A nova edição do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama alerta para retrocessos e gargalos crônicos no acesso das brasileiras à saúde. Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil apresenta queda na produção de mamografias de rastreamento no Sistema Único de Saúde (SUS): após uma tímida recuperação pós-pandemia, o volume de exames sofreu redução de -0,2% em 2024 e de -1,0% em 2025. A taxa nacional de cobertura mamográfica para a população-alvo, de 50 a 69 anos, também sofreu uma diminuição, passando de 22,8% em 2024 para apenas 22,1% em 2025.
O estudo, produzido anualmente, é o resultado da parceria entre o Instituto Natura e a Avon com o Observatório da Oncologia do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) e o Instituto Protea. Neste ano, a análise de diagnósticos e do tempo de tratamento deixou de utilizar a Base RHC (Registro Hospitalar de Câncer), considerada defasada, e passou a utilizar os dados do Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA), mudança de metodologia que revelou um cenário ainda mais desafiador do que o estimado anteriormente.
“Esta atualização representa um avanço importante para o monitoramento do câncer de mama no Brasil. Com dados mais recentes do Painel de Oncologia do INCA, conseguimos compreender com maior precisão a jornada das pacientes, identificar gargalos e desigualdades e produzir evidências que contribuam para políticas públicas mais efetivas. Dados atualizados são fundamentais para transformar informação em ações concretas de cuidado”, comenta Catherine Moura, médica sanitarista, CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.
O estudo também mostra que 51% dos casos registrados entre 2015 e 2025 foram diagnosticados em estágios avançados (3 e 4) da doença, quando o tumor já está mais avançado e tem menores chances de cura, além de exigir tratamentos mais desafiadores. Esse dado, atrelado à baixa cobertura mamográfica, ajuda a explicar por que o câncer de mama é o tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, mesmo quando a chance de cura é de 95% se detectado no início, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS).
“As mulheres não deveriam morrer por câncer de mama nessa grandeza no Brasil. O que acontece é que há um importante atraso no diagnóstico e no tratamento. O Panorama nos permite enxergar onde estão os principais desafios, onde precisamos avançar. Monitorar esses dados é fundamental para apoiar políticas públicas de qualidade e baseadas na compreensão dos reais desafios, além de ampliar a conscientização das mulheres, para que elas conheçam a importância da detecção precoce, realizem os exames indicados e encontrem a assistência de que precisam no momento certo”, afirma Mariana Lorencinho, gerente de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura. “Informação, acesso e oferta precisam caminhar juntos para aumentarmos as chances de prognóstico positivo.”
Mulheres mais jovens têm os casos mais graves por falta de rastreio
Outro dado alarmante recai sobre as mulheres mais jovens, justamente as que estão fora da idade de rastreamento ativo recomendada pelo Ministério da Saúde (50 a 69 anos) — neste ano, a mamografia de rastreio a partir dos 40 anos foi autorizada no SUS, mas somente sob demanda.
Segundo o Panorama, 68,3% das pacientes entre 20 e 29 anos recebem o diagnóstico já nos estágios três ou quatro da doença. Entre as de 30 e 39 anos, 61,9% dos diagnósticos também foram nesses estágios, e na faixa de 40 a 49 anos, 53,7%. Entre as mulheres da faixa etária alvo, 47,6% foram diagnosticadas tardiamente.
O impacto das falhas no rastreamento, assim como no tempo de tratamento, reflete-se no aumento de óbitos. Entre 2015 e 2025, o Brasil registrou 203.785 mortes por câncer de mama, sendo 21.668 apenas em 2025, o maior número registrado na série histórica. No recorte racial, 55,4% dos óbitos em 2025 ocorreram entre mulheres brancas e 43,9% entre mulheres negras.
“É inaceitável que quase metade das mulheres na faixa etária-alvo do rastreamento ainda receba o diagnóstico de câncer de mama em estágios avançados, enquanto o país registra aumento da mortalidade pela doença. Esse resultado reforça a necessidade de qualificar a linha de cuidado, com uma rede capaz de assegurar acesso oportuno, integração entre os serviços e continuidade da assistência desde a identificação da suspeita até o tratamento. Uma linha de cuidado estruturada e resolutiva é fundamental para reduzir as desigualdades de acesso e melhorar os desfechos das mulheres com câncer de mama no Brasil”, afirma Nira Cará, diretora-executiva do Instituto Protea.”
A barreira do tempo: Lei dos 60 dias não é cumprida e leva mais que o dobro de dias para ser realizada
A agilidade no tratamento também foi analisada sob a nova metodologia do Panorama do Câncer de Mama. O tempo médio entre o diagnóstico do câncer de mama e o início do tratamento no SUS foi de 123 dias no consolidado de 2015 a 2025, mais que o dobro do prazo máximo de 60 dias determinado pela Lei 12.732/2012. Embora tenha havido uma melhora no último ano, com a média caindo para 86 dias em 2025, o país segue distante de garantir a aplicação da lei.
Em adicional, cerca de 62% das pacientes diagnosticadas no SUS tiveram seu direito violado e levaram mais de 60 dias para iniciar o tratamento no período do Estudo, em 2025 67,4% foi a média nacional, sendo os estados com as maiores médias de espera em 2025 Sergipe (115 dias), Rio de Janeiro (107 dias) e Bahia (100 dias).
Disparidades regionais seguem marcantes
No Panorama do Câncer de Mama 2026, a região Sul manteve a melhor cobertura do país, alcançando 25,6% em 2025. Já os estados com maior cobertura no último ano foram Piauí (32,4%), Bahia (28,8%) e São Paulo (28,7%).
Na outra ponta, as regiões Norte (10,6%) e Centro-Oeste (13,5%) apresentaram os piores desempenhos e os estados com as menores coberturas em 2025 foram Pará, com 8,7%, Rondônia com 7,9%, e Tocantins, com apenas 5,8%.