Os planos de saúde corporativos, benefício concedido pelos empregadores aos seus funcionários, devem ter um reajuste médio variando de 9% a 11% em 2027, patamar semelhante ao verificado neste ano, de acordo com estimativas da consultoria Marsh.
As negociações entre operadoras e empresas devem ser ainda mais acirradas devido ao fim da escala 6x1, que prevê seis dias trabalhando e um para descanso. “Esse é um tema que vai estar nas mesas de negociação do RH das empresas, porque traz um impacto importante. O plano de saúde já representa a segunda maior despesa, perdendo apenas para salários. Não acredito que haverá retirada do benefício, mas pode haver uma flexibilização, com mais coparticipação, por exemplo”, disse Marcelo Borges, diretor-executivo da Marsh Health and Benefits Brasil.
No país, há 53 milhões de usuários de planos de saúde, sendo que, desse total, cerca de 31 milhões são aqueles concedidos pelos empregadores aos seus funcionários. Há ainda 7,7 milhões de convênios médicos ligados a pequenas e médias empresas que, em geral, são adquiridos por pessoa física e têm um reajuste diferenciado.
O custo médico, que serve de indicador para o reajuste do plano de saúde, esperado pela consultoria Aon é de 11,1%. Já na Marsh, esse indicador é um pouco menor, de 9,6%, porque não há inclusão do impacto do dólar sobre insumos médicos. Considerando esse fator, a inflação médica esperada também é de dois dígitos. Com isso, a inflação médica brasileira deve novamente ser de 2,5 a 3 vezes superior ao IPCA.
“Os medicamentos de alto custo, a judicialização, a cobertura de TEA [terapia do espectro autista] continuam impactando a inflação médica”, disse Thomas Ishizuka, superintendente atuarial da Marsh Brasil.
O custo médico de 11,1% projetado pela Aon no país equivale a um incremento de 1,4 ponto percentual sobre o período anterior. A variação representa uma retomada da alta e mostra que o Brasil vai na contramão da maior parte dos outros países, que deve ver uma desaceleração em 2027.
A taxa média global dos custos médicos esperada no próximo ano é de 9%, o que equivale a uma desaceleração de 0,8 ponto percentual. Segundo Fabio Martinez, líder da área de capital humano para o Brasil na Aon, uma combinação de fatores explica o desempenho do custo médico brasileiro.
Embora a tendência médica esteja diminuindo, continua acima de três vezes a inflação”
— Michael Pedel
“Há mudanças simultâneas no perfil de saúde da população, na frequência de uso dos serviços médicos, na complexidade dos tratamentos e nas tecnologias incorporadas à cobertura dos planos de saúde”, disse Martinez.
Ao contrário de outras regiões do mundo, a área que engloba América Latina e Caribe deve ter uma leve variação para cima, de 1 ponto percentual, puxada pelo Brasil. Na Europa, Ásia-Pacífico e Oriente Médio e África, há uma expectativa de queda nos custos médicos quando comparados aos indicadores de 2026.
Além do Brasil, outros países que devem ver os custos médicos subirem são França, Singapura, Emirados Árabes Unidos e Polônia. “Embora a tendência médica esteja diminuindo, ela continua acima de três vezes a taxa de inflação. As empresas precisam adotar uma abordagem proativa e orientada por dados para administrar custos e proteger o valor dos benefícios aos empregados”, disse Michael Pedel, diretor de benefícios globais da Aon.
Após cinco anos de alta, o custo médico na América do Norte deverá oscilar de 9,3% para 9,2%, beneficiado pelos canadenses, de acordo com levantamento da Aon.
Segundo Martinez, as maiores despesas médicas vêm de doenças cardiovasculares, câncer e doenças autoimunes, especialmente quando exigem internações, terapias prolongadas ou cuidados especializados.
O levantamento deste ano realizado pela Aon mostra o aumento nas contas de medicamentos por causa das canetas emagrecedoras, mas, por se tratar de um tratamento recente, ainda não há dados mostrando os impactos sobre a taxa de sinistralidade dos planos de saúde.
No Brasil, o estudo identificou uma redução média de 56% nas despesas médicas relacionados a cirurgias bariátricas, mas ainda não se sabe se essa queda é integralmente devido ao “boom” das canetas emagrecedoras.
O Ministério da Saúde está analisando a possibilidade de incluir as canetas emagrecedoras no SUS. Caso estejam disponíveis na rede pública, provavelmente a cobertura se estenda para os planos de saúde, uma vez que os procedimentos ofertados no SUS também devem ser oferecidos na rede privada, com poucas exceções.
A estimativa do governo é de gastos de R$ 1,5 bilhão por ano para viabilizar a oferta dos medicamentos contra a obesidade na rede pública de saúde.
O relatório da Aon mostra que os medicamentos à base de GLP-1 e similares respondem por uma parcela entre 1% e 10% dos custos médicos, com média superior a 3% no mundo.
As canetas emagrecedoras estão disponíveis para tratamento em quase 70% dos países pesquisados pela Aon, sendo que, em metade desses mercados, os planos de saúde empresariais cobrem o medicamento.
Em países como China, Alemanha, Malásia e México, a cobertura costuma se limitar aos pacientes com diabetes ou necessidade de controle glicêmico. Já os pedidos para redução de peso são negados.
Na Holanda, os gastos com medicamentos agonistas ao GLP-1 que são reembolsados pelas seguradoras de planos de saúde aumentaram em cerca de €67 milhões em 2025. Em Israel, a demanda elevou os custos farmacêuticos e as operadoras passaram a adotar controles de utilização. Na Letônia, alguns planos de saúde começaram a cobrir medicamentos como Ozempic sob condições específicas.
Nos Estados Unidos, cerca de 12% dos adultos são usuários das canetas GLP-1 para qualquer finalidade e quase dois terços desse público utilizam o medicamento para perda de peso como objetivo principal ou secundário.
“Para as empresas que avaliam subsidiar esses medicamentos, o principal desafio é estruturar um benefício direcionado sem transformá-lo em uma despesa crescente e de difícil previsibilidade. A ampliação das indicações clínicas pode aumentar a população elegível, enquanto a variabilidade de doses, respostas individuais e duração do tratamento dificultam a estimativa do custo futuro”, explicou Martinez.