Conselho de startup vira espaço para troca de experiências
01/07/2019
O engenheiro Mauri Seiji Ono, 51 anos, construiu a trajetória profissional em grandes empresas, mas há quatro anos decidiu trocar o ambiente corporativo tradicional por uma carreira independente como consultor, mentor e, mais recentemente, conselheiro de startups. Desde 2018, integra o conselho de administração da Knewin, empresa catarinense de inteligência em recuperação de informação. Como membro independente, também participa do conselho do fundo de venture capital FIMA, gerido pela Inseed Investimentos.

Com a evolução do ecossistema brasileiro de startups, cada vez mais executivos passam a atuar como conselheiros de empresas novatas ou equilibram essa função com atribuições em companhias. No caso de Ono, a aproximação com o empreendedorismo nasceu dentro da Algar, onde o executivo trabalhou durante 15 anos e encerrou a jornada como vice-presidente de estratégia e inovação, em 2015. Nesse período, uma das experiências foi a criação de um novo negócio, a Alsol Energias Renováveis, adquirida em maio deste ano pela Energisa. "Na época, assumi a incumbência de colocar a empresa no ar. Atualmente, ela está em toda a América Latina", conta.

A experiência é colocada hoje a serviço de empreendedores. Tanto nas mentorias, quanto nas reuniões de conselho, o papel de Ono é ajudar a fortalecer a governança corporativa das startups. A participação no conselho de empresas nascentes também é fonte de troca de conhecimento, segundo ele. "Contribuo muito nas reuniões, mas também me coloco na posição de aprender com eles. É um prazer ver a organização, que estava num estágio anterior, amadurecendo e ganhando força", diz.

Desde 2016, o administrador David Kato, 37 anos, é membro do conselho da easyQasa, startup que oferece serviços de limpeza e manutenção comercial. A oportunidade de conhecer um novo modelo de negócio atraiu Kato que, dois anos antes, havia feito um aporte como investidor-anjo na startup. Até agosto de 2018, o executivo equilibrou a posição de conselheiro com as atividades no iFood, onde foi diretor das áreas de tecnologia, operações e novos negócios. Liderou, ainda, as operações no México por dois anos e meio. "Na época, eu era convidado para participar das reuniões do conselho de administração. Foi uma experiência muito bacana."

Na opinião de Kato, a rotina de um conselho em startup exige que os empreendedores deixem de olhar um pouco para a operação e passem a enxergar mais aspectos estratégicos. "Obriga os fundadores a saírem do dia a dia e refletirem sobre questões como captação de recursos (funding), movimentos de concorrentes, orçamento e desafios de vendas", destaca. Segundo ele, na easyQasa, as reuniões de conselho são trimestrais e os conselheiros recebem antecipadamente do fundador, Martin Romero, uma agenda com os temas para discussão.

>> Leia mais: Escolha do colegiado depende do estágio do negócio

Na Convenia, a estrutura foi montada no começo de 2014, um ano após a criação da startup e as reuniões de conselho ocorrem a cada dois meses. Ainda que hoje o modelo funcione bem, de início trouxe dor de cabeça. "Naquele começo, foi uma experiência ruim, com reuniões improdutivas. Uma das principais lições é compartilhar as informações antecipadamente para não pegar os conselheiros de surpresa", conta o CEO Marcelo Furtado. Ficou claro para ele que quem determina as discussões do board é o empreendedor. Com a pauta definida, o conselho passa a ser mais estratégico, e não dá para delegar aos conselheiros questões do dia a dia.

Segundo Furtado, o conselho traz disciplina para os empreendedores, que param e discutem estratégias do negócio. Exemplo disso é a aprovação do orçamento anual, que não se limita a observar o retrovisor e fazer projeções. "Precisa destacar a estratégia de aquisição de clientes, novos canais, crescimento de time, desenvolvimento de produtos, entre outros assuntos", explica. Foi com indicação do conselho, inclusive, que a startup contratou um executivo sênior para a área de benefícios.

A Convenia oferece para empresas, principalmente de pequeno e médio porte, um software na nuvem que automatiza processos como admissão, férias, benefícios, folha de pagamento e desligamento. Com 70 funcionários, a startup atende mais de 3 mil clientes, incluindo empresas como Rock Content, Loggi e Samba Tech. Sem revelar os números, Furtado diz que o faturamento dobrou em 2018 na comparação com o ano anterior e que a expectativa é repetir a dose em 2019.

Quem também adotou um conselho foi a Cuponeria, plataforma de cupons de desconto em restaurantes, bares, salões de beleza, sites de e-commerce e outros estabelecimentos. "Os conselheiros costumam trazer peças que faltam no quebra-cabeça", observa a economista Nara Iachan, cofundadora da startup. Pode ser tanto uma nova estratégia, como a rede de relacionamentos e contatos, exemplifica.

Criada em 2011, a startup realiza reuniões mensais de conselho desde 2014, quando um grupo de investidores-anjo fez um aporte no negócio. Hoje, o board é composto pelos três sócios-fundadores, um integrante da aceleradora ACE e dois executivos do Bradesco - o fundo de investimento em startups do banco, o inovaBra ventures, investiu na startup no ano passado. Atualmente com uma equipe de 30 profissionais, a Cuponeria reúne mais de mil empresas parceiras, entre elas Ambev, Bradesco, Marisa e Carrefour. Para este ano, a previsão é aumentar o faturamento em 50% em relação a 2018.

Segundo especialistas em governança corporativa e empreendedorismo, toda startup deveria ter um conselho, ainda que de maneira não estruturada. Na maioria dos casos, um caminho indicado é montar um conselho consultivo e, conforme o negócio ganha tração, evoluir para um de administração. "O conselho, especialmente o consultivo, tem capacidade de acelerar conexões e tomada de decisões. Também dá uma solidez grande na hora de captar investimentos", avalia Luiz Candreva, head de inovação do hub/sp. Com uma carreira nas áreas de vendas e marketing, incluindo uma trajetória na Apple, ele participa atualmente do conselho de sete startups.
 
Fonte: Valor




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