 2026, aumento de 39% frente ao ano anterior.
O grupo fez mais dois anúncios, sobre a criação de um produto de crédito com sete dias sem juros para usuários da conta de negócios do Mercado Pago, e o lançamento de uma linha de longo prazo, com limites de até R$ 700 mil e pagamento em 48 meses (o máximo até então era de 24 meses).
Yunes foi questionado sobre o período atual de desaceleração no varejo brasileiro, e de eventual efeito da expansão do on-line nas empresas em crise, que enfrentam recuperações judiciais e extrajudiciais. As grandes plataformas estrangeiras ampliaram participação no setor, avançando sobre o mercado dos grupos nacionais nos últimos anos, especialmente Magazine Luiza e Casas Bahia, na visão de consultores. “Não atribuo ao ‘marketplace’ [a crise], há varejistas que vendem nas plataformas. O problema é que há um cenário difícil e famílias endividadas, além de muitos varejistas alavancados”, disse ele.