Formar mais profissionais basta para a medicina do futuro?
04/11/2026

O perfil do médico brasileiro está mudando. O avanço das tecnologias, as transformações nos sistemas de saúde e as novas dinâmicas de trabalho exigem profissionais preparados para tomar decisões complexas, acompanhar a evolução científica e manter o paciente no centro do cuidado. Mas, além das competências individuais, é preciso discutir as condições em que esses profissionais atuam e como podem ter mais autonomia e participação nas decisões que envolvem seu trabalho.

O Brasil nunca formou tantos médicos. Nas últimas duas décadas, o número de cursos de graduação em medicina passou de 143, em 2004, para 448, em 2024, um crescimento de 213%. Em 2025, o país chegou a 2,98 médicos por mil habitantes, segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, coordenado pelo professor Mário Scheffer, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Esse crescimento, porém, não elimina desafios como a distribuição desigual de médicos pelo território, as diferenças nas condições de trabalho e a necessidade de valorizar quem está na linha de frente da assistência.

O médico que atua hoje precisa conciliar conhecimento técnico, atualização permanente e capacidade de tomar decisões em um ambiente cada vez mais complexo. O avanço da inteligência artificial e de outras tecnologias amplia as possibilidades de diagnóstico e tratamento, mas também exige senso crítico para avaliar evidências, responsabilidade no uso dessas ferramentas.

A preparação dos médicos, portanto, não depende apenas de competências individuais. As condições de trabalho, os modelos de contratação e a organização dos serviços também influenciam a prática profissional e a autonomia de quem está na linha de frente da assistência.

Nesse contexto, é importante olhar para a forma como os médicos se organizam profissionalmente. O cooperativismo médico é um modelo em que profissionais se associam para desenvolver uma atividade econômica em comum, participando da gestão e das decisões da cooperativa conforme suas regras de governança. Nesse modelo, os médicos participam da gestão e das decisões sobre a atividade que exercem.

Ao reunir profissionais em torno de objetivos compartilhados, o cooperativismo favorece a troca de experiências, a construção de soluções conjuntas e o enfrentamento de desafios que dificilmente seriam resolvidos por iniciativas individuais. É uma forma de conciliar os interesses dos profissionais com o compromisso de oferecer assistência de qualidade à população.

Essa lógica está na base do Sistema Unimed, organizado a partir da associação de médicos em cooperativas, com participação na gestão e nas decisões, sem perder de vista as necessidades dos pacientes e da sociedade.

Isso não significa que o modelo dispense o investimento na qualificação. Entre 2023 e 2024, 16.189 dos 32.611 médicos que concluíram a graduação — cerca de 49% — estavam cursando residência médica. O dado reforça a importância das oportunidades de especialização e da formação continuada. A formação técnica precisa estar acompanhada de condições para que o profissional exerça a medicina com responsabilidade e autonomia.

Discutir o futuro da profissão exige reconhecer que ampliar o número de médicos é apenas parte do caminho. O cooperativismo médico contribui para essa construção ao reconhecer que a qualidade da assistência também depende de quem a realiza e das condições em que esse trabalho acontece.


*Omar Abujamra Junior é presidente da Unimed do Brasil.





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