O próximo Nível
21/05/2018
Assim como o Uber trouxe ao setor de transporte uma nova forma de operar e o Airbnb mudou a relação do consumidor em busca de estadia em viagens, o open banking (banco aberto) é a revolução que vai levar as instituições financeiras a outro patamar de relacionamento com clientes e parceiros. Ainda há restrições ao movimento, mas a indústria nacional já começa a se preparar para a tendência mundial que se mostra cada vez mais urgente - afinal, a vontade do consumidor tem de prevalecer e ele muitas vezes não quer entrar no aplicativo ou site do banco para realizar uma transação; prefere ter a experiência financeira no canal digital em que escolheu estar conectado.

Instituições financeiras de países como Reino Unido, Austrália, Espanha, EUA e Cingapura já vêm superando o desafio. Algumas, como as da Austrália, em ambiente regulamentado. Outras, não. Bancos como o Citibank e BBVA iniciaram as primeiras operações usando a tecnologia API - plataforma que conecta virtualmente e em tempo real as informações dos clientes do banco com aplicativos de empresas parceiras. O Santander participa na Espanha de uma jornada experimental com APIs onde realiza exercícios de inovação com fintechs em ambientes fechados.

Para especialistas da área, essas parcerias com as fintech para acelerar a adoção de diferentes tipos de aplicativos em ambiente aberto são fundamentais. "O banco poderá oferecer um ecossistema de aplicativos e o consumidor escolher qual é o melhor para ele naquele momento", afirma Ismail Chaib, diretor de operações da Tesobe (Technical Solutions Berlin) e fundador do Open Bank Project , que desenvolveu mais de 160 soluções de APIs para o setor financeiro e os disponibiliza sem custos.

Segundo o consultor alemão, que participou do Cards Future Payment 2018, realizado nos dias 15 e 16 no Transamérica Expo Center, em São Paulo, a explosão de aplicativos no sistema bancário só será possível com as APIs rodando de forma estruturada. "Neste ambiente, o consumidor pergunta: Google , quero saber o meu saldo. O Google fala com o banco e manda a resposta ao usuário em seu celular. É isso que o API faz. Conecta dois componentes e abre possibilidade para inovações aumentando a lucratividade não só dos bancos, mas também das fintechs", diz Chaib.

Hoje, existem 8 mil desenvolvedores de fintechs usando os aplicativos da Tesobe. E entre 130 bancos europeus e americanos avaliados em pesquisa feita pela consultoria neste ano, 12% disseram que vão lançar APIs nos próximos 12 meses, pois isso irá ajudá-los a realizar operações mais rapidamente.
No Brasil, apesar da ausência de regulação do Banco Central para esse tipo de atividade - que permite, desde que o consumidor consinta, a troca de informações que hoje são sigilosas e estão sob custódia da instituição financeira - Banco do Brasil e Bradesco dão os primeiros passos para testar algumas dessas funcionalidades em ambientes ainda restritos ou desenhados com limitações.

O Bradesco, que optou por começar a oferecer serviços dentro da plataforma controlada pelo banco e com parceiros escolhidos em função das necessidades de seus clientes, defende a adoção de arquitetura voltada à oferta de serviços que vão muito além das transações vocacionais do banco. "As APIs dentro da nossa plataforma permitem distribuir também serviços de terceiros sem colocar em risco a segurança e confidencialidade das informações", diz Maurício Machado de Minas, vice-presidente do Bradesco e responsável pelo Next, banco 100% digital da instituição. Nessa plataforma o cliente tem acesso a serviços como Uber, iFood, Ingresso Rápido e Hotel Urbano.

O banco deu um segundo passo nessa direção na semana passada, passando a oferecer a microempreendedores ajuda em questões práticas como assessoria para abertura de MEI (registro de microempreendedor individual) e para obter o CNPJ em minutos. Tudo dentro de sua API. Aos poucos, o Bradesco planeja ir avançando e testando a oferta de ecossistemas de interesse em cada um de seus produtos como crédito, investimentos e seguros.
O movimento lento e cuidadoso do banco tem explicação: o software do API criptografa a informação, mas, segundo o banco, ainda não consegue garantir totalmente quem é o cliente na ponta da operação. Por isso, a questão da segurança é discutida no mundo todo. "O Reino Unido está um pouco mais adiantado nisso, mas esse é um tema em constante evolução", diz.

Para o BC, esse é um dos pontos mais sensíveis e que deve levar o regulador a criar regras criteriosas para adequação de sua funcionalidade. "Antes de regulamentar, no entanto, é preciso ter certeza de que a tecnologia operacional e seus participantes garantirão segurança e sigilo das informações, que só poderão trafegar com autorização do consumidor", alerta Fábio Lacerda Carneiro, chefe-adjunto do departamento de supervisão bancária do banco.

Essa posição do BC é questionada por instituições menores e mais novas.

E as questões regulatórias, neste caso, são fundamentais para que haja controle de acesso aos dados e para definir quem é o detentor dessas informações. "Também é preciso responsabilizar as empresas que carregam os dados para dar mais segurança ao consumidor", alerta Bruno Poljokan, vice-presidente do Just Online, plataforma de crédito do aplicativo Guia Bolso.

Já Stephanie Fleury, CEO e uma das fundadoras do aplicativo financeiro Dindin, pondera que uma das características das fintechs é a sua credibilidade. "Se essas empresas passarem pelo crivo do BC para deter essas informações, será mais um motivo para se tornarem confiáveis."
O Banco do Brasil foi um dos primeiros a puxar esse movimento entre os grandes do mercado nacional. Em 2017, implantou modelo piloto com fintechs para o desenvolvimento de APIs e open banking por entender que o poder da informação é do cliente e não do banco. "Na medida em que o cliente quer compartilhar a informação temos que prover isso de forma segura", avalia Marco Mastroeni, diretor de negócios digitais do banco, que em agosto do ano passado anunciou parceria com a Conta Azul, desenvolvedora de software de gestão para pequenas e médias empresas. Além de nota fiscal eletrônica e relatórios contábeis, a tecnologia ajuda a fazer conciliação contábil para juntar informações de vários bancos em um único relatório.
"Desde então, o cliente pode autorizar o BB a compartilhar suas informações com a Conta Azul de forma segura via API", exemplifica. Para o banco, o processo está apenas no começo, pois o acordo que mantém com dez fintechs para desenvolvimento de APIs deve avançar para os serviços de crédito consignado, fundos de investimentos, de pagamentos, de identificação de clientes e de cobrança. Essas tecnologias estão em fase piloto.
Fonte: Valor




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