Medicina de precisão no tratamento do câncer de mama
15/10/2026

“Vou precisar de quimioterapia?” Essa costuma ser uma das primeiras perguntas de quem recebe o diagnóstico de câncer de mama. Durante muito tempo, a descoberta de um tumor esteve associada a um tratamento que poderia envolver cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Hoje, porém, sabemos que não existe um único câncer de mama. O Brasil deve registrar 78,6 mil novos casos por ano no triênio 2026-2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), mas cada caso apresenta características próprias, que influenciam seu comportamento e sua resposta às terapias. Por isso, a decisão não depende apenas do tamanho ou do estágio da doença. É preciso considerar também a biologia do tumor e as características de quem está sendo tratado.

Uma das mudanças mais importantes está na capacidade de identificar essas diferenças. Nos tumores hormônio-positivos, as células apresentam receptores para estrogênio e progesterona e podem responder a medicamentos que bloqueiam a ação desses hormônios. Já os tumores HER2-positivos apresentam superexpressão da proteína HER2, que estimula a multiplicação celular e pode ser alvo de terapias específicas. Nos chamados triplo-negativos, esses receptores não estão presentes, o que exige outras estratégias. Em pacientes selecionadas, testes moleculares podem acrescentar informações sobre o perfil do câncer, estimar o risco de recorrência e ajudar a identificar situações em que a quimioterapia provavelmente traria pouco benefício. Na prática, isso muda a pergunta. Em vez de pensar apenas no que pode ser feito, passamos a avaliar o que realmente oferece mais benefício para aquela pessoa, considerando também os efeitos de cada escolha.

O conhecimento sobre o perfil de cada tumor também abriu espaço para novas formas de tratamento. Os anticorpos conjugados a medicamentos, conhecidos como ADCs, combinam um anticorpo capaz de reconhecer determinada característica das células cancerosas com uma substância citotóxica. Ao se ligar ao alvo, o anticorpo funciona como uma espécie de veículo para conduzir essa carga de forma mais direcionada. A imunoterapia segue outro caminho, ajudando o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células malignas. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial e novas técnicas de imagem começam a auxiliar na identificação e na análise de alterações suspeitas. Mais do que aumentar o número de opções disponíveis, esses avanços permitem reunir mais informações para escolher o tratamento de cada paciente.

Na doença metastática, a evolução dos tratamentos também mudou a perspectiva de cuidado. Em determinadas situações, é possível manter o câncer sob controle por muitos anos, utilizando diferentes estratégias conforme a resposta e as características da doença se modificam. Nestes casos, prolongar a vida continua sendo fundamental, mas não é o único objetivo. Trabalho, relacionamentos, sexualidade, autonomia e planos para o futuro também precisam fazer parte da conversa. Afinal, o resultado de um tratamento não deve ser avaliado apenas pelos exames, mas também pela possibilidade de a pessoa continuar vivendo da melhor maneira possível.

Qualidade de vida, portanto, não deve entrar na conversa apenas depois que a terapia termina. Fertilidade, menopausa, saúde óssea, saúde mental e imagem corporal podem precisar de atenção desde o diagnóstico. Técnicas cirúrgicas conservadoras e oncoplásticas, assim como a reconstrução imediata, permitem, em situações selecionadas, preservar ou reconstruir a mama e podem contribuir para a recuperação da imagem corporal. O scalp cooling, por sua vez, pode reduzir a queda dos cabelos em alguns esquemas de quimioterapia. São cuidados que não substituem o tratamento do câncer, mas podem ajudar a diminuir o impacto físico e emocional da doença e de suas terapias.

O acompanhamento também precisa considerar questões que hoje fazem parte das conversas no consultório, como o uso das chamadas “canetas emagrecedoras” e dos chamados “chips da beleza”. Os análogos de GLP-1 atuam em mecanismos relacionados ao controle da glicose, da fome e da saciedade e podem ser utilizados como um recurso adicional no cuidado de pacientes com câncer de mama, sobretudo quando há condições como obesidade, síndrome metabólica, diabetes ou pré-diabetes. Ao contribuir para o controle dessas condições, seu uso pode ter impacto positivo também nos desfechos oncológicos. Além disso, de modo geral, esses medicamentos não apresentam interação com a maioria dos tratamentos oncológicos nem tendem a agravar os sintomas relacionados ao tratamento, mas sua indicação deve ser individualizada e sempre discutida com o oncologista. Já os chamados “chips da beleza” são implantes hormonais que liberam substâncias de forma contínua e, em algumas formulações, podem resultar em exposição hormonal elevada. Esses implantes não têm indicação aprovada pela Anvisa para fins estéticos e de modulação da composição corporal, e a exposição a determinados hormônios pode estar associada ao aumento do risco de câncer de mama. Isso não significa que toda terapia hormonal seja contraindicada. A reposição hormonal pode ser uma opção para algumas mulheres na pós-menopausa, desde que exista indicação médica, sejam utilizados medicamentos aprovados pelas agências regulatórias e haja acompanhamento adequado. Os critérios de indicação devem ser rigorosos, considerando o tipo de hormônio, a dose, a duração do tratamento, o histórico da paciente e os possíveis riscos e benefícios. A preocupação está no uso indiscriminado de hormônios para finalidades estéticas, sem uma avaliação individualizada sobre seus impactos. Para mulheres com câncer de mama ou histórico da doença, qualquer estratégia hormonal deve ser analisada com ainda mais cuidado e discutida com o médico que acompanha a paciente.

Falar em tratamento individualizado significa também ampliar o olhar para as diferentes pessoas que podem desenvolver câncer de mama e entender que o risco e o acompanhamento não são iguais para todos. Embora a doença seja mais frequente em mulheres após os 50 anos, mulheres jovens também podem ser diagnosticadas e, em alguns casos, a presença de alterações hereditárias, como as associadas aos genes BRCA1 e BRCA2, pode aumentar o risco e exigir uma avaliação mais cuidadosa. Homens também podem desenvolver câncer de mama, embora isso seja menos frequente. Da mesma forma, homens trans e pessoas não-binárias que tenham tecido mamário precisam ser incluídos nas estratégias de prevenção, investigação e acompanhamento. Por isso, a indicação de exames e a definição do acompanhamento não devem partir apenas de como a pessoa se identifica, mas de fatores concretos, como a presença de tecido mamário, cirurgias realizadas, histórico pessoal e familiar e o risco individual para a doença. Esse olhar é importante tanto para não deixar pessoas fora do rastreamento quanto para evitar que exames sejam indicados de forma inadequada.

Mesmo com tantos avanços, ainda há dúvidas mais básicas que precisam ser esclarecidas. Um nódulo novo não significa necessariamente câncer, mas deve ser investigado. Dor também não é sinônimo de tumor, enquanto a ausência de sintomas não exclui a doença. Mamografia, ultrassom e ressonância têm finalidades diferentes e não são exames intercambiáveis. A indicação depende de fatores como idade, sintomas, achados clínicos, densidade mamária e risco individual. O rastreamento existe justamente para identificar alterações antes que elas provoquem sintomas.

O Outubro Rosa é uma oportunidade para falar sobre prevenção e diagnóstico precoce, mas também sobre o que acontece depois que uma alteração é encontrada. A evolução da oncologia mamária não está apenas na quantidade de recursos disponíveis, mas na capacidade de selecionar aqueles que realmente podem beneficiar cada pessoa e, quando possível, evitar intervenções que acrescentariam pouco. Tratar melhor não significa necessariamente tratar mais. Significa conhecer a biologia da doença, entender quem está diante dela e construir uma estratégia que combata o câncer sem deixar de cuidar da vida que existe antes, durante e depois do diagnóstico.


*Sara Batista Micheletti é oncologista da Croma Oncologia com foco em tratamento do câncer de mama e tumores ginecológicos.





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