Crise pode retardar o avanço da automação no mercado brasileiro
18/07/2019
A crise econômica - que já dura cinco anos- e problemas estruturais podem retardar o avanço da automação do mercado de trabalho no Brasil. Em maior ou menor ritmo, contudo, ela virá, dizem os especialistas.

A fraqueza da indústria, a alta carga tributária e a burocracia complexa são alguns dos obstáculos, em especial para pequenas e médias empresas, que empregam grande parte da força de trabalho no país. Por causa do desemprego, trabalhadores têm aceitado salários mais baixos, tornando menos premente o uso de tecnologia para reduzir custo e ganhar produtividade, diz Herbert Kimura, pesquisador sênior do Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações (Lamfo), da Universidade de Brasília (Unb).

Mas a tendência é que os benefícios financeiros da automação fiquem mais evidentes, afirma Kimura. "Empresários que não transformarem sua força de trabalho perderão competitividade e eventualmente terão de se adaptar, ou sairão do mercado. Ou seja, a automação no mercado de trabalho é inevitável", afirma Kimura.

O país pode se manter tecnologicamente atrasado operando com baixa produtividade e trabalhadores de baixa qualificação se continuar protegido do mercado externo, diz Sergio Firpo, professor titular do Insper, que tem na economia do trabalho uma de suas áreas de pesquisa. "Podemos ser mais pobres protegendo atividades que deixarão de existir. Ou podemos nos expor ao mundo, às tecnologias de ponta, talvez com um custo de transição em que boa parte dos empregos que conhecemos deixará de existir".

Na indústria, setor em que a automação é mais evidente, o Brasil enfrenta um problema anterior: sua sobrevivência. "O atraso da indústria tenderia a preservar vagas, mas o setor está diminuindo. Ou seja, não vai gerar empregos. Estamos no estágio de perder o setor industrial e realocar os trabalhadores para setores de serviços não sofisticados", afirma o economista Paulo Gala, professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (EESP-FGV). Ele aponta o baixo número de robôs no país. Dados de 2016 da Federação Internacional de Robótica (IFR, na sigla em inglês) apontam que proporção de robôs industriais no Brasil era de 10 para 10.000 trabalhadores, para uma média global de 74.

Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), tem a mesma visão. Para ele, o potencial de perda de emprego é baixo porque o país tem mão de obra barata em comparação com o custo de adoção das novas tecnologias. "Ainda temos um parque relativamente obsoleto, o que significa baixa difusão da automação", diz. Segundo a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), 82% das empresas do setor ainda estão na etapa 2.0, de tecnologia mecânica, ou seja, não entraram na era da automação.

Nos últimos anos os segmentos que ganharam mais peso na estrutura do setor são aqueles mais intensivos em riqueza natural. Aqueles em que a robotização mais tem avançado (automobilística, eletrônicos e outros de maior complexidade) perderam espaço, diz Gala.

No setor de serviços - o que mais emprega - o processo deve ser mais rápido, a julgar pela disseminação dos aplicativos de entregas, transportes, academias, cursos de línguas, serviços financeiros, entre muitos outros.
 
 
Fonte: Valor




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