A tecnologia muda a forma como operamos, acompanhamos pacientes e tomamos decisões. Como cirurgião do aparelho digestivo, vejo nesse avanço oportunidades importantes para a medicina, mas também a responsabilidade de distinguir o que amplia nossa capacidade de cuidar daquilo que ainda precisa ser mais bem avaliado.
Robôs, telecirurgia e inteligência artificial não são a mesma coisa, nem avançam no mesmo ritmo. Cada recurso apresenta possibilidades e limitações próprias. Por isso, mais importante do que acompanhar cada novidade é entender em que situações ela pode contribuir para o tratamento e quais condições são necessárias para que seu uso seja seguro.
A distância não elimina a necessidade de uma equipe
Em junho de 2026, o Hospital de Amor realizou a primeira telecirurgia robótica de longa distância pelo Sistema Único de Saúde (SUS), conectando equipes em Porto Velho, em Rondônia, e Barretos, em São Paulo, a cerca de 2.700 quilômetros de distância. O procedimento demonstrou como a combinação entre tecnologia robótica, conectividade e profissionais especializados pode ampliar o acesso a cirurgias complexas.
Para quem atua na cirurgia do aparelho digestivo, esse avanço merece atenção. Em determinadas situações, aproximar o conhecimento de um especialista de pacientes que estão longe dos grandes centros pode representar uma mudança muito significativa na assistência.
Mas é necessário olhar para além do robô. Uma operação desse tipo depende de conexão estável, estrutura adequada e profissionais preparados ao lado do paciente. A tecnologia permite que o cirurgião comande o procedimento à distância, mas não elimina a necessidade de uma equipe local capaz de atuar diante das necessidades do paciente.
Esse exemplo ajuda a entender uma questão central na incorporação de novas tecnologias à medicina, de que o resultado não depende apenas do equipamento, mas das condições em que ele é utilizado.
Na cirurgia, desempenho não é o mesmo que benefício clínico
A inteligência artificial também está sendo estudada para apoiar diferentes etapas do cuidado cirúrgico, desde a avaliação pré-operatória até o acompanhamento de possíveis complicações e o reconhecimento de estruturas durante os procedimentos.
Uma revisão publicada em 2026 na revista Heliyon, que reuniu 208 estudos sobre inteligência artificial na cirurgia visceral, identificou aplicações em etapas pré-operatórias, intraoperatórias e pós-operatórias. O volume de pesquisas mostra que o campo está avançando. Isso, por si só, não significa que todas essas ferramentas estejam prontas para uso amplo na prática clínica.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 na npj Digital Surgery, por exemplo, identificou limitações importantes na validação de ferramentas de inteligência artificial voltadas à orientação durante cirurgias robóticas. Entre os desafios estão a falta de métodos padronizados e a necessidade de demonstrar, em condições clínicas reais, que os recursos oferecem benefícios relevantes aos pacientes.
Essa distinção é fundamental. Um sistema pode identificar padrões em imagens ou apresentar bons resultados em uma base de dados e, ainda assim, não ter demonstrado que melhora os desfechos de uma cirurgia. Para incorporar uma ferramenta à prática, precisamos saber como ela foi testada, em quais pacientes funciona melhor, quais são suas limitações e como se comporta diante de situações diferentes daquelas usadas em seu desenvolvimento.
Na cirurgia, essa avaliação tem consequências diretas. Uma recomendação pode influenciar a escolha de uma conduta, a identificação de um risco ou o acompanhamento após o procedimento. Por isso, a confiança em uma tecnologia precisa ser construída com evidências, validação e clareza sobre o que ela pode ou não oferecer.
Inovar também é saber avaliar
Não vejo a evolução tecnológica como uma disputa entre a experiência do cirurgião e a capacidade das máquinas. Muito pelo contrário: o caminho mais promissor está em combinar essas contribuições, reconhecendo o papel de cada uma.
A inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade de analisar informações. A cirurgia robótica pode oferecer recursos técnicos importantes. A telecirurgia pode ajudar a conectar especialistas e pacientes separados por grandes distâncias. Mas cada aplicação precisa responder a uma pergunta essencial: o que muda, concretamente, na qualidade e na segurança do cuidado?
A resposta não pode se limitar ao que a tecnologia promete. Ela precisa considerar os resultados, as condições de utilização e as necessidades de cada paciente.
A medicina sempre incorporou novas ferramentas, e a cirurgia continuará se transformando. A responsabilidade do médico é acompanhar essas mudanças com conhecimento e senso crítico, reconhecer oportunidades e avaliar limites. Afinal, inovar não significa adotar tudo o que surge, mas saber identificar o que realmente contribui para cuidar melhor.
*Lucas Nacif é especialista titular em cirurgia geral pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), cirurgia digestiva pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD) e transplante de órgãos pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).