A inteligência artificial já está presente na jornada de quem enfrenta o câncer, especialmente, nos momentos em que surgem dúvidas sobre um exame, um diagnóstico, um efeito colateral ou uma possibilidade de tratamento.
Pesquisa com pacientes oncológicos realizada pelo Instituto Oncoguia mostra que 8 em cada 10 (82%) dos participantes já utilizaram alguma ferramenta de inteligência artificial para cuidar da saúde ou esclarecer questões relacionadas ao câncer e ao tratamento.
O levantamento reuniu 1.186 respostas e retrata predominantemente a experiência direta de pacientes: 55% estavam em tratamento ativo e 38% haviam concluído o tratamento e permaneciam em acompanhamento. Somados, esses grupos representam 93% da amostra.
Entre os 976 participantes que confirmaram usar IA para assuntos sobre saúde ou câncer, a principal finalidade é compreender resultados de exames, mencionada por 79,5%. Também aparecem a busca por explicações sobre o diagnóstico, com 67%; efeitos colaterais e maneiras de aliviá-los, com 64%; tratamentos para o próprio caso, com 57%; e medicamentos, com 51%.
Os resultados indicam que a IA está sendo utilizada principalmente para traduzir informações complexas e ajudar o paciente a compreender melhor a própria jornada de cuidado.
IA pode estar preenchendo lacunas de informação
Para o Instituto Oncoguia, os dados levantam uma hipótese importante: a inteligência artificial pode estar ocupando um espaço que nem sempre é plenamente atendido ao longo do cuidado — a necessidade de compreender informações complexas no momento em que a dúvida aparece e no ritmo de cada paciente.
“A utilização nos mostra que os pacientes não buscam apenas mais informação. Eles buscam tradução, contexto, disponibilidade e apoio para formular perguntas que muitas vezes surgem depois da consulta ou durante a rotina do tratamento”, afirma Luciana Holtz, psico-oncologista e presidente do Instituto Oncoguia.
A pesquisa coloca, assim, uma questão para todo o sistema de saúde: o que os pacientes estão buscando na inteligência artificial que gostariam de receber, com mais tempo, clareza e disponibilidade, ao longo da própria jornada?
Benefício percebido é alto
Entre os usuários de IA, 93% afirmam que a tecnologia ajudou a compreender melhor a doença ou o tratamento. Para 62%, ajudou muito; para 31%, ajudou um pouco.
Quase metade dos usuários, 47%, recorre à IA algumas vezes por semana (15% todos os dias). A intensidade de uso aparece associada ao benefício percebido: 76% dos usuários mais frequentes dizem que a IA ajudou muito, em comparação com 25% daqueles que utilizaram a tecnologia uma única vez ou raramente.
Essa associação não permite afirmar que o uso mais frequente seja a causa do maior benefício. Ela mostra, porém, que a IA já ocupa um espaço relevante na rotina informacional dos participantes.
ChatGPT e Gemini lideram entre as ferramentas utilizadas
Entre os usuários, o ChatGPT é a ferramenta mais mencionada, com 69%. Em seguida aparecem o Gemini, do Google, utilizado por 57%, e a Meta AI, disponível no WhatsApp, com 25%.
Como os participantes podiam selecionar mais de uma alternativa, os percentuais não somam 100%.
Benefício não elimina as preocupações
A percepção positiva convive com dúvidas importantes sobre segurança e confiabilidade. Entre os usuários, 58% têm receio de receber informações incorretas e 52% temem não conseguir identificar se uma resposta é confiável.
A privacidade dos dados preocupa 28%. Também aparecem o receio de ficar mais ansioso, citado por 19%; o medo de encontrar prognósticos ou notícias ruins sobre a doença, com 17%; e a possibilidade de receber orientações que substituam inadequadamente o médico, com 8%.
Apesar dos riscos, 79% dos usuários dizem conferir as respostas da IA sempre ou na maioria das vezes. Apenas 7% afirmaram nunca fazer essa verificação.
“O Oncoguia nasceu para cobrir a lacuna da falta de informação de qualidade e útil, e por todos esses anos seguimos criando ferramentas educativas e defendendo a importância do letramento em saúde diante do câncer. Com a chegada da IA, o acesso parece mais fácil, mas também precisa de orientação sobre como utilizá-las de maneira crítica e segura. Quando a tecnologia é bem utilizada, todos ganham: o paciente chega mais preparado e a conversa com a equipe de saúde pode se tornar mais qualificada”, afirma Luciana.
Médico continua sendo a principal referência
O avanço da IA não significa, até o momento, o afastamento da equipe de saúde. Para 65% dos participantes, o médico é a principal fonte de confiança para confirmar uma informação obtida por meio da tecnologia.
Entre os usuários, 65% já levaram alguma informação encontrada em ferramentas de IA para conversar com um médico ou outro profissional de saúde. Outros 8% ainda não fizeram isso, mas pretendem.
Os dados apontam para uma nova dinâmica entre paciente, inteligência artificial e equipe de saúde. A tecnologia pode ajudar o paciente a compreender informações, organizar dúvidas e se preparar para uma conversa mais qualificada durante a consulta.
“O médico continua sendo a principal referência para validar essas informações. A pergunta que precisamos fazer não é quando isso vai mudar, mas como profissionais e serviços de saúde podem responder às necessidades que os pacientes já estão manifestando ao utilizar a IA”, avalia Luciana.
IA também é usada para entender direitos
Além das questões clínicas, 41% dos usuários disseram já ter utilizado IA para entender direitos do paciente, como benefícios, leis e prazos.
Outras finalidades mencionadas foram traduzir laudos e relatórios médicos complexos, com 49%; buscar informações sobre alimentação, bem-estar e atividade física, com 46,5%; explicar termos médicos difíceis, com 42%; e organizar sintomas ou efeitos colaterais para apresentar na consulta, com 21%.
Participantes querem orientação para usar IA com segurança
A demanda por educação aparece de maneira direta: 81% dos participantes gostariam que o Oncoguia oferecesse conteúdos ensinando como utilizar inteligência artificial de forma segura para obter informações sobre câncer. Outros 17% responderam “talvez”. Apenas 2% não demonstraram interesse.
“Os pacientes pediram e nós já começamos a responder. Junto com os resultados da pesquisa, estamos lançando um e-book para apoiar o uso seguro e responsável das ferramentas de inteligência artificial. Queremos ajudar o paciente a aproveitar os benefícios da tecnologia sem perder o olhar crítico e sem substituir a orientação da equipe de saúde”, explica Luciana.