Canetas emagrecedoras e o avanço da desinformação
16/10/2026

Os agonistas do receptor de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes. Muito além da perda de peso, estudos demonstram benefícios consistentes na redução do risco cardiovascular, na proteção renal e em outros desfechos clínicos relevantes. Trata-se de um dos avanços mais importantes da endocrinologia nas últimas décadas.

Paradoxalmente, o sucesso dessas terapias veio acompanhado de um fenômeno preocupante. Em vez de serem reconhecidas como ferramentas para o tratamento de doenças crônicas, as canetas passaram a ser vistas por muitos como uma solução rápida para atender a padrões estéticos. Esse desvio de finalidade impulsionou a automedicação, o uso indiscriminado e, mais recentemente, um mercado clandestino de medicamentos falsificados.

A gravidade desse cenário ficou evidente com as apreensões recordes realizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Polícia Federal, que identificaram milhares de unidades sem qualquer garantia de qualidade ou segurança. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) também alerta que essas formulações clandestinas podem provocar infecções graves, reações sistêmicas e outras complicações potencialmente fatais.

O problema, no entanto, vai além das canetas emagrecedoras. Ele revela uma mudança preocupante na forma como parte da sociedade se relaciona com a ciência. Nunca tivemos acesso a tantos tratamentos eficazes e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos à desinformação.

Esse paradoxo fica evidente quando observamos que pessoas se dispõem a aplicar no próprio corpo substâncias de origem desconhecida, adquiridas sem qualquer controle sanitário, enquanto recusam vacinas cuja eficácia e segurança foram amplamente demonstradas ao longo de décadas de pesquisa. Em ambos os casos, a desinformação exerce um papel central: cria falsas promessas de um lado e alimenta medos infundados do outro.

Os impactos dessa perda de confiança já são visíveis. O Brasil, que durante décadas foi referência mundial em imunização, viu a cobertura vacinal cair de patamares superiores a 90% para índices próximos de 70% nos últimos anos. Mais do que um problema de comunicação, trata-se de uma ameaça concreta à saúde pública.

Como médico, reforço que não existem atalhos seguros para o emagrecimento. O tratamento da obesidade exige acompanhamento especializado, mudanças sustentáveis no estilo de vida e, quando indicado, o uso de medicamentos regulamentados e prescritos com base em critérios clínicos. Da mesma forma, a prevenção de doenças depende da confiança na ciência, nas instituições reguladoras e no Sistema Único de Saúde (SUS).

O verdadeiro paradoxo não está nas canetas emagrecedoras, mas na inversão da percepção de risco. Em um cenário marcado pela desinformação, cresce a disposição para recorrer a medicamentos de origem duvidosa, enquanto intervenções amplamente estudadas e regulamentadas passam a ser questionadas.

Essa lógica compromete não apenas o tratamento da obesidade, mas a capacidade da sociedade de tomar decisões baseadas em evidências.

Combater a obesidade e recuperar as coberturas vacinais passam pelo mesmo caminho: fortalecer a educação em saúde, ampliar o acesso à informação de qualidade e reafirmar o compromisso com a medicina baseada em evidências. Sem isso, mesmo os maiores avanços científicos terão seu potencial limitado.


*Fernando Gerchman é médico endocrinologista do Hospital Moinhos de Vento, Professor de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diretor do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e vice-diretor da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD-RS).





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