Um milhão de partos sem pré-natal adequado
29/06/2018
Um terço das gestantes brasileiras que tiveram bebê em 2016 não teve acesso a pré-natal adequado. Isso corresponde a 1 milhão de partos realizados naquele ano, segundo o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM). É considerado adequado, por definição do Programa de Humanização do Pré-Natal e Nascimento, do Ministério da Saúde, no mínimo, sete consultas durante a gestação. Os dados consideram as redes pública e privada do setor.

— Dessa forma, a meta do país, de atingir 95% de atendimento adequado no pré-natal, levará 13 anos para ser alcançada, considerando que essa taxa cresça com a mesma intensidade dos últimos três anos (2,8% ao ano) — afirmou Jonathas Goulart, coordenador de Estudos Econômicos da Firjan.

Segundo o economista, esse dado tem relação direta com outro número alarmante do estudo: naquele mesmo ano, foram registrados mais de 27 mil óbitos de menores de cinco anos, mortes que poderiam ter sido evitadas por ações efetivas dos serviços de saúde.

Para Renato Augusto Sá, presidente da Comissão Nacional Especial de Medicina Fetal da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), considerando um conceito mais amplo de pré-natal, o problema é ainda maior:

— Tem outras questões que entram nessa definição, como a preparação para a gestação, com vacinas e ingestão de ácido fólico, que ajuda a prevenir doenças do tubo neural do bebê, e também os exames necessários durante o pré-natal. Não adianta ela fazer todas as consultas, e o posto de saúde não dar condições para os exames.

Ele explica que, atualmente, também é considerada parte do pré-natal a participação do pai, para que ele tenha a oportunidade de fazer exames e tomar vacinas, como a tríplice bacteriana, importantes para proteção do bebê.

Maria Angélica da Silva, de 29 anos, é mãe de Thiago, de 9 anos; Thaynara, de 1 ano e 11 meses; e Théo, de apenas 1 mês de vida. Como só descobriu a última gravidez no 4º mês, conseguiu fazer apenas cinco consultas de pré-natal — quantidade inferior à indicada pelo Ministério da Saúde. Ela fez o acompanhamento da gravidez em uma Clínica da Família em seu bairro.

— Quando ia fazer a sexta consulta na gravidez do Théo, ele nasceu. Mas consegui realizar todos os exames que o médico pediu. Nas gestações anteriores, fiz exatamente sete consultas — afirma a mãe, dizendo que teve uma gravidez sem complicações.

Atualmente, o pré-natal é importante para identificar, por meio de exames básicos, como o de sangue, a presença de sífilis congênita: doença que era para ter sido erradicada em 2015, mas, ao contrário, a incidência voltou a crescer, ressalta Sá. Todas as pessoas sexualmente ativas devem realizar o teste, principalmente as gestantes, pois, além de causar aborto, se não tratada, pode ser transmitida para o bebê.

— Filhos de mulheres que tiveram diabetes ou hipertensão na gravidez, que podem ser contornadas com o acompanhamento do pré-natal, têm mais chances de desenvolver essas mesmas doenças — explica o médico.

ATENDIMENTO PÚBLICO CRESCEU

Segundo o Ministério da Saúde, o número de mulheres atendidas no prénatal pelo SUS passou de 220.820 em 2012 para 1.476.013 em 2017. Isso quer dizer que o número de gestantes com acompanhamento da gravidez cresceu quase sete vezes em cinco anos. Segundo a pasta, o pré-natal adequado é aquele iniciado pela gestante até a 12ª semana de gravidez, com a realização de todos os exames até a vigésima semana e que conta com a participação do parceiro.

O Ministério da Saúde alegou que que ter um terço das gestantes sem o atendimento adequado se deve à baixa adesão de gestantes, às falhas na identificação do risco obstétrico nas consultas ou a alguma desarticulação da rede de cuidados local (laboratorial, atenção básica, rede hospitalar). “A assistência pré-natal adequada, com a detecção e a intervenção precoce de riscos, um sistema hospitalar ágil, além de uma assistência ao parto qualificada são determinantes para diminuir as principais causas de mortalidade materna e neonatal”, afirmou a pasta em nota. (Daiane Costa e Ana Carolina Santos, estagiária)

“Não adianta ela fazer todas as consultas, e o posto de saúde não dar condições para os exames”
Fonte: O Globo




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