No mês mais rosa do ano, as campanhas de conscientização ganham as ruas e as redes. Mas, para além de peças publicitárias, discursos de influenciadores e iluminação de monumentos, cabe uma reflexão urgente: estamos estabelecendo uma verdadeira comunicação entre os serviços de saúde e as mulheres brasileiras?
Hoje, segundo o Índice de Conscientização do Cuidado com a Saúde das Mamas, ferramenta do Instituto Natura e da Avon que mede o nível de conhecimento da população sobre o tema, apenas 34% das brasileiras demonstram ter o conhecimento necessário para lidar com a jornada da doença desde o diagnóstico até o fim do tratamento, assim como para reduzir os fatores de risco para o seu desenvolvimento.
O problema não é o silêncio, mas sim o ruído. Falamos muito, mas nem sempre com a clareza e o direcionamento que transformam realidades — especialmente para as pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), para as quais a informação correta não é apenas um guia educativo de autocuidado, mas um verdadeiro meio de navegação. Empoderá-las com conhecimento é o primeiro passo para garantir que elas consigam transpor os gargalos do sistema e ter seus direitos não apenas ouvidos, mas garantidos.
O mito da prevenção versus diagnóstico precoce é um dos maiores equívocos revelados pelos dados do Índice. Impressionantes 72% das brasileiras acreditam, erroneamente, que realizar consultas e exames de rotina é uma forma de reduzir o risco de desenvolver o câncer. Outras 62% acham que o autoexame (que há anos batalhamos para que seja nomeado como autoconhecimento) previne a doença.
Precisamos ser diretos: o autoconhecimento das mamas, a consulta médica e a mamografia não evitam que o tumor apareça; eles o encontram. A verdadeira redução de riscos passa pela mudança de hábitos e de estilo de vida. O alerta é que 50% das mulheres sequer sabem quais são os fatores que aumentam a probabilidade de desenvolver a doença.
Compreender as etapas do cuidado é o que diminui as lacunas do sistema, e é aqui que entra o papel vital da Atenção Básica e do Agente Comunitário de Saúde (ACS). É na unidade do bairro, no vínculo de confiança com a equipe de saúde da família, que a paciente entende como cuidar de si mesma diariamente e aprende a diferença entre reduzir
riscos e manter uma rotina de rastreamento constante.
O cenário desse rastreamento, contudo, exige atenção imediata. Uma em cada cinco mulheres reconhece que não realiza a mamografia com a frequência recomendada. A última atualização do Panorama do Câncer de Mama — painel do Instituto Natura, do Observatório de Oncologia da Abrale e do Instituto Protea que usa dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) — confirma a gravidade da situação: a taxa de cobertura mamográfica (na população-alvo), que já era preocupante, caiu 1% em um ano, ficando em apenas 22,1% em 2025. O recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) era que fosse de, no mínimo, 70%.
Por outro lado, podemos afirmar já com certeza que a informação salva. Um dado que ilustra perfeitamente o tamanho do nosso desafio — e da nossa oportunidade — é que 76% das brasileiras não sabem que o SUS garante a realização da mamografia em qualquer idade, caso haja sintomas ou indicação médica.
O alerta soa ainda mais forte entre as mais jovens. As mulheres fora da faixa etária de rastreamento têm maior chance de receber um diagnóstico tardio, e a informação sobre esse direito de fazer o exame em caso de um possível diagnóstico é fundamental. Segundo o Panorama, 68,3% das pacientes entre 20 e 29 anos recebem o diagnóstico já nos estágios três ou quatro da doença. Entre as mulheres da faixa etária alvo, 47,6% foram diagnosticadas tardiamente.
O desconhecimento legislativo é outra barreira. Nove em cada dez brasileiras (90%) ignoram a existência da Lei dos 30 Dias (para a confirmação diagnóstica) e da Lei dos 60 Dias (para o início do tratamento). O resultado prático dessa desinformação é a violação do acesso à saúde: em 2025, 62% das pacientes do SUS esperaram mais de dois meses para conseguir se tratar.
O câncer de mama não é uma sentença. O SUS, nosso maior patrimônio público, deve ser o motor que garante o acesso aos avanços da medicina em tempo oportuno. Políticas Públicas eficientes, que reduzam barreiras e abracem essas mulheres cada vez mais cedo, são indispensáveis. Contudo, é a combinação entre um sistema fortalecido e uma mulher bem informada — consciente de seu corpo, da rotina de cuidados e de seus direitos previstos por lei — que representa nossa maior chance de transformar, de fato, a realidade da doença no país.
*Mariana Lorencinho é gerente de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura.