Todo mês de novembro, prédios, campanhas e redes sociais se tingem de azul para repetir uma mensagem que nunca perde a atualidade: homem, cuide da sua saúde. Como médico que acompanha diariamente pacientes oncológicos, posso afirmar que essa mensagem tem um sentido muito concreto. A diferença entre um tratamento mais simples e uma jornada longa e difícil, muitas vezes, está no momento em que o homem decide investigar.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. Segundo o IBGE, o homem brasileiro vive, em média, 6,6 anos a menos que a mulher. Na Pesquisa Nacional de Saúde, 69,4% dos homens haviam consultado um médico no ano anterior, contra 82,3% das mulheres. Por trás dessa diferença há fatores culturais conhecidos: a ideia de que procurar o médico é sinal de fraqueza, o medo do diagnóstico, o constrangimento diante do exame e o hábito de só buscar ajuda quando algo já dói.
O câncer de próstata mostra por que esse comportamento custa caro. Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o câncer mais frequente entre os homens brasileiros, com 77.920 novos casos estimados por ano pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) até 2028. Na fase inicial, costuma ser silencioso: não provoca dor, não altera a rotina, não dá sinais. Quando os sintomas aparecem, a doença frequentemente já avançou. Por isso, esperar sentir alguma coisa é justamente a estratégia errada.
A boa notícia é que, quando identificado precocemente, o câncer de próstata tem altas chances de cura, com tratamentos menos agressivos e maior preservação da qualidade de vida. Está aqui o centro da mensagem deste Novembro Azul: investigar é um ato de cuidado, não de medo. O exame de PSA e a avaliação clínica são ferramentas simples, rápidas e acessíveis, e ganham ainda mais valor quando fazem parte de um acompanhamento regular.
Investigar, porém, não é sinônimo de pedir exames de forma automática. A detecção precoce depende de uma conversa individual entre médico e paciente, que considere idade, histórico familiar e outros fatores de risco. A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) recomenda que essa conversa comece aos 50 anos e, para homens negros ou com pai ou irmão diagnosticados com a doença, a partir dos 45. Conhecer o próprio risco é o primeiro passo para decisões informadas, sem alarmismo e sem descuido.
A pesquisa científica também tem transformado esse cenário. A ressonância magnética multiparamétrica tornou a investigação mais precisa e ajuda a evitar biópsias desnecessárias. A vigilância ativa permite acompanhar com segurança tumores de baixo risco, sem tratamento imediato. Técnicas cirúrgicas menos invasivas, a radioterapia de alta precisão e novas terapias para os casos avançados ampliaram as possibilidades de controle da doença. Cada um desses avanços nasceu de anos de estudos clínicos, e todos têm algo em comum: funcionam melhor quanto mais cedo o paciente chega.
Nada disso se limita à próstata. O homem que procura o médico no Novembro Azul é o mesmo que pode ter pressão alta sem saber, que fuma, que bebe além da conta, que adia o cuidado com a saúde mental. Cada consulta é uma oportunidade de olhar para esse paciente por inteiro e de antecipar problemas que, descobertos a tempo, têm solução mais simples.
Para nós, profissionais e instituições de saúde, a campanha é também um convite a acolher bem. O homem que se sente ouvido e bem orientado volta. O que sai confuso ou constrangido, muitas vezes, não volta mais. Informação clara, escuta e respeito ao tempo de cada um fazem parte do cuidado tanto quanto qualquer exame.
Neste Novembro Azul, meu convite é simples e direto: não espere sentir algo. Converse com seu médico, conheça seu risco e faça a investigação no momento certo. A ciência já colocou à disposição do homem brasileiro as ferramentas para descobrir o câncer de próstata cedo e tratá-lo com sucesso. Usá-las é uma decisão que cabe a cada um, e ela começa muito antes de qualquer sintoma.
*Silvio S. Fernandes é Diretor Clinico do Hospital Mário Kroeff.