Saúde precária é indicador de subdesenvolvimento
05/08/2019

Não restam dúvidas de que quando os indicadores de saúde pública apontam para uma série de deficiências crônicas, tanto na prevenção quanto no pronto atendimento de seus cidadãos, este país pode, facilmente, ser classificado como subdesenvolvido. Nenhum outro indicador revela com tanta nitidez essa condição. Saúde, em primeiro lugar, e, depois, educação, estão entre os principais indicadores de desenvolvimento de um povo. Nesse sentido e apenas nesse quesito, é possível afirmar, sem medo de errar, que até pequena ilha de Cuba, no Caribe, considerada a ilha prisão dos irmãos Castros, é bem mais desenvolvida do que o gigante brasileiro. Obviamente, são situações diferentes e específicas, mas que, no fundo, falam muito sobre nosso subdesenvolvimento crônico.

Diante do impasse gerado pelo desnível existente entre a qualidade nos atendimentos dos planos de saúde privados e a dos hospitais públicos, que implicam possibilidade de viver ou morrer, o que salta aos olhos em primeiro lugar é a desigualdade econômica, decorrente da concentração de renda por uma minoria da população. Claro que, seguindo por esse caminho, não é possível chegar à resolução do problema. A questão aqui é, simultaneamente, melhorar tanto a universalização nos planos privados quanto melhorar a qualidade de atendimento dos serviços públicos de saúde, dando oportunidade a todos de escolha.

Em comum, na contabilidade de problemas enfrentados tanto no setor privado quanto no setor público, está o envelhecimento acelerado de nossa população. Para os empresários que operam no setor privado, a solução foi sobretaxar justamente os beneficiários mais idosos, não importando o nível de renda dessa população. Com isso, é comum encontrar pessoas na terceira idade que chegam a gastar o grosso de seus proventos com prestação de planos particulares e com a compra de remédios, criando uma situação em que qualquer outro gasto necessário é suspenso.

É comum verificar que milhões de aposentados, por todo o país, recebem e gastam seus salários apenas para se manterem vivos. A necessidade de mudar esses sistemas de saúde, tornando de um lado mais barato e de outro, com melhor qualidade, é premente.

Em uma década, em 2030, o número de beneficiários idosos crescerá 58% com as despesas saltando para algo em torno de R$ 384 bilhões, ou seja, um aumento de quase 160% no sistema de saúde suplementar.

Para alguns especialistas, é preciso antes de tudo mudar o sistema de saúde básica, focando mais num tipo de saúde em que a prevenção passe adiante de outros atendimentos. Embora discutível e pouco eficiente, dado o nível de problemas apresentados na saúde dos brasileiros, esse parece ser um caminho mais suave e com menos custos a longo prazo. Outros entendem que a própria Reforma da Previdência poderia, numa segunda etapa, contemplar direitos e seguridade aos idosos brasileiros, concedendo-lhes, além do salário aposentadoria, um acréscimo destinado à manutenção de saúde desses antigos contribuintes.

Muitos brasileiros, principalmente os que têm planos privados, são unânimes em reconhecer que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), mesmo criando uma série infinita de regras, sempre prejudicaram aos segurados, parecendo atender mais às empresas do que aos mais de 47 milhões de consumidores.

O poderoso lobby feito por essas empresas junto aos políticos no Congresso está muito acima de qualquer possível pressão feita pelas entidades que buscam proteger os segurados, principalmente os mais idosos. Com isso, as empresas deitam e rolam, ajustando abusivamente as mensalidades de idosos e de todos aqueles com histórico familiar de doenças crônicas, justamente quando esses clientes mais precisam.

Questões como essa, dentro de uma perspectiva de amplo liberalismo econômico, conforme advoga o novo governo, ganham dimensões dramáticas quando se sabe que boa parte dos segurados não são pessoas de alta renda. Há ideias ainda mais radicais que defendem que o governo arque, obrigatoriamente, com os custos de planos e hospitais privados para todo o brasileiro que não for atendido imediatamente e bem atendido pelo SUS, o que seria uma grande lição para os governantes e as elites administrativas do país, atendidas todas elas pelos melhores e mais caros do planeta às custas dos contribuintes, abandonados à própria sorte.





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