Sistemas se voltam à previsão de doenças
02/05/2019
Em 2030 - quando a população brasileira com mais de 60 anos deverá ser de cerca de 42 milhões de pessoas, a mesma quantidade de crianças e jovens de até 14 anos - os gastos com saúde privada (convênio médico) devem atingir R$ 383,5 bilhões. Esses valores representam um aumento de 157% quando comparados a 2017, segundo dados do Instituto de Saúde Suplementar (IESS). A lógica do mercado de convênios médicos que os jovens, normalmente mais saudáveis, subsidiem os mais velhos está se quebrando com o envelhecimento da população brasileira.

Diante desse cenário demográfico inexorável, a tecnologia deve exercer um papel relevante no setor. Não à toa, gigantes como Apple, Google e Amazon já desembarcaram na área médica com as mais variadas soluções que prometem reduzir os custos e mudar a forma de relacionamento entre médicos e pacientes. Alguns exemplos: o relógio Apple watch registra as calorias gastas numa caminhada, mede os batimentos do coração e, segundo especialistas, poderá até funcionar como desfibrilador em caso de parada cardíaca.

A Alphabet, dona do Google, trabalha no desenvolvimento de um software de reconhecimento de voz que promete ser capaz de sinalizar uma depressão. No ano passado, a Amazon desembolsou US$ 1 bilhão na aquisição da PillPack, uma farmácia on-line especializada em entrega de medicamentos em doses personalizadas. "Há uma explosão de inovação, hoje temos uma inteligência artificial mais barata e mudando fortemente a economia e o modo de gestão. Não é mais aquela ciência do foguete, difícil de ser alcançada", diz Cristiano Kruel, head de inovação da StartSe, plataforma que conecta startups e investidores.

Segundo especialistas, o setor deve passar por uma transformação estrutural por conta de uma mudança no foco do negócio. A tendência é que o sistema seja mais voltado à manutenção da saúde e predição de doenças. Atualmente, todo o setor é voltado para tratar a doença, o que gera custos elevados. No ano passado, o reajuste dos planos de saúde empresarial, de 19%, foi cerca de cinco vezes superior ao IPCA, de 3,75%.

Em meio à revolução tecnológica e um olhar mais atento à prevenção, a área da medicina diagnóstica é considerada uma das mais promissoras nos próximos anos. Uma das principais vias de crescimento serão os exames genéticos que possibilitam a adoção de tratamentos e medicamentos mais personalizados e, consequentemente, mais assertivos porque serão moldados conforme as características genéticas de cada paciente.

Daniel Kraft, médico americano especializado em inovação no setor de saúde da Singularity University, centro de inovação no Vale do Silício, na Califórnia (EUA), defende que nos próximos anos haverá produção de pílulas de medicamentos personalizadas e produzidas em impressoras domésticas 3D. "Nos Estados Unidos, entre os medicamentos mais vendidos, o mais eficaz funciona para um usuário de cada quatro pessoas. O remédio menos eficiente beneficia apenas uma pessoa para um grupo de 24", disse Kraft, durante evento promovido pela International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial, em Miami (EUA), no mês passado.

Outra novidade que está em fase de estudos, porém, com potencial para mudar muito setor é a terapia celular Crispr, uma técnica que permite editar as células de DNA. Recentemente, o cientista chinês He Jiankui editou os genes dos embriões de gêmeas para torná-las resistentes ao vírus da aids - a medida causou alvoroço na comunidade médica e levantou questionamentos sobre a segurança e ética do procedimento.

Com o crescimento do mercado de prevenção de doenças, a rede de medicina diagnóstica Dasa já enxerga outras oportunidades de negócios. Dona de laboratórios como Delboni Auriemo, SalomãoZoppi, Sergio Franco, Alta Diagnóstica, entre outras bandeiras, a rede não vai mais atuar apenas "atrás do balcão", ou seja, atendendo os pacientes que chegam as suas unidades. A empresa está desenvolvendo dispositivos para acompanhar pacientes com doenças crônicas. "Deixaremos de ser reativos. Vamos monitorar o paciente 24 horas e, quando fizer sentido, avisaremos o médico que há algo errado. A inteligência artificial tem capacidade para detectar um problema e não vai enviar milhares de informações sem necessidade para o médico", afirma Pedro Bueno, presidente da Dasa, dona de mais de 500 laboratórios e da GeneOne, empresa focada em genética.

Questionado sobre os custos e impactos dos exames genéticos, que atualmente têm um preço elevado, Bueno destaca que a inteligência artificial tem a capacidade de coletar e cruzar milhares de informações dos pacientes e, com isso, esse tipo de exame será ofertado em maior escala e o impacto no custo final será positivo para o sistema. Hoje, entre 15% e 20% dos custos dos planos de saúde referem-se a exames diagnósticos e cerca de 70% das decisões clínicas são tomadas com base em exames.
Os hospitais também estão de olho no mercado de medicina preventiva para reduzir os custos do plano de saúde e também devido ao envelhecimento da população, que provocará o aumento no número de casos de doenças crônicas. Esses pacientes demandam um acompanhamento constante a fim de evitar que tenham crises agudas e sejam internados.

As internações hospitalares representam cerca de 50% do custo do plano de saúde. "Com o envelhecimento da população, haverá um aumento dos casos de doenças crônicas, que hoje já representam 70% dos custos totais [privado e público]. Quase um terço da população brasileira tem pelo menos uma doença crônica", afirma o médico Paulo Marcos Senra Souza, conselheiro do Instituto Latino Americano de Saúde (Inlags).

Além das doenças crônicas, é esperado um aumento relevante na incidência de casos de câncer, doenças mentais e problemas neurológicos nas próximas décadas. Parte desses casos terá atendimento via telemedicina, uma tendência considerada irreversível apesar de recentemente o Conselho Federal de Medicina (CFM) ter barrado essa forma de atendimento médico no Brasil.

"A saúde mental vai ser uma das grandes demandas nos próximos anos e vai gerar altos custos A psiquiatria não tem marcadores clínicos e a inteligência artificial vai ajudar muito para o diagnóstico. Se a pessoa, por exemplo, começar a digitar muito rápido pode ser um sinal de mania", diz Aline Medeiros, médica da Optum, empresa de saúde focada em tecnologia da UnitedHealthGroup, dona da Amil.

O foco na medicina preventiva deve provocar mudanças estruturais nos hospitais que tendem a ser cada vez menores e especializados em baixa ou alta complexidades. Segundo Francisco Balestrin, presidente da International Hospital Federation (IHF), entidade que reúne hospitais do mundo todo, a tendência é que as cidades tenham centros de saúde formados por hospitais de baixa e alta complexidade, clínicas e laboratórios de medicina diagnóstica, todos localizados numa mesma região. "Vai haver um redesenho do modelo. Os hospitais serão cada vez mais abertos porque eles não serão definidos por suas estruturas físicas e, sim, pelas informações e serviços que serão capazes de prover e que podem ser a distância", afirma Balestrin.

"Haverá mudanças na forma de atender o paciente, mas a relação dele com os médicos não deixará de existir com a tecnologia", diz Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, destacando que o processo de reduzir a hospitalização já começou. Klajner lembra que no Einstein, o prazo médio de internação caiu de 5,5 dias para 3,2 dias nos últimos cinco anos.

O Einstein é um dos hospitais que mais vem investindo em inovação e um dos pioneiros em telemedicina. O hospital faz cirurgias com robôs há cerca de dez anos e tem uma aceleradora de startups de saúde.

Maior grupo hospitalar do país, a Rede D'Or vai investir R$ 8 bilhões em expansão, mas também está apostando em outros negócios relacionados às tendências do setor. A companhia comprou, no ano passado, os laboratórios de medicina diagnóstica Richet, com 11 unidades no Rio, é dona da empresa de banco de sangue GSH, de 35 clínicas oncológicas e de unidades voltadas para diálise. Além disso, possui uma corretora de saúde, que comercializa e faz gestão de convênios médicos para 1,7 milhão de funcionários - formato semelhante ao trabalho de consultorias como Aon e Mercer Marsh.

Balestrin pontua que, no Brasil, praticamente não há hospitais especializados em procedimentos de baixa complexidade. Esses casos são tratados nos hospitais que têm uma estrutura cara, com UTI, equipamentos de alto custo, entre outras despesas elevadas. Da receita hospitalar, atualmente, 70% vêm de procedimentos de recuperação, 10% de reabilitação e 20% de prevenção e promoção.

Grupos mais novos, que estão surgindo dentro desse novo cenário, já investem nesse modelo citado por Balestrin. A Hospital Care, holding de hospitais do fundo Bozano e do empresário Elie Horn, já tem focado sua estratégia de crescimento numa expansão que envolve hospitais de alta complexidade cercados por clínicas médicas, laboratórios e hospitais de baixa complexidade ao seu redor como acontece em Campinas, no interior de São Paulo.

A mudança mais esperada no setor é a forma de remuneração entre operadoras de planos de saúde e prestadores de serviço (hospitais, clínicas, laboratórios). O assunto é debatido há vários anos, sem sucesso, mas recentemente com a pressão das empresas demonstrando dificuldades em pagar o plano de saúde dos seus funcionários (65% dos convênios são corporativos) por conta dos elevados reajustes, os interlocutores do setor iniciaram um movimento de mudança.

Atualmente, a maior parte dos procedimentos hospitalares ainda é paga por meio de conta aberta, ou seja, não há um preço fixo por procedimento, o que acaba gerando muitas vezes desperdício. Hoje, se ganha por volume e não por desempenho médico. Vale pontuar que há vários casos de cirurgias em que não é possível fixar valores devido à complexidade dos casos e seus desdobramentos.

Grandes hospitais e operadoras já estão trabalhando com preço fixo por procedimento e alguns outros começaram adotar um modelo em que remuneração é feita de acordo com a performance do procedimento. O Sírio Libanês e a Amil adotaram um projeto piloto em que o hospital pode ter um ganho adicional se o paciente não reinternar. Para a operadora é interessante porque ela tem previsibilidade de custos.

Neste contexto, as fornecedoras de materiais e medicamentos também deverão entrar nesse formato de remuneração. Por exemplo, se uma prótese apresentar problemas técnicos haverá punições. "As negociações de preço vão envolver compartilhamento de risco e vão envolver também as fornecedores e indústria farmacêutica", diz Mariana Wizel, gerente sênior da área de saúde da consultoria EY.

Em meio a esse cenário de uso de dados genéticos e algoritmos na saúde para uma medicina preventiva, as questões envolvendo ética e segurança de dados vão andar em paralelo nos próximos anos. "O setor de saúde está muito preocupado com a Lei de Proteção de Dados. Mas o uso de dados é uma tendência sem volta nesse setor que vai atuar cada vez mais com uma medicina personalizada", diz Ana Candida Sammarco, especialista em Life Sciences e Saúde do escritório de advocacia Mattos Filho.

Um projeto de lei em tramitação na Câmara permite que as operadoras exijam exames antes da contratação do plano de saúde, mas elas não poderão usar os dados genéticos das pessoas para calcular os riscos de contratação do convênio médico.

Questionamentos éticos também ganharão cada vez mais força. A terapia celular Crispr permite a edição de células doentes, mas também permite que as pessoas possam escolher a cor dos olhos dos filhos ou até criar super seres humanos. "Qual vai ser o limite para manipular os genes?, questiona Aline, da Optum.

 
Fonte: Valor




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