Uma cirurgia que não apresenta o resultado esperado, uma cicatriz que causa insatisfação, uma complicação após um procedimento ou uma reação inesperada a um tratamento podem levar o paciente a questionar se houve erro médico. No entanto, um resultado indesejado não significa, por si só, que exista direito à indenização.
Essa diferenciação é importante porque a Medicina envolve riscos, respostas individuais e possíveis intercorrências que podem acontecer mesmo quando o profissional atua de acordo com os cuidados técnicos esperados.
Ao longo da atuação no Direito Médico, observo que muitas situações começam justamente pela confusão entre aquilo que é uma complicação possível e aquilo que pode, de fato, representar uma falha na prestação do atendimento.
Complicação não é sinônimo de erro médico
Uma complicação pode ocorrer mesmo quando todas as medidas adequadas foram adotadas. Infecções, reações adversas, alterações cicatriciais e outras intercorrências podem fazer parte dos riscos conhecidos de determinados procedimentos.
Por isso, a existência de uma complicação não permite concluir automaticamente que houve erro médico.
É necessário analisar o contexto daquele atendimento: quais eram os riscos envolvidos, quais informações foram fornecidas ao paciente, quais cuidados foram adotados e como o profissional conduziu a situação depois que a intercorrência surgiu.
A análise, portanto, não termina no momento em que aparece um problema. Também é necessário verificar se houve diagnóstico, acompanhamento e tratamento adequados.
Isso significa que uma complicação pode ser uma consequência possível do próprio procedimento, mas a maneira como o profissional reage diante dela também pode ser relevante para a análise de eventual responsabilidade.
O que caracteriza uma possível responsabilidade médica?
Para avaliar se existe responsabilidade, não basta apontar que algo deu errado. É necessário reconstruir o que aconteceu e analisar a conduta concreta adotada pelo profissional.
Como regra, a responsabilidade pessoal do médico depende da demonstração de culpa, caracterizada por negligência, imprudência ou imperícia, conforme estabelece o artigo 14, § 4º, do Código de Defesa do Consumidor.
Na prática, isso significa que é preciso verificar se houve uma conduta inadequada, se essa conduta provocou o dano alegado e se existe relação entre a atuação profissional e o resultado apresentado.
Essa análise pode ser especialmente relevante em procedimentos estéticos. Nesses casos, a maneira como o resultado é apresentado ao paciente, inclusive durante a publicidade e na consulta, pode assumir importância na discussão sobre responsabilidade.
Prometer resultados que não podem ser garantidos ou criar expectativas incompatíveis com as possibilidades reais do procedimento pode gerar conflitos posteriores. Por isso, o alinhamento de expectativas deve fazer parte do próprio atendimento.
A importância da documentação
Em uma discussão judicial ou ética, a documentação do atendimento pode ser fundamental para reconstruir os fatos.
Prontuário, exames, termos de consentimento, registros de acompanhamento, orientações fornecidas ao paciente e documentação relacionada ao procedimento ajudam a demonstrar como o caso foi conduzido.
O prontuário não deve ser encarado apenas como uma exigência burocrática. Ele registra a evolução do atendimento e permite identificar quais informações foram fornecidas, quais decisões foram tomadas, quais intercorrências ocorreram e quais medidas foram adotadas.
Também é importante que os registros sejam feitos de maneira contemporânea ao atendimento. Caso seja necessário complementar alguma informação posteriormente, isso deve ocorrer por meio de nova anotação, devidamente datada, e não pela alteração do histórico original.
O termo de consentimento impede uma indenização?
Não.
O termo de consentimento é uma ferramenta importante para registrar que o paciente recebeu informações sobre o procedimento, seus riscos, benefícios, alternativas e possíveis consequências. Porém, sua assinatura não significa que o paciente tenha aberto mão de seus direitos.
Um termo de consentimento também não funciona como uma autorização para uma conduta inadequada.
Por outro lado, a existência de um risco que foi efetivamente informado ao paciente pode ser relevante para diferenciar uma complicação conhecida e inerente ao procedimento de uma eventual falha profissional.
Por isso, mais importante do que utilizar um documento genérico é garantir que o consentimento seja específico para o procedimento realizado e que o paciente tenha oportunidade real de compreender as informações e esclarecer suas dúvidas.
Quando um resultado pode levar à indenização?
Não existe uma tabela segundo a qual determinado resultado ruim gera automaticamente uma indenização.
A possibilidade de responsabilização depende das circunstâncias concretas e da análise dos elementos jurídicos envolvidos. É necessário avaliar o dano alegado, a conduta do profissional, a existência de culpa e o nexo entre essa conduta e o resultado.
Em determinados casos, essa análise também dependerá de avaliação médica ou perícia.
A perícia pode ser importante justamente para esclarecer questões que não podem ser respondidas apenas sob o ponto de vista jurídico: aquele resultado era uma complicação possível? O procedimento foi realizado de acordo com a técnica esperada? Houve uma falha na condução? O dano poderia ter sido evitado?
O Direito Médico está justamente nessa interface entre a análise jurídica e a compreensão técnica da Medicina.
O que o paciente deve fazer quando acredita que houve erro?
Diante de um resultado insatisfatório ou de uma complicação, é recomendável evitar conclusões precipitadas.
O primeiro passo é reunir a documentação relacionada ao atendimento: prontuário, exames, receitas, termos assinados, registros de acompanhamento e outros documentos pertinentes.
O paciente também pode buscar uma segunda avaliação médica para compreender tecnicamente o que aconteceu.
Somente depois dessa análise é possível avaliar, com maior segurança, se existem elementos que indiquem uma possível falha profissional e, consequentemente, a necessidade de orientação jurídica.
A busca por informação é importante porque nem toda insatisfação representa um dano decorrente de conduta inadequada.
Como o médico pode se resguardar?
A melhor forma de proteção do médico começa antes mesmo de existir qualquer reclamação.
Um atendimento tecnicamente adequado precisa ser acompanhado de uma documentação igualmente adequada. Afinal, anos depois, em eventual discussão judicial ou ética, a memória do profissional não será suficiente para reconstruir todos os detalhes de um atendimento.
Entre os principais cuidados estão:
Manter um prontuário completo e contemporâneo ao atendimento: registrar anamnese, exame físico, hipóteses, exames solicitados, condutas, orientações e evolução do paciente.
Utilizar termos de consentimento específicos: o documento deve ser compatível com o procedimento e contemplar os riscos relevantes, alternativas e cuidados necessários no período posterior.
Alinhar expectativas: é importante explicar de forma clara o que o tratamento pode e não pode proporcionar, evitando promessas de resultado.
Registrar o acompanhamento: retornos, orientações, intercorrências, faltas e eventual descumprimento de recomendações pelo paciente devem ser documentados.
Manter registros fotográficos e exames quando pertinentes: especialmente em procedimentos nos quais a evolução visual seja relevante, sempre observando as autorizações necessárias.
Documentar a condução das intercorrências: diante de um problema, é fundamental registrar a avaliação realizada, as medidas adotadas, os encaminhamentos e a evolução do paciente.
Considerar um seguro de responsabilidade civil profissional: conforme as condições contratadas, esse tipo de cobertura pode auxiliar nas despesas relacionadas à defesa e em eventual condenação ou acordo.
A conduta diante de uma reclamação também importa
Quando um paciente manifesta insatisfação ou apresenta uma reclamação, a reação do profissional deve ser cuidadosa.
Discussões por mensagens, respostas impulsivas em redes sociais ou promessas feitas sem avaliação adequada podem aumentar o problema.
O mais seguro é manter uma comunicação respeitosa, preservar os registros do atendimento, reunir a documentação e buscar orientação jurídica quando houver uma reclamação formal ou quando a situação apresentar potencial de conflito.
Em determinadas situações, uma comunicação adequada pode contribuir para esclarecer o ocorrido e evitar que uma insatisfação evolua para uma disputa judicial.
Nem todo resultado ruim é erro, mas todo caso merece análise
A discussão sobre erro médico exige equilíbrio.
Não é correto considerar que todo resultado indesejado representa automaticamente uma falha profissional. Da mesma forma, não se deve presumir que toda complicação seja inevitável apenas porque está entre os riscos possíveis de determinado procedimento.
Cada caso precisa ser analisado individualmente.
Quais eram os riscos envolvidos? O paciente foi devidamente informado? A conduta adotada estava de acordo com o que era tecnicamente esperado? Houve acompanhamento adequado? Existe relação entre a atuação profissional e o dano alegado?
Essas são algumas das perguntas que precisam ser respondidas antes de concluir pela existência ou não de responsabilidade.
Para o paciente, buscar informação e compreender tecnicamente o que aconteceu é fundamental antes de tomar uma decisão. Para o médico, oferecer um atendimento cuidadoso, comunicar-se de forma transparente e manter uma documentação adequada são medidas essenciais para demonstrar a qualidade da assistência prestada.
No Direito Médico, a análise responsável não deve partir apenas do resultado final. É preciso olhar para todo o caminho que levou até ele.
*Gabrielle Andres Brandão é Advogada especialista em Direito Médico.