O prontuário eletrônico foi criado para organizar informações e apoiar a continuidade do cuidado. Na prática, porém, ele também passou a ocupar uma parcela significativa do tempo do médico diante do paciente.
Um estudo americano que analisou cerca de 100 milhões de atendimentos ambulatoriais, envolvendo 155 mil médicos, mostrou como esse tempo é distribuído dentro do sistema. Aproximadamente um terço é dedicado à revisão do prontuário e um quarto à documentação. Somadas, as duas atividades consomem mais da metade do tempo de interação do médico com o sistema.
O dado ajuda a dimensionar um problema que vai além da produtividade. Quando o profissional passa uma parcela relevante da consulta lendo informações já registradas e digitando aquilo que precisa ser documentado, o prontuário deixa de ser apenas uma ferramenta de apoio e passa a disputar espaço com a própria relação médico-paciente.
Há ainda outro efeito: o excesso de documentação pode comprometer a qualidade do registro. O uso recorrente de modelos, blocos padronizados e do conhecido “copia e cola” contribui para o chamado note bloat, ou inflação das notas clínicas. Quanto maior e mais repetitivo o prontuário, mais difícil pode ser identificar aquilo que realmente importa para a tomada de decisão. E um dado incorreto, quando replicado ao longo do histórico, pode adquirir aparência de informação validada.
O desafio, portanto, não é eliminar o prontuário, mas fazer com que ele volte a cumprir sua função essencial: comunicar informações relevantes para o cuidado.
É nesse contexto que a inteligência artificial surge de forma paradoxal. A mesma tecnologia capaz de reduzir o tempo gasto com documentação também pode acrescentar uma nova camada de complexidade à prática clínica se for utilizada sem critérios, validação e supervisão.
A Resolução CFM nº 2.454/2026, em vigor desde agosto, estabelece parâmetros para o uso da IA na medicina brasileira. A norma reconhece a tecnologia como ferramenta de apoio à prática clínica, gestão, pesquisa e educação continuada, mas preserva a responsabilidade médica. A decisão final permanece sob responsabilidade do médico, que deve exercer julgamento crítico e pode discordar de uma recomendação produzida por um sistema de IA.
Esse ponto é fundamental. Supervisão humana não pode significar apenas conferir ou assinar uma informação produzida pela máquina depois que o atendimento terminou. Para ser efetiva, precisa acontecer durante o processo de cuidado.
Uma aplicação mais promissora da IA, portanto, não é aquela que tenta substituir o raciocínio clínico, mas a que reduz tarefas operacionais e amplia a capacidade do médico de raciocinar. Em vez de apenas transcrever uma consulta, por exemplo, um sistema pode organizar as informações em tempo real e apontar uma pergunta que não foi feita, um dado que precisa ser confirmado ou uma informação relevante que merece ser investigada.
Nesse modelo, a tecnologia não toma a decisão. Ela ajuda a tornar o raciocínio mais completo, e cabe ao médico aceitar, corrigir ou descartar suas sugestões.
Esse é um campo que ainda precisa avançar. Ferramentas capazes de transcrever e organizar o atendimento e, simultaneamente, apoiar o médico com perguntas e informações relevantes podem contribuir para reduzir o tempo dedicado à documentação sem retirar do profissional a responsabilidade pela decisão. Mas, para que ocupem espaço crescente na prática assistencial, precisam ser submetidas a validação, avaliação de segurança e uso supervisionado.
O objetivo não é criar uma medicina conduzida por algoritmos. É justamente o contrário: usar a tecnologia para reduzir o tempo que o médico dedica à interface e ampliar aquele que dedica ao paciente.
O prontuário eletrônico nasceu para registrar o cuidado. A inteligência artificial pode ajudar a fazer com que ele deixe de competir com esse cuidado e volte a estar a serviço dele.
*Ramon Marcelino é endocrinologista e metabologista e cofundador da ArchAImeds.