Debate sobre saúde precisa ir além das paredes dos hospitais
13/10/2026

Em períodos eleitorais, propostas para a saúde costumam se traduzir em obras: novos hospitais, unidades de pronto atendimento e mais leitos. São investimentos essenciais em um país que ainda convive com profundas desigualdades de acesso. Porém, existe uma infraestrutura menos visível e cada vez mais determinante para a qualidade da assistência: a capacidade de fazer a informação acompanhar o cidadão durante toda a sua jornada de cuidado.

É esse o princípio da interoperabilidade. Em termos práticos, significa permitir que diferentes sistemas troquem e compreendam informações de forma padronizada e segura. Não estamos falando apenas estruturas e sistemas para transportar os dados, mas sim em transformá-lo em conhecimento capaz de apoiar quem cuida.

Imagine um cidadão atendido em uma unidade básica de saúde, encaminhado a um especialista, submetido a exames em outro serviço e, meses depois, levado a uma emergência. Seu percurso atravessa diferentes profissionais e instituições. Será que a sua história clínica fez o mesmo percurso?

Na maioria das vezes, a resposta é não. Quando a informação não acompanha o cidadão, a fragmentação digital se transforma em fragmentação do cuidado. Diagnósticos, medicamentos, alergias, exames e condutas ficam espalhados em diferentes sistemas. O paciente acaba se tornando o mensageiro da própria história clínica, obrigado a reconstruí-la a cada novo atendimento. O resultado pode ser mais exames repetidos, desperdício de recursos, demora no atendimento e, principalmente, decisões clínicas tomadas sem acesso a toda a informação disponível sobre aquele paciente.

É justamente aqui que a transformação digital da saúde ganha uma nova dimensão. Quando os dados acompanham o cidadão ao longo do tempo, eles podem formar um resumo clínico inteligente, mostrando uma visão organizada e relevante da sua trajetória de saúde, disponível no momento da decisão do médico.

Com inteligência artificial, essa informação deixa de ser apenas um arquivo digital. Ela pode funcionar como um copiloto do profissional de saúde, ajudando a identificar antecedentes, medicamentos, alergias, exames anteriores, riscos e informações relevantes para aumentar a segurança e a assertividade do diagnóstico e do tratamento.

No Brasil, esse cenário já é realidade em algumas instituições. No setor público, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e o SUS Digital criaram bases importantes para essa transformação. O próximo desafio é fazer essa arquitetura chegar à vida real: ao consultório, à unidade básica, ao hospital, ao laboratório, à emergência e, sobretudo, às mãos do cidadão e do profissional que está cuidando dele naquele momento.

Há também uma mudança de perspectiva fundamental nessa transformação. Afinal, durante décadas, digitalizamos hospitais com as melhores soluções, agora, precisamos digitalizar a saúde.

Isso significa deixar de organizar a tecnologia em torno das instituições e passar a organizá-la em torno do cidadão. Onde quer que ele seja atendido, sua informação deve acompanhá-lo, respeitando regras rigorosas de segurança, privacidade, consentimento, rastreabilidade e acesso.

É importante deixar claro que a interoperabilidade não significa circulação indiscriminada de informações. Dados de saúde estão entre os mais sensíveis que existem e precisam ser protegidos durante todo o seu ciclo de vida.

A equidade também é fundamental nesta nova perspectiva. A transformação digital precisa alcançar tanto os grandes centros quanto os municípios com menor capacidade tecnológica e financeira. Caso contrário, correremos o risco de criar mais uma desigualdade: a entre quem recebe cuidado apoiado por informação e quem continua dependendo de sistemas isolados e papel.

Há quatro décadas acompanho a gestão da saúde no Brasil. Nesse período, ampliamos o acesso, desenvolvemos instituições e construímos um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. O próximo salto não depende apenas de construir mais. Depende também de conectar melhor tudo o que já construímos.

Hospitais, unidades de saúde e novos leitos continuarão sendo indispensáveis. Mas o valor dessa infraestrutura aumenta quando existe uma jornada fluida de informação entre todos os pontos da rede. Porque, na saúde, um dado que não chega no momento certo pode significar uma oportunidade perdida de diagnosticar melhor, tratar melhor ou até mesmo, salvar uma vida.

Por isso, quando discutirmos os projetos de governo para os próximos anos, não deveríamos questionar apenas quantos hospitais, unidades ou leitos serão construídos. Precisamos fazer uma segunda pergunta: como todos eles estarão conectados ao cidadão?

O sistema de saúde do futuro não começa na porta do hospital e não termina na alta. Ele começa no cidadão, acompanha toda a sua jornada e volta para ele em forma de informação, inteligência e cuidado.


*Paulo Magnus é fundador e CEO da MV.





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