Apesar de algum crescimento nos últimos anos, o Brasil gasta cerca de US$ 1,9 mil por habitante ao ano com saúde, enquanto o Canadá gasta quase quatro vezes esse valor, a Alemanha quase cinco e os Estados Unidos quase oito. É pouco, sobretudo diante das transições demográfica, epidemiológica e da incorporação de novas tecnologias, fatores que ampliam a demanda e pressionam cada vez mais os custos da assistência médica.
Saúde está entre as principais preocupações dos brasileiros, e o setor precisará de mais investimentos nos próximos anos. Quando se fala em aumentar os recursos, os governos costumam recorrer a uma justificativa conhecida: o orçamento é limitado e não há dinheiro suficiente para atender a todas as necessidades. O fato é que, por mais contraditório que possa parecer, há dinheiro de sobra para a saúde no Brasil.
Não se trata, evidentemente, de dinheiro parado nos cofres públicos. São recursos que já estão sendo gastos com saúde, mas não se transformam em saúde. Estão nos exames realizados sem necessidade ou repetidos porque a informação não acompanha o paciente, nos procedimentos que não produzem benefício, na capacidade hospitalar mal utilizada, nas compras ineficientes, na falta de acompanhamento da atenção básica, na burocracia, nas fraudes e em outras perdas que consomem recursos sem melhorar a assistência.
A dimensão dessa conta impressiona. A saúde movimenta cerca de R$ 1,2 trilhão por ano no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse montante, entre 20% e 30% do gasto total de sistemas de saúde como o brasileiro é desperdiçado, de acordo com estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Brasil, essa estimativa corresponde a R$ 240 bilhões a R$ 360 bilhões por ano.
Aqui está talvez a maior surpresa: fraudes e corrupção fazem parte do problema, mas não são sua maior parcela. Entre R$ 100 bilhões e R$ 150 bilhões por ano podem ser consumidos por desperdícios operacionais — processos e compras ineficientes, capacidade mal utilizada ou emprego inadequado de tecnologias. Outros R$ 89 bilhões a R$ 133 bilhões estão associados ao desperdício clínico: exames e procedimentos desnecessários, cuidados de baixo valor, eventos adversos evitáveis e diferenças injustificadas no tratamento de casos semelhantes. As perdas administrativas — fraudes, corrupção, judicialização evitável, abusos e burocracia excessiva — são estimadas entre R$ 51 bilhões e R$ 77 bilhões.
Nenhum sistema de saúde conseguirá eliminar todo o desperdício. Mas não é preciso chegar perto disso para produzir um resultado mais expressivo. Uma redução de apenas 20% dessas perdas potenciais poderia liberar entre R$ 48 bilhões e R$ 72 bilhões por ano para reinvestimento na própria saúde. Tomemos R$ 50 bilhões, praticamente o piso dessa estimativa. É dinheiro capaz de ampliar a atenção primária, informatizar unidades básicas, reduzir filas de cirurgias e aumentar a capacidade de atendimento sem depender de um volume equivalente de novos recursos.
Reduzir desperdícios não significa cortar gastos. Um país que dispõe de poucos recursos por habitante, e que precisará investir mais em saúde, não pode se dar ao luxo de desperdiçar uma parcela tão grande do dinheiro disponível. É preciso melhorar processos e compras, combater procedimentos de baixo valor, utilizar melhor a capacidade instalada e criar mecanismos que privilegiem resultados para o paciente.
Esse é um dos pilares de Os 5 Inegociáveis da Saúde — Uma agenda para as lideranças políticas brasileiras 2027-2030, iniciativa da FESAÚDE e do SindHosp. O Desperdício Contido integra uma engrenagem que inclui ainda Paciente Único, Dados Estruturados, Acesso Qualificado e Cuidado Padronizado. Reduzir as perdas não resolve sozinho os problemas de financiamento, mas permite que uma parcela maior dos recursos já disponíveis chegue efetivamente à assistência.
O Brasil terá de discutir quanto pode e deve investir em saúde diante de uma população que envelhece, de um novo perfil de doenças e de tratamentos cada vez mais caros. Mas essa discussão estará incompleta enquanto o desperdício for tratado como questão secundária. Dinheiro sobrando, no sentido literal, não existe: existe dinheiro faltando, e existe dinheiro sendo desperdiçado. É este último que já está dentro do sistema, à espera de ser recuperado. O desafio não é encontrar recursos novos — é fazer com que o que já se gasta deixe de ser desperdiçado e se transforme em saúde.
*Francisco Balestrin. Médico é especialista em Saúde Pública e em Administração Hospitalar, é presidente da FESAÚDE e do SindHosp (Federação e Sindicato de Hospitais, Clínicas, Laboratórios e Estabelecimentos de Saúde no Estado de São Paulo) e da Arca Think Tank da Saúde.
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